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06/01/2010

Clube de poligamia malasiano atrai críticas

International Herald Tribune
Liz Gooch
em Kuala Lumpur (Malásia)
Rohaya Mohamad, 44, é médica articulada, que usa óculos e estudou em uma universidade no País de Gales. Juhaidah Yusof, 41, é tímida professora islâmica e mãe de oito filhos. Kartini Maarof, 41, é advogada de divórcios e Rubaizah Rejab, uma mulher de aparência jovem de 30 anos, ensina árabe em escola privada.

A vida dessas quatro mulheres está fortemente interligada -elas cuidam dos filhos umas das outras, cozinham umas para as outras e compartilham a mesma casa nos finais de semana.

Elas também dividem o mesmo marido.

O homem no centro deste arranjo matrimonial é Mohamad Ikram Ashaari, enteado de Hatijah Aam, 54, uma senhora malasiana que, em agosto, estabeleceu um clube para promover a poligamia.

"Os homens são poligâmicos por natureza", disse Rohaya, a terceira esposa de Ikram, ao lado das três outras mulheres e o marido Ikram para uma entrevista em recente manhã. As mulheres vestiam saias até o tornozelo e "tudungs", termo malásio para lenço de cabelo. "Ouvimos falar de muitos homens que tinham 'outras mulheres' ou casos ou que saíam com prostitutas porque, para os homens, uma mulher só não é suficiente. A poligamia é uma forma de vencer males sociais como estes."

O Clube de Poligamia Ikhwan é administrado pela Global Ikhwan, empresa cujos empreendimentos incluem fábricas de pão e macarrão, uma planta de processamento de frango, farmácias, cafés e supermercados. Ikram é diretor da empresa.

Apesar de a poligamia ser legal na Malásia, que é predominantemente muçulmana, o clube foi alvo de críticas do governo e de líderes religiosos que suspeitam que seja uma tentativa de reativar o Al-Arqam, um movimento islâmico defunto chefiado pelo marido de Hatijah, Ashaari Mohamad, que é fundador e proprietário da Global Ikhwan. O Al-Arqam foi proibido em 1994 por pregar ensinamentos religiosos "depravados".

O clube nega as alegações que está tentando reativar o Al-Arqam e diz que seu objetivo é ajudar mães solteiras e mulheres que "passaram da idade" a encontrarem maridos.

O Clube de Poligamia Ikhwan alega ter 1.000 membros na Malásia, Indonésia, Austrália, Cingapura, Tailândia, Oriente Médio e Europa. Recentemente abriu uma filial em Bandung, Indonésia, e planeja abrir outra em Jacarta. A maior parte dos membros são funcionários da Global Ikhwan e antigos membros do Al-Arqam. Seus membros se reúnem regularmente para encontros e sessões de aconselhamento sobre relacionamento, dadas por membros mais antigos do grupo.

Sob a lei malásia, os muçulmanos podem se casar com até quatro mulheres, apesar de precisarem obter permissão da corte islâmica para se casarem com mais de uma. Os grupos de mulheres dizem que se tornou mais fácil para os homens obterem permissão de casamentos múltiplos nos últimos anos, o que, segundo elas, coincidiu com um aumento no conservadorismo islâmico na Malásia.

Enquanto alguns Estados exigem que os homens obtenham consentimento de suas primeiras esposas antes de pedirem permissão para se casarem com outras, Sa'adiah Din, advogado de família que pratica nas cortes islâmicas, disse que outros Estados não exigem mais o consentimento das esposas.

Em 2008, 1.791 homens pediram licença para adotarem outras esposas aos tribunais islâmicos, que atendem apenas a população muçulmana do país. Em 2007 foram 1.694 pedidos. O governo não tem o número total de casamentos polígamos, mas pesquisadores como Norani Othman, sociólogo da Universidade Nacional da Malásia, dizem que o número pode chegar a 5% de todos os casamentos.

Apesar do número crescente de casamentos polígamos, o esforço do clube de promover a prática chamou a atenção das autoridades.

O Departamento de Desenvolvimento Islâmico da Malásia, responsável pela promoção e administração do islã, está investigando as atividades do Clube de Poligamia Ikhwan e acredita que Ashaari e sua família talvez estejam promovendo ensinamentos contrários ao islã. A porta-voz não deu maiores detalhes, dizendo que a investigação está em curso.

O Al-Arqam afirmava que Ashaari tinha o poder de perdoar os pecados, algo que os muçulmanos acreditam que só possa ser feito por Deus. Alguns informes sugeriram que o movimento tinha até 10.000 membros quando foi proibido.

Uma alta autoridade religiosa, Harussani Bin Haji Zakaria, um acadêmico do Estado de Perak, disse que os seguidores do Al-Arqam alegavam que Ashaari tinha o poder de enviar pessoas para o paraíso ou para o inferno.

Harussani acredita que o clube de poligamia possa ser uma frente para fazer ressurgir o Al-Arqam. "Acho que eles querem atrair as pessoas para voltarem para ele após a proibição", disse ele referindo-se a Ashaari.

O clube também foi criticado por grupos de mulheres como o Mulheres no Islã, uma organização não governamental com sede na Malásia.

Norani, socióloga que é principal pesquisadora no projeto que investiga a poligamia do Irmãs no Islã, disse que a prática poderia ser danosa para mulheres e crianças, particularmente as nascidas das primeiras mulheres.

Ela e outras pesquisadoras entrevistaram 2.000 homens, mulheres e crianças que participaram de casamentos poligâmicos.

Apesar de ressaltar que seus comentários eram baseados em observações preliminares, Norani disse que muitas das primeiras mulheres entrevistadas se sentiram ressentidas e deprimidas quando seus maridos casaram-se novamente, e um "número significativo" tinha pensado em divórcio.

Ela disse que conhecia algumas mulheres com boa formação e independentes financeiramente em Kuala Lumpur, inclusive executivas e advogadas, que tinham decidido se casar com homens que já tinham outras mulheres. "Em geral, elas se casam mais tarde, depois do segundo ou terceiro grau. Elas adiam o casamento e depois acham difícil encontrar um homem solteiro", disse ela. "Uma delas disse que 'todos os homens bons estão casados ou são gays'".

Com 17 filhos de 6 a 21 anos, as quatro esposas de Ikram moram perto de seus trabalhos, mas nos finais de semana elas se reúnem na casa de cinco quartos da família em um subúrbio de Kuala Lumpur.

A maior parte dos filhos mais velhos está em colégios internos ou em universidades, mas as crianças no ensino fundamental ficam na casa da família, onde são cuidadas pela primeira mulher, Juhaidah, durante a semana.

Ikram passa suas noites em rodízio com cada uma das quatro esposas. "É um, dois, três quatro", disse Rohaya, apontando para cada uma das mulheres. Estas em geral encontram Ikram na casa da família, mas disseram que não há um arranjo estrito e que Ikram algumas vezes vai às suas casas individuais durante a semana. Nos finais de semana, na casa da família, as mulheres se revezam na cozinha.

"Dividimos roupas", disse Rohaya. "Somos como irmãs, de fato".

Nenhuma delas foi criada em uma família poligâmica. Apesar de admitirem terem tido reservas inicialmente, todas disseram que eram felizes e recomendariam o casamento poligâmico as suas filhas.

Ikram rejeitou sugestões dos grupos de mulheres de que casamentos polígamos podem beneficiar os homens e causar dificuldades para as mulheres.

"De fato, em um casamento polígamo é maior a carga para o homem do que para a mulher, porque ele tem que enfrentar quatro mulheres diferentes e isso não é fácil", disse ele, fazendo rir as mulheres.

Tradução: Deborah Weinberg

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