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10/01/2010

Mao Tsé-Tung e Ho Chi Mihn: Os deuses parciais da Ásia

International Herald Tribune
Roger Cohen
Em Beijing (China)
Tenho visitado os "deuses asiáticos" em seus mausoléus cheios de colunas e me perguntado o que eles pensam sobre o que as sociedades criaram em seus nomes. O comportamento desses deuses será uma questão central no século 21.

Primeiro, em Hanói, visitei Ho Chi Mihn, um andarilho mundial (incluindo uma parada no Brooklyn) e nêmesis dos exércitos francês e americano, unificador de um Vietnã independente, "tio" da nação. Agora ele está embalsamado apesar do desejo de ter suas cinzas espalhadas. Meu filho de 15 anos, em sua postura típica do Brooklyn, foi repreendido por estar com as mãos nos bolsos e com isso não demonstrar respeito suficiente.

Acho que ele nunca tinha visto o corpo de uma pessoa morta antes, certamente nenhum que esteja preservado há quatro décadas. Um deus em carne e osso, mas sem sangue, é uma ideia com a qual é preciso se acostumar.

  • REUTERS/Guang Niu

    Trabalhador chinês limpa a imagem de Mao Tsé-Tung na praça Tiananmen, em Pequim (China)

Então, em uma ensolarada manhã na Praça da Paz Celestial aqui na glacial Beijing, depois de passar por uma loja do McDonald's, encontrei-me sozinho com Mao Tsé-Tung, o Grande Timoneiro e Professor, que parecia um pouco mais corado do que Ho. Como não havia ninguém à minha volta, achei que poderia ficar por ali, mas um guarda não pensou do mesmo jeito.

Parece que os minutos com os calados deuses asiáticos são tão cuidadosamente cronometrados quanto os com um advogado novaiorquino. Dizer que muitas pessoas morreram pelas ideias de Mao e Ho seria subestimar gentilmente os números. Só a Grande Fome Chinesa entre 1958-1961 levou cerca de 35 milhões de vidas. Isso foi antes de a "década terrível" da Revolução Cultural  - tão destrutiva para as mentes quanto a fome havia sido para os corpos - começar em 1966.

Ho, cujo grande passeio pela Europa e pelos Estados Unidos é um lembrete de que ideias revolucionárias provocadas pelo deslocamento no Ocidente não são nenhuma novidade (não importa o quão diferentes de Ho sejam os militantes anti-Ocidente formados em Londres e Hamburgo hoje em dia), não fez coisas na escala de Mao. Mas mais de três décadas de guerra, seguidas por uma coletivização devastadora, deixou milhões de mortos.

Um dia esses deuses foram absolutos e suas exigências eram severas. Então, por que eles são reverenciados em silêncio? Acredito que seja principalmente porque eles personificaram o nacionalismo, a unidade, o orgulho e a independência de seus países contra a colonização ocidental ou a invasão estrangeira e assim os livraram para sempre de todas as formas de humilhação.

Realmente não há como fugir do fato de que, em certo nível, Mao e Ho são deuses antiocidentais em uma época em que o poder e a autoridade moral do Ocidente estão sendo amplamente questionados - uma tendência que a popularidade mundial do presidente Obama pouco pode afetar.

Claro que Mao e Ho também detêm tal poder porque os partidos comunistas que lideraram ainda estão à frente de Estados unipartidários e porque esses partidos remodelaram as ideologias desses dois homens. Mas Mao Tsé-Tung não aceitou aquela loja do McDonald's.

Agora eles são 70% deuses, com sua onisciência limitada. Deng Xiaoping colocou a China no caminho do crescimento acelerado que mudou o mundo ao assumir que Mao havia se equivocado (em cerca de 30%) e que a revolução proletária que deixou as pessoas morrerem de fome devia ceder espaço para uma em que as pessoas podem ficar ricas de um jeito mais ou menos capitalista.

Da mesma maneira, com o Vietnã aos seus pés, os governantes comunistas descobriram - ou talvez inventaram - um ditado de Ho que diz que "a alma pobre deve ficar rica e a alma rica deve enriquecer ainda mais" - para justificar uma mudança no mercado. Esses deuses parciais são criaturas interessantes. Eles já não massacram. Não fazem prisões em massa. Não tentam acelerar o passo em direção à utopia.

Não, eles constroem firewalls ao invés de muros. Temem muito mais os protestos pacíficos do que os movimentos violentos. Proíbem o Facebook aos invés de mandar as pessoas para os campos. São menos impiedosos, mas são mais estressados. Em resumo, passaram pela remodelação do século 21.

Essas transformações foram bem sucedidas. É difícil, mas não impossível, imaginar a sobrevivência dos Estados unipartidários chinês e vietnamita sem o maravilhoso crescimento que o leninismo de mercado criou.

No entanto, a questão é que essas sociedades dinâmicas criaram pessoas mais bem educadas e mais ricas; e essas pessoas não pensam apenas em comprar um apartamento maior ou um carro novo. Elas começam a refletir sobre se deveriam decidir quem as governa. Pensam sobre liberdade de expressão. Irritam-se com a corrupção. Especulam sobre porque não podem usar o Twitter.

E é por isso - um grande paradoxo - que os guardiães dos deuses parciais estão tão nervosos no exato momento em que as coisas estão indo do jeito que eles queriam, quando crescem de maneira inimaginável no Ocidente, quando todo mundo está falando sobre a ascensão da China.

Apenas face a tanta ansiedade é que se pode compreender a recente e severa condenação de Liu Xiaobo, escritor e ativista político, a onze anos de prisão na China. Liu foi a principal figura por trás de um documento exigindo mais liberdade política conhecido como Charter 08 que declara: "Deveríamos parar de ver as palavras como crimes".

E é a mesma ansiedade que explica a prisão de Le Cong Dinh, um carismático advogado, no Vietnã. A campanha de Dinh pelo pluralismo o levou a ser acusado de conspirar com "reacionários nacionais e estrangeiros."

Os deuses asiáticos se mostraram elásticos. Os ganhos resultantes são chocantes, para suas sociedades e para o mundo. Mas as palavras desses prisioneiros não são crimes, de jeito nenhum, e as situações difíceis em que se encontram são a medida das tensões que existem por trás das máscaras.

Tradução: Eloise De Vylder

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