UOL Notícias Internacional
 

11/01/2010

Armênios e turcos revivem fantasmas do massacre há 60 anos

International Herald Tribune
Dan Bilefsky
Em Istambul (Turquia)
Fethiye Cetin lembra-se do dia em que sua identidade desmoronou.

Ela era uma jovem estudante de direito quando sua querida avó Seher a chamou de lado e contou-lhe um segredo que guardava há 60 anos: ela, a avó, nascera armênia e católica e fora salva de uma marcha para a morte por um oficial turco, que a tirou dos braços da mãe em 1915 e a criou como turca e muçulmana.

Ela revelou que seu nome verdadeiro era Heranus e que seus pais biológicos haviam fugido para Nova York. Heranus, descobriu Cetin, tinha sido apenas uma das milhares de crianças armênias que foram sequestradas e adotadas por famílias turcas durante o genocídio de cerca de 1,5 milhão de armênios pelos turcos otomanos entre 1915 e 1918. Estes sobreviventes eram muitas vezes chamados de "as sobras da espada".
  • Reuters - 24.abr.2000

    Sacerdotes armênios realizam cerimônia que lembra o massacre de 1,5 milhão de armênios pelos turcos durante a 1ª Guerra Mundial, em uma igreja armênia de Jerusalém (Israel)

"Fiquei em estado de choque por muito tempo - de repente passei a ver o mundo com outros olhos", afirma Cetin, agora com 60 anos. "Cresci sendo uma turca muçulmana, não uma armênia. Não havia nada nos livros de história sobre o massacre de um povo que havia sido apagado da memória coletiva da Turquia. Assim como minha avó, muitos haviam escondido suas identidades - e os horrores que haviam testemunhado - no fundo de si mesmos."

Mas agora, Cetin, que é integrante notória de uma comunidade turco-armênia estimada em 50 mil pessoas e uma das advogadas de direitos humanos mais importantes do país, acredita que chegou um momento significativo em que Turquia e Armênia podem finalmente encarar os fantasmas da história e talvez até mesmo superar uma das rivalidades mais amargas e duradouras.

Ela já enfrentou sua identidade dividida, o que a levou de Istambul até uma mercearia na 10th Street em Nova York, onde seus parentes armênios haviam reconstruído suas vidas destruídas após a fuga da Turquia. (A maioria dos armênios que sobrevivem na Turquia hoje em dia só estão lá porque seus ancestrais viviam em províncias mais a oeste, quando a matança aconteceu principalmente no leste.)

O último passo na tentativa de curar gerações de animosidade entre os dois países aconteceu em outubro em um campo de futebol da cidade de Bursa, no noroeste da Turquia, quando o presidente Serzh Sarkisian se tornou o primeiro chefe de Estado a viajar para a Turquia para assistir a uma partida de futebol entre os times dos dois países. Nessa última rodada de diplomacia futebolística, o presidente da Turquia, Abdullah Gul, que havia viajado para assistir a um jogo na Armênia no ano anterior, juntou-se a Sarkisian durante a partida.
  • AP - 18.jan.2001

    Deportação e massacre de armênios pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial. O massacre deixou pelo menos 1,5 milhão de mortos no país e até hoje sobrevive na memória do povo armênio, que tenta se reerguer das lembranças do genocídio



"Aqui não escrevemos história", disse Gul a seu companheiro armênio em Bursa. "Estamos fazendo história." O encontro de Bursa aconteceu apenas alguns dias depois que a Turquia e a Armênia assinaram uma histórica série de protocolos para estabelecer as relações diplomáticas e reabrir a fronteira entre os dois países, que estava fechada desde 1993. O acordo, fortemente apoiado pelos Estados Unidos, pela União Europeia e pela Rússia, foi feito sob a veemente oposição de nacionalistas turcos e armênios.

A enorme diáspora armênia - estimada em mais de sete milhões de pessoas - nos Estados Unidos, França e outros lugares teme que a nova cordialidade seja mal utilizada na Turquia, onde apenas a menção do "genocídio armênio" pode motivar um processo, como uma desculpa para perdoar e esquecer. A longa briga da Armênia com o Azerbaijão, seu vizinho e um aliado próximo da Turquia, por um enclave armênio separatista no Azerbaijão também ameaça o acordo.

O acordo - que ainda não foi ratificado pelos parlamentos turco e armênio - poderia ter consequências mais amplas e ajudar a acabar com o isolamento econômico da Armênia, um país sem saída para o mar, enquanto aumentaria as chances de a Turquia ser aceita na União Europeia, onde a questão do genocídio continua sendo um obstáculo importante.

Mas Cetin afirma que a consequência mais duradoura poderia ser a ajuda na superação das acusações mútuas. Segundo ela, os armênios lutam contra a amnésia coletiva dos turcos, que argumentam que o colapso do Império Otomano durante a Primeira Guerra foi sangrento e que aqueles armênios que pereceram foram vítimas do caos daquele período.

"A maioria das pessoas na sociedade turca não sabe o que aconteceu em 1915 e os armênios que elas encontram nos livros de história são apresentados como monstros, vilões ou inimigos", afirma. "A Turquia precisa enfrentar o passado, mas antes de isso acontecer as pessoas precisam saber quem estão enfrentando. Então as fronteiras precisam cair para que possamos dialogar."

Cetin, que foi criada por sua avó materna, diz que as fronteiras de seu próprio coração turco-muçulmano caíram irremediavelmente quando a avó lhe relevou seu passado armênio.

Heranus, ela conta, era apenas uma criança quando os soldados turcos chegaram à vila turco-armênia de Made em 1915, encurralaram os homens e prenderam mulheres e meninas no jardim de uma igreja cercado por muros altos. Heranus lhe contou que quando elas subiram nos ombros umas das outras, viram os soldados cortando a garganta dos homens e jogando seus corpos no rio Tigre, que ficou vermelho por dias.

Durante a marcha forçada para o exílio que se seguiu, Heranus disse ter visto sua própria avó afogar dois de seus netos antes de pular na água e desaparecer.

A mãe de Heranus, Isguhi, sobreviveu à marcha que terminou em Aleppo, Síria, e foi se juntar ao marido, Hovannes, que havia deixado a vila em 1913 e ido para Nova York, onde tinha uma mercearia. Eles começaram uma nova família. "Minha avó tremia enquanto me contava sua história", conta Cetin. "Ela sempre dizia: 'Que aqueles dias se apaguem para nunca mais voltar.'"

Cetin era uma rebelde militante estudantil de esquerda na época em que sua avó fez a revelação e se lembra de como enfrentar a identidade armênia era um tabu, assim como hoje. "As mesmas pessoas que falavam alto sobre as injustiças e gritavam que o mundo podia ser um mundo melhor apenas sussurravam quando se tratava da questão armênia", conta. "Isso me magoava muito."

Cetin ficou presa por três anos durante os anos 1980 por se opor ao regime militar na Turquia da época e diz que sua identidade armênia recém-descoberta foi uma inspiração para se tornar uma advogada de direitos humanos. Quando Hrant Dink, editor do jornal turco-armênio Agos, foi processado em 2006 por insultar os turcos ao se referir ao genocídio, ela se tornou sua advogada. Em 19 de janeiro de 2007, Dink foi assassinado do lado de fora de seu escritório por um jovem ultranacionalista.

Em 2004, Cetin publicou um livro de memórias sobre sua avó. Ela diz que omitiu propositalmnte a palavra "genocídio" do livro porque o seu uso é um entrave para a reconciliação. "Eu queria me concentrar na dimensão humana. Queria questionar o silêncio de pessoas como a minha avó, que esconderam suas histórias por anos, enquanto sofriam."

Quando Heranus morreu em 2000 aos 95 anos, Cetin honrou seu último desejo e publicou um anúncio fúnebre no "Agos". Ela tinha a esperança de localizar sua família armênia há muito perdida, incluindo a irmã de sua avó, Margaret, que ela nunca havia conhecido.

Meses depois, durante o emocionado encontro com sua família armênia em Nova York, "tia Marge" contou a Cetin que quando seu pai morreu em 1965, ela achou um pedaço de papel cuidadosamente dobrado dentro de sua carteira e que ele vinha guardando há anos. Era a carta que Heranus havia escrito logo depois que ele partiu para a América. "Todos nós rezamos e esperamos que você esteja bem", ela dizia.

Sebnem Arsu colaborou com a reportagem

Tradução: Eloise De Vylder

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