O destino de um jihadista

H.D.S. Greenway

Sob certo ponto de vista, foi um sucesso operacional espetacular para os extremistas islâmicos. Convencer não apenas a CIA, mas a melhor agência de espionagem no mundo árabe, o Departamento Geral de Inteligência da Jordânia, que o agente deles estava realmente trabalhando para o Ocidente, demonstrou uma capacidade superior na área. O médico jordaniano, Humam Khalil Abu-Mulal al Balawi, que explodiu a si mesmo juntamente com um jordaniano e sete agentes da CIA, forneceu apenas informação de baixo nível para manter a CIA e a inteligência jordaniana interessadas e animadas com a possibilidade de que ele poderia levá-las ao coração da jihad. Em vez disso, na fórmula clássica do agente duplo, ele as levou à própria destruição.

O pai de Balawi, em Amã, levantou uma pergunta chave a respeito de seu filho: "Quem foi que o transformou de um médico humano em alguém que executa algo assim?" O pai responsabilizou a inteligência jordaniana e americana. "Ele lidou com as piores pessoas em malícia e as matou, e elas o mataram."

Jordaniano que atacou base da CIA queria vingança



Outros poderiam culpar seus companheiros jihadistas, seja uma operação do Taleban paquistanês como sugere seu vídeo de despedida, ou da Al Qaeda. Talvez ambos estivessem trabalhando juntos.

Certamente a história de Balawi amarra muitas linhas de descontentamento muçulmano no mundo da jihad. De origem palestina, a radicalização de Balawi foi incitada pela invasão de Israel em Gaza. Suas postagens polêmicas na internet chamaram a atenção da inteligência jordaniana. Ele foi preso, solto e levado para outro centro de descontentamento islâmico, o Paquistão. Então ele entrou em outra zona de descontentamento islâmico, o Afeganistão, onde, após um ano de planejamento cuidadoso, ele cumpriu seu destino jihadista.

Não está claro quando ele fingiu estar trabalhando para a inteligência jordaniana, ou como ela passou a acreditar nele. Talvez a CIA e a inteligência jordaniana tenham se convencido, como frequentemente acontece quando se lida com agentes duplos. Talvez elas quisessem tanto acreditar que ignoraram os aspectos negativos.

A história está repleta dessas traições em inteligência. A Alemanha nazista infiltrou espiões no Reino Unido durante a guerra, mas eles foram pegos e convertidos, de forma que passassem a fornecer informações falsas aos alemães em prol do Reino Unido.

A CIA foi atormentada por dúvidas em relação a vários desertores russos durante a Guerra Fria, e o Reino Unido ficou empestado de traidores radicalizados pelas injustiças dos anos 30, que forneciam de bom grado segredos para a União Soviética.

Mas permanece a pergunta sobre por que os jihadistas desperdiçaram Balawi apenas para matar alguns agentes da CIA, quando ele poderia ter continuado enganando a CIA e a inteligência jordaniana, lhes fornecendo informações falsas e obtendo inteligência importante sobre o que a CIA sabia a respeito das redes jihadistas? Seus mestres teriam ficado impacientes, com sede de sangue demais para lidar com o jogo mais sutil do logro? Sob certo ponto de vista, o atentado à base da CIA foi uma oportunidade perdida. Por que os jihadistas jogariam fora seu estetoscópio para ouvir o batimento do coração operacional da CIA no Afeganistão?

"Eu duvido que a Al Qaeda montaria tamanha operação envolvendo a Jordânia apenas para matar sete ou oito pessoas", disse um ex-alto funcionário de inteligência. "Mas quanto controle se tem ao escolher uma pessoa para explodir a si mesma?" Talvez Balawi fosse menos do que um "agente de precisão"? Talvez Balawi simplesmente quisesse o martírio e não podia ser dissuadido.

O pior estrago de longo prazo causado por Balawi naquele dia foi destruir o véu que mantinha em segredo as relações estreitas entre a inteligência jordaniana e americana. Não que os jihadistas não soubessem a respeito, mas dada a impopularidade dos Estados Unidos no mundo muçulmano, era uma associação que seria melhor ser mantida em segredo.

Como colocou outro ex-agente da CIA: "Como a maioria dessas empresas familiares do Oriente Médio, as políticas da Jordânia contrariam sua opinião pública".

O que melhor ilustraria isso do que a justificativa do pai de Balawi para o suicídio do filho, "combatendo os americanos arrogantes, injustos, presunçosos e tiranos, que matam civis e inocentes e fazem todo o mundo islâmico odiar a América".

A cooperação entre americanos e jordanianos prosseguiu discretamente por muitos anos. O falecido rei Hussein foi colocado na folha de pagamento da CIA. Seu filho que estudou nos Estados Unidos, o rei Abdullah, também mantém laços estreitos com os americanos, mas o papel da Jordânia na operação Balawi não o ajudará junto ao seu próprio povo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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