Por pressões políticas, empresas alemãs deixam lentamente o Irã

Judy Dempsey

Em Berlim (Alemanha)

As empresas alemãs, há muito as maiores parceiras comerciais do Irã na Europa, estão encontrando cada vez mais dificuldades para realizarem negócios por lá, à medida que os Estados Unidos, Israel e outros países fazem campanha por sanções mais duras da ONU em resposta ao programa nuclear do país.

Mas mesmo as empresas que dizem que estão de saída do Irã –mais notadamente a Siemens na semana passada– provavelmente levarão anos para encerrarem suas operações e concluir os contratos em vigência. Outras estão simplesmente reduzindo seu perfil ou encontrando terceiros por meio dos quais mantenham os negócios no país, por temerem que perderão um mercado lucrativo para sempre se deixarem o Irã agora.

  • Peter Löscher, presidente mundial da Siemens, durante conferência de imprensa anual da empresa, em Munique (Alemanha). A empresa diz que deixará o Irã, pressionada pelo governo de Angela Merkel e pela política externa dos Estados Unidos

“O que nossos membros querem é um nivelamento do campo de competição”, disse Ulrich Ackermann, que é responsável pelo Irã e outros países na região na influente Federação Alemã de Engenharia, um lobby do setor. “Se as empresas alemãs saírem, outras empresas, não-alemãs, nos substituirão?”

Apesar de não haver números precisos disponíveis –várias grandes empresas alemã se recusaram a discutir seus negócios no Irã– entrevistas com outras empresas, associações comerciais e agências de exportação sugerem uma redução significativa no comércio direto entre a Alemanha e o Irã.

Uma das maiores mudanças é que as empresas iranianas que buscam importar produtos de empresas alemãs não podem mais receber as garantias de crédito por 7 a 10 anos, que costumavam ser normais para grandes projetos de infraestrutura.

Agora, “elas precisam pagar em 360 dias”, disse Ruth Bartonek, uma porta-voz da Euler Hermes, a agência que administra as garantias de crédito de exportação do governo alemão.

A mudança ocorreu ao longo dos últimos dois anos em consequência de pressões políticas dos Estados Unidos.

Como resultado, as garantias de crédito para o Irã em 2008 –o mais recente número disponível– somavam 133 milhões de euros, em comparação a 503 milhões de euros em 2007. Em 2005, elas eram de 1,4 bilhão de euros.

A Alemanha continua sendo a maior parceira comercial do Irã na Europa, apesar do mercado ser pequeno. Dezenas de empresas alemãs possuem escritórios no Irã; a Herrenknecht, uma empresa alemã considerada a líder de mercado em máquinas para cavar túneis, conta com três.

As exportações alemãs para o Irã em 2008 chegaram a quase 4 bilhões de euros, ou menos de 1% do total das exportações alemãs. Isso representou uma ligeira queda em comparação aos 4,4 bilhões de euros em 2005.

Como um bloco, os 27 países da União Europeia exportaram 14,1 bilhões de euros para o Irã em 2008 –maquinário, equipamento de transporte, bens manufaturados e produtos químicos. As importações totalizaram 11,3 bilhões de euros em 2008, principalmente produtos de energia e ligados a energia.

A China é a maior parceira comercial do Irã, responsável por cerca de 14% de suas importações e exportações em 2008.

Pequim tem resistido aos pedidos de maiores sanções contra o Irã, mas a pressão sobre as empresas alemãs se tornou muito mais forte nos últimos meses.

A chanceler Angela Merkel tem pedido repetidamente por mais sanções, dizendo na semana passada que “o tempo está se esgotando”. Ela até mesmo sugeriu que se o Conselho de Segurança da ONU fracassasse em endossar um novo pacote de sanções, então os países europeus e outros governos de mentalidade semelhante deveriam agir.

  • Mandel Ngan/AFP - 05.jun.2009

    A chanceler alemã Angela Merkel, o presidente norte-americano Barack Obama e o sobrevivente do Holocausto e escritor Elie Wiesel carregam flores em Buchenwald (Alemanha). As duas lideranças defendem sanções sérias contra o Irã para evitar que o país continue o programa nuclear que tanto ameaça a estabilidade política no mundo

Fortes lobbies pró-Israel e de exilados iranianos também estão ativos, questionando em reuniões gerais anuais sobre as empresas alemãs que estão realizando negócios com o Irã.

Peter Löscher, o presidente-executivo da Siemens, a maior empresa de engenharia europeia, anunciou na semana passada que a empresa se retirará do Irã assim que concluir a entrega das encomendas e cumprir seus contratos ao longo dos próximos dois anos, a maioria em projetos de infraestrutura. O anúncio coincidiu com a visita de Estado a Berlim do presidente de Israel, Shimon Peres, que alertou que Israel seria um alvo caso o Irã venha a obter armas nucleares.

A Siemens minimizou seu envolvimento no Irã. “Nosso giro comercial lá era insignificante”, disse Wolfram Trost, um porta-voz da Siemens. “Era de apenas 0,7%, ou cerca de 500 milhões de euros, do total de nossas vendas.”

Ainda assim, a Siemens esteve sob investigação das autoridades alfandegárias alemãs. No ano passado, elas encontraram turbocompressores destinados ao Irã via um braço da Siemens na Suécia. Os investigadores disseram que os turbocompressores poderiam ter um uso duplo, inclusive, por exemplo, no programa de mísseis do Irã. A Siemens disse que todas as suas exportações para o Irã eram “para fins civis” e se recusou a entrar em detalhes.

A Ferrostaal, uma empresa que produz petroquímicos e usinas elétricas a petróleo, gás natural e energia solar, disse em uma declaração que não recebeu nenhuma nova encomenda do Irã em 2009 e que todos seus contratos anteriores de engenharia e construção “já estão concluídos”.

A empresa apresentou vendas ao Irã de 1,6 bilhão de euros em 2008 e espera o mesmo para 2009. A International Petroleum Investment Company de Abu Dhabi é dona de 70% da Ferrostaal e a MAN da Alemanha do restante.

A BASF, a gigante química alemã, que tem operações no Irã, se recusou a comentar.

A ThyssenKrupp, uma siderúrgica alemã que possui décadas de experiência no Irã, disse cumprir todas as regulamentações de exportação e sanções. Alexander Wilke, seu porta-voz, disse que os negócios da empresa no Irã representam menos de 0,5% das vendas globais, que no ano passado totalizaram 40,5 bilhões de euros.

Devido ao regime de sanções, o Departamento Federal de Economia e Controle das Exportações (BAFA) está analisando mais atentamente cada pedido de uma empresa alemã para exportação ao Irã. Holger Beutel, um porta-voz do BAFA, disse que a agência está especialmente à procura de exportações para “duplo uso”, que podem ser usadas tanto para fins civis quanto militares. Segundo as sanções em vigência da ONU, nenhum equipamento de duplo uso para tecnologia nuclear ou relacionada é autorizado.

Em 2009, o BAFA concedeu 7.210 autorizações para fins de duplo uso, dos quais 48 foram para o Irã. Ele rejeitou nove licenças de exportação de duplo uso para o Irã. Em 2008, o BAFA concedeu 7.845 autorizações para fins de duplo uso, dentre os quais 39 foram para exportações para o Irã. Quatorze licenças de exportação ao Irã foram rejeitadas.

Apesar desse escrutínio, o BAFA reconheceu que as empresas alemãs poderiam contornar essas restrições usando terceiros.

“O BAFA está consciente do fato de que atividades de negócios podem ser realizadas por meio de terceiros”, disse Beutel.

Um executivo alemão no Irã, que representa várias empresas alemãs, confirmou isso.

“Dubai é o maior parceiro comercial do Irã, mas Dubai não produz nada”, ele disse, pedindo anonimato porque, ele disse, seria demitido se desse seu nome. “A pressão de Berlim está aumentando. As empresas alemãs estão ficando nervosas. Então elas vão para Dubai. E os americanos fazem negócios com o Irã via Dubai. Quanto aos israelenses, eles podem comprar perfeitamente boas máquinas de lavar iranianas via Romênia.”

Ackermann, da Federação Alemã de Engenharia, não quis comentar o uso de terceiros. Mas ele disse que mesmo se algumas empresas alemãs encontrassem formas de contornar as sanções, isso lhes custaria tempo, dinheiro e pessoal.

“Eu não quero discutir política”, ele disse. “Mas uma coisa é certa: assim que você perde um nicho de mercado, é muito difícil reconquistá-lo.”

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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