Localizadores prometem identificar emissores de gases do efeito estufa

Todd Woody
Em São Francisco

A recente cúpula do clima de Copenhague fracassou em parte sobre como verificar que nações estão de fato reduzindo suas emissões de carbono. Igualmente, a integridade dos mercados de comércio de emissões, como o que está sendo considerado pelo congresso americano, dependerá da capacidade de medir precisamente os gases do efeito estufa.

 Isso está criando um crescente mercado global para a Picarro, uma empresa do Vale do Silício que produz analisadores portáteis que realizam medições precisas em tempo real do dióxido de carbono, metano e outros gases do efeito estufa. As máquinas também permitem aos cientistas localizar a fonte das emissões.

 Estações de monitoramento espalhadas por todo o mundo, em locais remotos, medem as concentrações médias globais dos gases do efeito estufa. Mas as emissões locais são baseadas em estimativas, chamadas “inventários”, produzidas por modelos por computador que seguem os protocolos estabelecidos pelo painel intergovernamental sobre mudança climática da ONU. Por exemplo, as emissões de metano dos veículos são calculadas pela multiplicação das gramas de metano queimadas por litro de gasolina pelo número de litros vendidos.

  • Casper Christoffersen/AFP

    Ativistas protestam contra o pouco progresso da COP-15 após os líderes mundiais deixarem o encontro sem uma meta estipulada de redução de gases

 “É contabilidade, mas não medição”, disse Michael Woelk, presidente-executivo da Picarro. “Se vamos exigir que os países informem as emissões de forma honesta, a única forma para fazer com que isso funcione é elas serem verificadas por medições baseadas em métodos científicos.”

 Se uma usina elétrica a carvão sequestra suas emissões de carbono no subsolo, ele disse, um sistema de monitoramento é necessário para assegurar que o dióxido de carbono não esteja vazando para a atmosfera. Caso contrário, a empresa pode lucrar indevidamente, vendendo créditos de carbono aos quais não tem direito. “Nós estamos falando sobre uma monetização da atmosfera”, disse Woelk.

 A Picarro, cuja tecnologia é licenciada pela Universidade de Stanford, já vendeu uma dúzia de seus analisadores de US$ 50 mil para a administração nacional Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos. A administração Meteorológica da China comprou 17 aparelhos para monitoramento dos gases do efeito estufa, enquanto na Califórnia, a agência encarregada pela implantação da lei estadual sobre aquecimento global usará os analisadores da Picarro para medição de metano, como parte de uma rede estadual de monitoramento dos gases do efeito estufa.

 Dependendo da topografia e das condições do tempo, um analisador pode cobrir até várias centenas de quilômetros.

 Barry Huebert, professor da Universidade do Havaí, disse que encomendou um analisador Picarro para sua pesquisa sobre como os oceanos absorvem os gases do efeito estufa.

 “Nós queremos realizar medições reais suficientes para podermos criar um algoritmo para modelos climáticos que sejam mais realistas a respeito da absorção de CO2 pelos oceanos”, ele disse em uma recente conferência da União Geofísica Americana, em San Francisco.

 Ele disse que apesar da existência de outros analisadores no mercado, ele escolheu o aparelho da Picarro por sua capacidade de realizar medições contínuas em tempo real sem a necessitar de um técnico altamente treinado para operar o aparelho. “Um estudante pode fazer isso”, ele disse.

 Os pesquisadores da Universidade de Boston, por sua vez, adquiriram um analisador Picarro em um esforço para quantificar a pegada de carbono de Boston.

 Para realizar uma demonstração real do potencial do aparelho de localizar a fonte das emissões de carbono, eu saí à caça das emissões de gases do efeito estufa com Chris Rella, o diretor de pesquisa e desenvolvimento da Picarro.

 Rella chegou em uma van branca Dodge Sprinter e abriu a porta para revelar um rack de analisadores Picarro conectados a uma tela de vídeo, que exibia a concentração de metano, um potente gás do efeito estufa, na atmosfera à nossa volta.

 Um tubo translúcido conectado aos analisadores serpenteava para fora do teto da van para coletar as amostras de ar, enquanto um dispositivo GPS apontava continuamente a localização da van e um modem sem fio transmitia todos os dados de volta à sede da Picarro, em Sunnyvale, Califórnia. É tudo bastante “Missão: Impossível”.

 À medida que os gases da atmosfera são atraídos para o analisador, raios laser são disparados em uma “cavidade óptica” no aparelho.

 “Cada molécula –carbono, metano– apresenta uma frequência diferente e toda molécula é absorvida em um comprimento de onda diferente”, disse Rella. “Nós sintonizamos os lasers nas frequências que queremos para selecionar e medir a quantidade de absorção.”

 Isso se traduz na concentração de um gás do efeito estufa em particular em partes por milhão.

 Nós seguimos pela estrada até um complexo de refinarias de petróleo que margeiam o lado leste da baía de São Francisco, nas comunidades operárias de Richmond e Rodeo. As refinarias, cujas emissões terão um teto segundo a lei para o aquecimento global da Califórnia, há muito são fonte de controvérsia entre alguns moradores locais, que acreditam que sua saúde sofre devido à poluição das refinarias.

 A tela de vídeo traçava as concentrações de metano em um gráfico enquanto dirigíamos, com um novo ponto de dados aparecendo em intervalos de poucos segundos. De repente, a linha do gráfico deu um salto para cima, à medida que a concentração de metano aumentava de 1,9 parte por milhão para 2,6 partes por milhão.

 “Olhe para isso –é uma nuvem considerável, cerca de 140 partes por bilhão acima do nível de metano de fundo”, disse Rella enquanto uma encosta pontilhada com tanques de armazenamento de petróleo da Chevron ficava para trás no espelho retrovisor.

As concentrações de metano cresceram de novo após tomarmos uma saída da estrada, que levava a uma estrada que contornava uma refinaria da ConocoPhillips.

 Mas Rella ficou confuso com os níveis elevados de metano que apareceram em outro lugar.

“Eu não sei de onde vem isso –talvez alguns velhos aterros sanitários”, ele disse.

 O que o analisador não nos diz é onde essas nuvens de metano se originaram. Para isso, Rella precisa analisar dados dos ventos e dos padrões de clima para identificar possíveis fontes das emissões.

 Poucas horas depois de Rella me deixar, ele me enviou um mescla de imagens do Google Earth traçando nossa rota, juntamente com os dados das emissões gerados pelos analisadores.

As emissões de metano lembravam a silhueta de uma cidade, com picos aparecendo como torres de escritórios. Duas grandes nuvens apareceram adjacentes a refinarias, enquanto outra nuvem apareceu ao lado de uma grande área de terra vazia, que Rella especulou que podia ser um aterro sanitário, que seria uma importante fonte de emissões de metano do lixo em decomposição.

 A Califórnia e outros Estados deverão implantar mercados de emissões nos próximos anos, que exigirão uma redução das emissões por parte dos grandes poluidores. Aqueles que informarem reduções além de seu teto poderão vender créditos para as empresas que ultrapassarem o limite de emissões.

 “Se não soubermos se nossas políticas estão funcionando por meio de medições das emissões em tempo real, nós corremos o risco de criar uma bolha ambiental no mercado”, disse Woelk, o presidente-executivo da Picarro.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos