Adeus aos dias de glória da Nasa

Saswato R. Das

  • Reuters/Nasa

    O astronauta norte-americano Edwin Aldrin caminha pela Lua em julho de 1969

    O astronauta norte-americano Edwin Aldrin caminha pela Lua em julho de 1969

A terceirização atingirá duramente a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa) dos Estados Unidos em breve, se as coisas acontecerem como deseja o presidente Obama. O novo orçamento da Nasa, apresentado neste mês, pede para que a agência espacial americana terceirize o desenvolvimento de foguetes para os voos espaciais tripulados –historicamente a força da Nasa– para empresas comerciais. Se o Congresso aprovar, os astronautas da Nasa ficarão limitados a tomar táxis especiais comerciais –um estado das coisas lamentável para a organização que venceu a corrida à Lua.

Apesar de algumas das mudanças no novo orçamento não serem inesperadas, como o cancelamento do programa Constellation (que levaria os humanos de volta à Lua até 2020) do governo Bush, o abandono do desenvolvimento de foguetes para voos espaciais tripulados em prol da privatização foi um choque.

O programa de foguetes da Nasa para colocar seres humanos em órbita evoluiu do programa Redstone em Huntsville, Alabama, sob o pioneiro de foguetes Wernher von Braun. Ao longo de sua duração, o programa foi responsável por muitos primeiros, nenhum deles mais espetacular do que o pouso na Lua da Missão Apollo, que tornou a Nasa um ícone americano em todo o mundo.

A agência espacial foi criada em julho de 1958 pelo presidente Eisenhower, após os soviéticos lançarem o primeiro satélite, o Sputnik 1, em órbita poucos meses antes. Os primórdios da Nasa foram caracterizados pela concorrência da Guerra Fria e pela pose entre os Estados Unidos e a União Soviética, enquanto as duas superpotências disputavam a supremacia na exploração espacial.

Sob o governo Kennedy, a agência assumiu o desafio de ser a primeira a colocar os pés na Lua. Os soviéticos –que foram os primeiros a colocar um homem em órbita, Yuri Gagarin, na Vostok I– estavam igualmente determinados a ser os primeiros. A corrida se tornou um símbolo não apenas de proeza tecnológica, mas também uma disputa pelos corações e mentes do mundo. O dinheiro jorrou para a Nasa: no seu auge, o orçamento da agência era quase de 1% do produto interno bruto dos Estados Unidos.

Em 20 de julho de 1969, os Estados Unidos venceram a corrida. Televisores por todo o mundo transmitiram imagens dos astronautas da Apollo 11, Neil Armstrong e Buzz Aldrin, dando os primeiros passos do homem na Lua. Estima-se que 500 milhões de pessoas assistiram.

Quarenta anos depois, ainda é incrível o feito da Nasa. As missões Apollo foram um triunfo da engenharia e trabalho em equipe americanos, empregando cerca de 400 mil pessoas. Os módulos lunares da Apollo 11, o Columbia e o Eagle, e todos seus diferentes sistemas, foram submetidos a quase 600 mil inspeções, testes que expuseram os subsistemas de comunicações, elétricos e de foguetes a uma bateria de choques, vibrações, calor, fogo e gelo.

A Nasa enviou astronautas à Lua mais cinco vezes. Nenhuma outra agência espacial conseguiu realizar esse feito.

Seus esforços levaram a um fluxo contínuo de descobertas científicas de grande benefício para as pessoas na Terra. De tênis com amortecedores de ar a pistas de pouso e decolagem mais seguras, de cobertores para vítimas de acidentes a óculos de sol melhores, de televisão por satélite a painéis solares, todas essas inovações devem algo à Nasa.

Agora em sua sexta década, a agência espacial é muito diferente do que era em sua juventude. As verbas irrestritas que dispunha durante a Guerra Fria há muito secaram. Há anos o Congresso mantém seus gastos sob rédeas curtas. Seu orçamento atualmente é de US$ 18,7 bilhões, menos de 1% dos gastos do governo americano.

Como consequência, as missões da Nasa se tornaram modestas. Seus astronautas não retornaram à Lua em mais de 30 anos. Ela sofreu desastres com o ônibus espacial e outras missões. Ela não é mais o destino preferido dos melhores e mais brilhantes cientistas americanos. O espírito pioneiro vibrante deu lugar a um ethos de sobrevivência cotidiano: ela se tornou mais uma agência do governo.

Nos últimos anos, cerca de um terço do orçamento da Nasa foi gasto em missões científicas, enquanto o restante foi consumido em esforços tripulados– o ônibus espacial e a estação espacial internacional, ambos ultrapassando exageradamente as projeções de custos. A maioria dos cientistas acha que o conhecimento mais valioso vem das missões científicas. Mas as missões tripuladas fazem parte da história da Nasa e o público americano sempre as apoiou.

Tudo isso mudará se o governo Obama prevalecer. A Nasa transferirá o desenvolvimento de foguetes para empresas comerciais como a Space Exploration Technologies Corporation, uma nova empresa que ainda não lançou seu primeiro foguete espacial com capacidade para colocar seres humanos em órbita; a United Launch Alliance, uma colaboração entre Lockheed Martin e Boeing; e outras empresas emergentes.

A decisão do governo Obama retirará totalmente a Nasa do desenvolvimento de foguetes para voos espaciais tripulados. A Nasa conta com competência singular neste campo, que será difícil de reproduzir por empresas privadas. O que acontecerá se não conseguirem atendê-la?

Um dos atributos mais importantes de um programa espacial tripulado é sua capacidade de inspirar os jovens a buscarem carreiras em ciência. Como alguém que chegou ao poder com uma plataforma de inspiração, o presidente Obama sabe sobre a importância de reacender a esperança. Matar o programa especial tripulado cheio de história da Nasa e acabar com um cronograma para viagens espaciais arruinará grande parte da inspiração e deslumbramento que estão associados aos esforços da Nasa.

Saswato R. Das é um escritor de ciência e tecnologia em Nova York.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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