A social-democracia europeia tem chances nos Estados Unidos?

Klaus F. Zimmermann

A simples sugestão de que os Estados Unidos cada vez mais exibem as características de uma social-democracia ao estilo europeu parece uma heresia para alguns americanos –e algo que deve ser evitado a todo custo.

Outros argumentam o oposto, apontando que os Estados Unidos há muito possuem uma rede de segurança social confortável –e, portanto, há algum tempo são uma social-democracia de fato, não assumida.

Sejam quais forem os méritos dessas posições contraditórias, a questão interessante é se a sociedade americana, diante dos desafios econômicos que enfrenta e das mudanças resultantes na paisagem socioeconômica do país, pode escapar de se tornar ainda mais “social-democratizada”.

Tal desdobramento representaria um notável cerramento de fileiras dos dois lados do Atlântico. Pois na Europa, virtualmente todos os partidos políticos abraçam a social-democracia. Isto vale até mesmo para muitos governos conservadores –não apenas na Escandinávia, mas também na França e na Alemanha– que abraçaram a ideia originalmente alemã de uma economia de mercado social, na qual os excessos do livre mercado são temperados com o apoio àqueles que caem pelas frestas.

Muitos americanos ficam tentados a descrever isto como um “socialismo” europeu e o consideram como contrário aos antigos valores pessoais e de negócios americanos, incluindo o horror de aceitar ajuda do governo.

É importante notar que a realidade na Europa é muito diferente de como frequentemente é caracterizada nos Estados Unidos. Como resultado da integração econômica global, reformas significativas ocorreram no confortável velho Estado de bem-estar social. Cortes no seguro-desemprego, até mesmo em países como a Alemanha –a maior economia da Europa– resultaram em uma rede de segurança consideravelmente menos confortável e em mais ajustes econômicos ao estilo americano.

Talvez a maior questão envolvendo a recuperação global seja a mudança que está reservada ao modelo econômico americano. No passado, exceto durante a Grande Depressão, a grande máquina de empregos americana sempre entrava em ação –e o fazia muito mais rapidamente do que em outros países industrializados. Em um claro contraste com o continente europeu, este mecanismo confiável de mercado fazia com que os autores de políticas americanos não precisassem lidar com o flagelo do desemprego de longa duração, assim como o desafio relacionado de buscar políticas ativas para o mercado de trabalho, incluindo custos de retreinamento.

Grande parte das evidências da recessão atual sugere que há dúvidas reais a respeito de uma recuperação do vigor pelo mercado de trabalho americano tão cedo. As empresas americanas cortaram um número significativo de vagas de trabalho, mas estão inclinadas a maximizar ainda mais a produtividade dos atuais funcionários antes de aumentar a folha de pagamento. Com 20% dos americanos do sexo masculino, em idade de trabalho, atualmente desempregados, aumenta a necessidade de mais pagamentos de auxílio.

É equivocado argumentar que apenas nos Estados Unidos, e não na Europa, as pessoas veem a conexão entre esforço e recompensa, preferindo impostos baixos para manter o máximo de sua renda possível. O Estado de bem-estar social europeu abre suas asas não porque os europeus são menos inteligentes, mas porque as transformações econômicas levaram a perdas de empregos em setores inteiros, como nos de carvão e aço, e as pessoas precisavam de algum encorajamento para seu futuro pessoal.

No passado, qualquer proposta para a ascensão da social-democracia nos Estados Unidos era descartada como irrealista. E havia bom motivo para isso, já que os americanos se apoiavam em um senso inato de dobrar a esquina e descobrir outra fronteira no horizonte, que ressuscitaria suas fortunas e revigoraria a busca da nação por um modelo de livre mercado.

Entretanto, esse otimismo inabalável –baseado no ethos de uma cultura em contínua ascendência global e sempre decidida a descobrir novos horizontes– pode provar ser difícil de recuperar. O novo normal dos Estados Unidos pode ser o de não mais ser tão excepcional –de que pode estar descobrindo os limites de seu dinamismo econômico, como ocorreu com a Europa décadas atrás. O efeito líquido é uma necessidade consideravelmente maior de apoio social.

A inclinação de evitar esse resultado com conversa fácil sobre o governo federal americano recorrendo ao “socialismo” pode ser um artifício retórico tentador, mas não é uma forma construtiva de lidar com o desafio por trás, que é tanto humano quanto muito real. Assim como não é a alegação categórica de que é fiscalmente impossível arcar com tamanha mudança estrutural na sociedade americana.

Do ponto de vista europeu, duas coisas fáceis –e provavelmente inevitáveis– precisam mudar: primeiro, diferente da alegação popular, muitos dos benefícios sociais que são concedidos pelo código tributário americano e orçamento na verdade não chegam a aqueles que mais precisam, mas sim às pessoas situadas confortavelmente na classe média americana. A dedutibilidade do juro hipotecário residencial é apenas um exemplo.

A outra mudança necessária é que, apesar de haver um consenso a respeito de gastos sociais nos Estados Unidos há algum tempo, o mesmo não ocorre com o outro lado da contabilidade –concordar em impostos mais altos para cobrir os custos das medidas de redistribuição.

O principal motivo para o orçamento americano ser tão desequilibrado é porque o governo geralmente gasta vários pontos percentuais a mais a cada ano do que recebe em receita, um equilíbrio destinado a piorar significativamente ao longo da próxima década. Esse nítido desencontro fiscal apoia a alegação daqueles que argumentam que os Estados Unidos, em muitas formas, já se tornaram uma social-democracia.

Diferente de outros importantes praticantes ao redor do mundo, entretanto, no caso americano é uma social-democracia indevidamente financiada.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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