Candidatura de cidade espanhola para abrigar lixo nuclear divide região

Andres Cala

Em Asco (Espanha)

  • Gustau Nacarino/Reuters

    Vista da planta nuclear na cidade de Asco, na Catalunha, Espanha

    Vista da planta nuclear na cidade de Asco, na Catalunha, Espanha

Como todo pai, Jaume Ferrus, que morou a vida inteira nessa cidade medieval isolada nas encostas montanhosas da Catalunha, ficou feliz quando sua filha e netos pequenos mudaram-se de volta para lá. Mas o que é estranho é ele dizer que não se preocupa com a campanha que a cidade está fazendo para assumir um possível compromisso para abrigar o lixo nuclear durante gerações.

Asco, uma cidade com 1.600 habitantes que já tem duas usinas nucleares, espera agora ser selecionada como local de depósito para o equivalente a 60 anos de lixo nuclear produzido nas usinas espanholas, pelo menos até 2075.

Embora os líderes da cidade já tenham apoiado a proposta, ela dividiu a região e levantou dúvidas sobre se a polêmica é de fato por causa da segurança ou da economia.

Sentado em sua casa com vista para uma usina e para o terreno onde o depósito seria construído, Ferrus disse que ficou surpreso com o fato de que a candidatura de Asco tenha despertado controvérsia.

“Por que eu me preocuparia com a segurança deles?”, perguntou referindo-se à sua família que acaba de voltar. “Nós aceitamos a usina, então por que não deveríamos aceitar os resíduos também?”

“Estamos preocupados é com o futuro, e se teremos trabalho uma vez que as usinas forem desativadas.”

Como muitos aqui, Ferrus, 57, é empregado pelo mesmo consórcio que opera três dos oito reatores nucleares do país, dois em Asco e um terceiro a 40 quilômetros dali. Para eles, a economia está pressionando fortemente a decisão de aceitar o lixo das usinas, principalmente porque as usinas são fechadas depois de 40 anos de vida útil, o que, no caso de Asco, acontecerá em 2025.

Asco é um dos nove municípios da Espanha que estão concorrendo para serem selecionados como o local do depósito. Originalmente, 14 cidades se candidataram ao projeto, um cenário que seria improvável há apenas dois anos num país que continua sendo uma das nações mais firmes na postura antinuclear da Europa. O primeiro-ministro Jose Luis Rodrigues Zapatero, como a maioria dos espanhóis, apoia o fim do uso de energia nuclear.

Mas o aumento do desemprego, que está em quase 20%, e a estagnação econômica estão colaborando para uma mudança de opinião na Espanha. O município escolhido – que o governo central deve anunciar a partir do final de abril – receberá milhões em ajuda para o desenvolvimento, além de centenas de empregos durante décadas.

A Espanha diz que investirá cerca de 700 milhões de euros (R$ 1,7 bilhão) para construir o depósito de lixo e um centro de pesquisas, empregando em média 300 pessoas por cinco anos durante a construção e mais cem depois disso, ao longo de pelo menos 60 anos. O governo também pagará 2,4 milhões de euros (R$ 5,9 milhões) por ano para o município e mais 3,6 milhões de euros (R$ 8,9 milhões) para as comunidades vizinhas. A conclusão está planejada para 2015.

  • Gustau Nacarino/Reuters

    População protesta contra a candidatura da cidade de Asco para receber lixo nuclear

O prefeito de Asco, Rafael Vidal, também funcionário de uma usina nuclear, defende a decisão da cidade de apresentar sua candidatura. “Tenho plena certeza de que a maioria das pessoas a apoiam”, disse. “Podemos decidir aquilo que nos compete. Isso nos ajudará a diversificar nossa economia, e não a nos tornarmos dependentes.”

Embora as circunstâncias econômicas da Espanha sejam particularmente desastrosas, ela não está sozinha em sua aparente disposição de coexistir com a energia nuclear e o resíduo que ela gera. Em todo o mundo, dizem os analistas, há cada vez mais sinais de uma mudança gradual na opinião pública, principalmente porque as novas gerações estão mais preocupadas com a economia e a mudança climática.

“Fica muito claro que, ao observar o resto do mundo, pode-se ver uma tendência de uma atitude mais positiva em relação à indústria nuclear, incluindo o lixo”, diz Hans Forsstrom, diretor da divisão de tecnologia do lixo e ciclo do combustível nuclear na Agência Internacional de Energia Atômica.

“O lixo não é mais um assunto tão problemático quanto era há uma década ou duas”, diz Bob van der Zwaan, especialista nuclear e cientista sênior do Centro de Pesquisas Energéticas da Holanda e do Centro Lenfest de Energia Sustentável da Universidade de Columbia. “Os mais jovens não são tão céticos. Considerando que temos um grande desafio com a mudança climática, a questão nuclear é vista como algo menos prejudicial.”

Finlândia, Suécia e França estão planejando construir depósitos permanentes nesta década. O Canadá, que começou a identificar as comunidades dispostas a isso, não está longe.

A Espanha, que opera usinas nucleares desde 1968, até agora vem enviando seu lixo nuclear para ser reprocessado na França, ou resfriando-o em piscinas dentro das instalações nucleares.

Uma usina nuclear na Espanha, entretanto, já ficou sem espaço, e outras duas devem ficar lotadas até 2013. Além disso, uma pequena usina será desativada a partir de 2013 e o lixo que foi enviado para a França no século passado também voltará ao país.

Com o pouco tempo que resta, o Parlamento aprovou o plano para construir o depósito em 2004, mas o governo só convidou os municípios a apresentarem suas candidaturas no final de dezembro, sem avisar as pessoas com antecedência.

Em Asco, poucos falam sobre sua posição. Podem ser vistos cartazes pendurados em varais e soleiras por todo o município, a maioria a favor. Mas os moradores estão desconfiados até de seus vizinhos. Um produtor de vinhos que é contra o plano e recusou-se a dizer seu nome e contou que recebeu ameaças por telefone.

Essa divisão é uma versão atualizada da batalha de quase três décadas atrás, quando a usina foi inaugurada em Asco. Na época, um terço das famílias se mudou para cidades vizinhas.

Um vazamento radioativo em Asco em 2008 levou a uma multa recorde por parte das autoridades espanholas. Não houve feridos, mas o acidente só aumentou a desconfiança sobre a usina nuclear.

Hoje, o assunto continua controverso. A maioria dos municípios vizinhos votou moções contra o depósito de lixo.

“Não é só por causa da segurança”, diz Sergi Saladie, porta-voz do Grupo Anti-cemitério Nuclear Catalão, que mora numa cidade próxima. “Isso afeta a economia local. Ninguém quer comprar nossos produtos, azeite de oliva ou vinhos de nossas cidades, ou visitar nossas montanhas e rios. Já temos problemas suficientes, e agora eles querem criar mais?”

Tradutor: Eloise De Vylder

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