Crise abala a autoimagem europeia

John Vinocur

Em Paris (França)

  • ERIC FEFERBERG/AFP

    Os presidentes da União Européia, Nicolas Sarkozy (à esq.), e da Comissão Européia, José Manuel Barroso, durante entrevista coletiva em Bruxelas, na Bélgica

Por trás das atuais aflições da Europa – as manchetes doentias sobre o repentino abalo de sua moeda comum ou o alarde sobre sua imaginária recuperação econômica – há um doloroso sub-texto.

Trata-se da noção de que, na França e na Alemanha, seus países mais influentes, o orgulho, os valores e a autoestima unicamente europeus também estão abalados.

O cerne da ideia é que a crise econômica expôs ou enfatizou temas já existentes, nos quais já não se aplicam totalmente nem o discurso e nem a crença de que o bem-estar, a solidariedade e a generosidade vêm antes e acima de tudo.

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Durante a última semana, foi possível ler alguns fortes indicadores:

A pobreza na Alemanha afeta agora cerca de 14% da população (ultrapassando os 13,2% atuais do Censo norte-americano), e as contribuições da França e da Alemanha para o desenvolvimento (0,46% e 0,40% do PIB, respectivamente) ficarão abaixo das metas que eles aceitaram da União Europeia e da ONU para 2010.

O aumento da violência esteve no topo nos noticiários em ambos os países: depois do esfaqueamento fatal de um professor numa escola alemã, as manchetes na França falavam sobre uma explosão de ataques contra professores e seguranças em escolas frequentadas na maioria por filhos de imigrantes árabes e africanos.

Num editorial, o Le Monde sugeriu que as escolas, descritas como o sismógrafo mais sensível das fraturas na vida francesa, agora parecem ter se tornado “o símbolo da rejeição da sociedade” para alguns jovens mais marginalizados da França. Já na Alemanha, o psicólogo Bernhard Meissner foi citado por afirmar, depois do assassinato, que “a imagem relativamente ruim das escolas na opinião pública” tem um papel fundamental nesses incidentes.

Isso acontece em países que veem a si mesmos como excepcionalmente civilizados, menosprezam os EUA por causa das diferenças entre ricos e pobres e carregam como uma medalha de honra sua maior assistência ao terceiro mundo.

Acima de tudo, eles insistiram que poderiam confiar em suas redes inclusivas de assistência social para combater ou amortecer os conflitos. Na visão notória que esses países têm de si mesmos, essas redes servem não só como uma ligação efetiva de solidariedade com aqueles que se sentem injustiçados – imigrantes, desempregados, trabalhadores pobres –, mas também como a melhor defesa do governo contra a violência e o desespero.

Mas agora é o momento de se questionar.

Jean-Paul Delevoye, que há seis anos atua como mediador nacional da França, ou ombudsman, arbitrando disputas entre indivíduos e o governo, diz que vê os franceses de hoje como consumidores do que a república têm a oferecer, e não como cidadãos.

A França, disse ele a um repórter no fim de semana, “é uma sociedade em fragmentação, onde uma atitude de cada-um-por-si está substituindo o desejo de viver junto. Essa sociedade vive com uma grande tensão nervosa, como se sua alma estivesse cansada.”

Na Alemaha, o ministro de Exterior Guido Westerwelle – que também é presidente dos Democratas Livres, parceiro dos Democratas Cristãos na coalizão governista – alertou sobre a futura inviabilidade de um sistema sobrecarregado de proteções sociais. Ele usou a frase: “Quem quer que prometa ao povo uma boa vida sem esforços está fazendo um convite para a decadência ao estilo do fim do Império Romano.”

Em ambos os países, parece que as velhas certezas estão se afrouxando à medida que são pressionadas por novas vulnerabilidades.

Se alguns europeus veem os Estados Unidos, em crise e sob o governo de Barack Obama, como um país em busca de uma versão difusa do modelo social europeu – um argumento duvidoso, considerando o destino incerto da reforma da saúde do governo –, em contrapartida poderíamos sugerir que os franceses e os alemães estão perguntando onde é que deve parar a tolerância institucional quase reflexiva de seus Estados para com os outros.

Os assuntos específicos que tomam conta da opinião pública nos dois países são diferentes, assim como seus problemas financeiros mais significativos não são exatamente os mesmos.

Mas na França, a preocupação um tanto imprecisa com o aumento da violência nas escolas – que o governo insiste que continua estável –, significa na verdade que a sociedade está arranhando as extremidades de demandas indesejáveis para se transformar num lugar que pode acomodar, integrar e regular sua crescente comunidade muçulmana.

Nenhum político francês, pouco antes das eleições regionais do mês que vem, ousou prometer desfazer partes pertinentes do modelo francês/europeu. Eventualmente, será difícil de evitar isso.

Muito incomodamente, o processo como um todo poderá exigir uma mobilização para cortar gastos com serviços sociais, falar diretamente sobre as causas culturais do aumento da violência, e até mesmo favorecer programas de ação afirmativa que normalmente são denunciados aqui, com sutilezas sociológicas francesas, como uma colisão norte-americana.

É na Alemanha que as coisas foram mais longe e de forma mais rápida. Westerwelle, descrito por muitos como um homem insensível e desrespeitoso com os pobres por conta de suas observações sobre a “decadência romana”, insiste que o Estado social da Alemanha precisa mudar.

Para ele, esta disfunção, que “grita injustiça para os céus”, é exemplificada pelas evidências de que os chefes de família ganham menos em seus holerites do que muitos desempregados que recebem assistência do governo.

As estatísticas foram divulgadas por toda a imprensa a partir de um relatório federal que sugere que os cidadãos nascidos no exterior são uma parte especial do problema. Os números dizem que eles e seus filhos nascidos na Alemanha são duas vezes mais dependentes da ajuda social do que o resto da população.

O que leva a discussão a um novo território para a República Federal e seus instintos de justiça social.

Os alemães têm recebido uma assistência social considerável desde Bismarck e certamente continuarão a esperar por ela. Mas isso não muda o fato de o governo federal ter dito que precisa economizar 10 bilhões de euros por ano até 2013 e que os serviços sociais são o alvo mais óbvio.

A mudança das circunstâncias na parceria mais estreita da Europa poderá se refletir parcialmente (ou marginalmente) nas eleições regionais que acontecerão em toda a França em 14 e 21 de março, e numa importante eleição estadual na Alemanha em 9 de maio.

Uma previsão: a eleição dificilmente deverá dar sinais de um renascimento do egoísmo nos dois países, mas mais provavelmente, à medida que as dificuldades econômicas se prolongam, poderá resultar numa definição aparentemente mais dura e estreita do que os alemães e franceses consideram como interesse próprio.

Tradutor: Eloise De Vylder

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