Visita de Hillary Clinton ao Brasil reflete prioridade da política externa dos EUA

Julia E. Sweig

Em sua campanha à presidência, Hillary Rodham Clinton mal proferiu a palavra Brasil. Mas como secretária de Estado, Clinton reconheceu o Brasil como sendo o país mais poderoso na América do Sul e uma potência global em ascensão. Sua atual visita pode refletir um desejo político de tornar o relacionamento com o Brasil uma prioridade estratégica para a política externa americana. 

Hillary Clinton

  • Joshua Roberts/AFP

    A secretária de Estado norte-americana, que desembarcou no Brasil nesta terça-feira para encontro com o presidente Lula, em Brasília

Clinton entende que os Estados Unidos precisam se adaptar a um mundo multipolar, trabalhando com potências como a China, Rússia e Índia. Mas em 2009, a diplomacia americana com o Brasil foi vítima das disputas em torno de Honduras, das bases militares na Colômbia, políticas domésticas e das tensões a respeito do Irã. 

Com um início tão tardio, a urgência parece permear a visita. Os Estados Unidos estão perdendo terreno à medida que a América Latina cria mais outra organização regional que os exclui. Da mesma forma, a atenção do Brasil em breve se voltará para dentro, à medida que sua campanha presidencial começar de fato. 

Mas ir ao Brasil pode ser o passo mais fácil. Os Estados Unidos contam com pouca largura de banda para sustentar o foco no Brasil. A agenda doméstica do presidente Obama está consumida pela criação de empregos, reforma da saúde, infraestrutura e solvência financeira. No exterior, grande parte da atenção permanecerá concentrada no Afeganistão, Paquistão, Irã, Iraque e China. 

O Brasil também pode carecer de incentivo para investir no relacionamento com os Estados Unidos como Clinton poderia desejar. Também bastante concentrado nas condições doméstica, o Brasil sobreviveu à crise financeira global, formou uma classe média crescente, reduziu a pobreza e a desigualdade e consolidou a democracia. Corrupção, criminalidade, violência e drogas agora se destacam na agenda do eleitorado. 

Internacionalmente, os últimos sete anos catapultaram o Brasil ao palco global. Os Estados Unidos representam apenas uma fatia da agenda global do Brasil: a ênfase brasileira na multipolaridade e no multilateralismo presume o declínio da influência americana. 

De qualquer forma, dada sua insistência histórica na autonomia das grandes potências, dificilmente se esperaria do Brasil que subordinasse seus interesses aos dos Estados Unidos. Todavia, alguns americanos veem às vezes o ethos de autonomia do Brasil na política externa como uma tentativa deliberada de frustrar a diplomacia americana. Essa percepção equivocada pode atrapalhar as boas intenções. 

Outro obstáculo potencial: os Estados Unidos ainda agem como uma potência imperialista. Quando Hillary Clinton diz “parceria”, os brasileiros podem pensar que ela realmente quer dizer deferência aos interesses americanos. Para lidar com os problemas na agenda bilateral, regional e global, Clinton terá que superar o ceticismo em Brasília a respeito do compromisso de Washington de praticar um verdadeiro dar e receber. 

O Brasil terá que dar a ela o benefício da dúvida e dizer claramente o que deseja dos Estados Unidos, usando a visita e seus resultados para avaliar o que o governo Obama deseja do Brasil. 

Bilateralidade, impostos, tarifas e comércio, até mesmo gênero e raça, estarão no topo da agenda. O Haiti surgirá como um uso bem mais produtivo dos talentos de ambos os países do que as disputas envolvendo a Colômbia e Honduras. A secretária ouvirá a posição do Brasil a respeito da região andina e sua visão para a integração sul-americana. Talvez ela explique o ritmo glacial do movimento de Washington em relação às políticas para Cuba. Discussões sobre a mudança climática e as finanças globais avançarão. 

Mas é o Irã que provavelmente ganhará mais espaço nos noticiários. Um falcão a respeito desse assunto, a secretária Clinton insiste que as potências emergentes se juntem aos Estados Unidos e à Europa na pressão contra o Irã, enquanto o governo Lula considera as sanções como um caminho para a força militar. Por mais anátema que possa ser o apoio público do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao negador do Holocausto, Mahmoud Ahmadinejad, o canal do Brasil para um Teerã cada vez mais caótico e imprevisível não deve ser desprezado como uma postura antiamericana. 

A visita de Hillary Clinton não resultará na intimidade de um “relacionamento especial”, ou no abraço desconfortável que Washington frequentemente concede aos seus melhores amigos na região. Mas se ela partir com um reconhecimento do excepcionalismo do Brasil –uma qualidade que os brasileiros entendem plenamente nos Estados Unidos– um respeito mútuo saudável e claro poderá começar a surgir. 

(Julia E. Sweig é diretora de estudos latino-americanos no Conselho de Relações Exteriores.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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