Como guardiã do euro, Merkel enfrenta um ato de equilibrismo doméstico difícil

Judy Dempsey

Em Berlim (Alemanha)

  • Tim Brakemeier/EFE - 26.jan.2010

    A chanceler alemã Angela Merkel durante pronunciamento em Berlim, na Alemanha

    A chanceler alemã Angela Merkel durante pronunciamento em Berlim, na Alemanha

Quando a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, se encontrar com o primeiro-ministro da Grécia, George A. Papandreou, na sexta-feira, ela falará para vários públicos diferentes.

Como líder do país com a maior economia da Europa e como defensora ferrenha da retidão fiscal dentro da zona do euro, Merkel está sob pressão de seus pares europeus para concordar com algum tipo de plano de resgate financeiro que possa proteger a moeda comum, que é a base da unidade política e econômica do continente.

Mas ela também é uma política nacional, e se a imprensa popular alemã for crível, os alemães não estão dispostos a ajudar a Grécia, um dos 16 países da zona do euro.

O “Bild Zeitung”, um jornal de circulação de massa, publicou artigos radicais sobre como os gregos, além de serem preguiçosos e poderem se aposentar aos 50 e poucos anos, desperdiçaram bilhões de euros que receberam da União Europeia.

Para colocar ainda mais lenha na fogueira, os jornais gregos partiram para a vingança pelo que consideraram egoísmo e arrogância da Alemanha. Eles reabriram as feridas da Segunda Guerra Mundial, acusando a Alemanha de ter se recusado a pagar as indenizações pelo período que ocupou a Grécia.

E isso tudo apenas nos jornais. Os blogs de ambos os polos da Europa são ainda mais extremados.

Para Merkel, poderá ser impossível agradar a todos. Mas seu maior desafio é agradar o grupo de eleitores que lhe conduziu ao segundo mandato, à frente de uma coalizão que inclui seu parceiro preferido, o Partido Democrata Livre voltado ao mercado.

Esse grupo está centrado em lugares como Zehlendorf, um rico distrito no sudoeste de Berlim, onde a União Democrata Cristã conservadora de Merkel desfruta de amplo apoio há anos. E eles parecem esperar que Merkel consiga encontrar algum tipo de meio-termo entre os extremos.

“Eu não suporto essas coisas populistas”, disse Uli Becker, um médico de 41 anos. “Nós sabíamos que a Grécia não estava pronta para aderir ao euro e sabíamos que desperdiçavam dinheiro. Mas seria uma catástrofe para a Alemanha e para o euro permitirmos o colapso da Grécia. Nós temos que ajudar, desde que a Grécia comece a mudar seus modos.”

Ajudar, talvez, mas não com a Alemanha carregando o fardo sozinha.

“Todos os países da UE têm que ajudar”, disse Ushi Kunz, uma aposentada de 65 anos. “Nós temos que salvar o euro.”

Para começar, Kunz nem mesmo queria abrir mão do marco alemão. “Eu realmente fui contra [o euro]”, ela lembrou. “O marco alemão era nosso. E nós o perdemos. Os preços subiram.”

Mas ela acrescentou: “Mas não dá para voltar atrás. O que nós temos, nós temos que proteger”.

Para muitos alemães, cabe aos gregos lidar com seus próprios erros primeiro, antes de receberem um resgate. Se medidas adicionais de austeridade anunciadas pelo governo grego na quarta-feira serão suficientes, ainda não se sabe.

“Eu sei que se trata do futuro do euro”, disse Maria Böhme, que estava com sua neta de quatro anos e foi entrevistada enquanto se abrigava da neve repentina. “Eu sei que não podemos reverter a história. Mas mesmo assim...”

Essa ambivalência significa que Merkel precisa caminhar com cuidado durante seu encontro com Papandreou. Seja lá o que for acertado na sexta-feira, se é que algo será, Merkel poderá ser atacada tanto pela imprensa populista quanto pelos seus próprios parceiros de coalizão. O principal motivo é que a coalizão dos sonhos de Merkel, de conservadores e democratas livres pró-negócios, perdeu seu brilho desde a posse em novembro.

A coalizão passou grande parte desse tempo brigando em torno da reforma da saúde, do sistema de bem-estar social e do futuro das usinas nucleares do país. Ela deixou a população desapontada.

“A coalizão discute o tempo todo”, disse Becker, o médico. “Tão pouco foi realizado.”

Merkel reconheceu isso em uma entrevista para a TV na noite de domingo. Houve “mais bate-bocas públicos do que soluções”, ela disse.

A maioria dos entrevistados a respeito do segundo mandato de Merkel como chanceler culpou Guido Westerwelle, um político consumado que levou os democratas livres de volta ao poder no ano passado, após doze anos na oposição.

Atualmente vice-chanceler e ministro das Relações Exteriores, Westerwelle tem aumentado as tensões dentro da coalizão e irritado o público com sua fala durona. No mês passado, por exemplo, após o Tribunal Constitucional ter rejeitado partes do sistema de benefício social para os desempregados, Westerwelle criticou o sistema.

“Aqueles que trabalham devem ganhar mais do que aqueles que não”, ele declarou. “Eu tenho o direito de dizer isso na Alemanha. Tudo mais é socialismo.”

Cedo ou tarde a Alemanha terá que tratar dessa questão, não apenas devido à decisão do tribunal, mas também porque o sistema é muito caro e chegou ao ponto em que está estressando até mesmo os vastos recursos da Alemanha. Mas Westerwelle passa a imagem de arrogante e insensível para muitos eleitores de Merkel, como Uta Schäfer, 48 anos, que trabalha como relações públicas em Zehlendorf. Ela diz que gosta Merkel, em parte, por ela ser “despretensiosa”.

“É claro que há pessoas que exploram o sistema de bem-estar social”, disse Schäfer, “mas a maioria realmente precisa do apoio”.

Os comentários de Westerwelle causaram furor na Alemanha. Os partidos de oposição dizem que Westerwelle estava culpando os pobres em uma tentativa de recuperar o apoio ao seu partido, antes de eleições cruciais regionais que ocorreram na Renânia do Norte-Vestfália, onde seu partido e os conservadores estão lutando para permanecer no poder.

Não será fácil, porque muitos eleitores estão furiosos com a nova equipe de governo.

“As brigas constantes são destrutivas demais”, disse Philip Heinrich, 28 anos, um professor. “Quando Merkel esteve no poder com os social-democratas entre 2005 e 2009, ela foi uma chanceler melhor. Ela parecia mais feliz, mais no controle.”

Outros em Zehlendorf, como Peter Muller, um revisor, se queixaram de que Westerwelle “está pensando apenas na clientela do seu partido, que são profissionais abastados”.

Até o momento, os outros partidos políticos, incluindo os democratas-cristãos de Merkel, têm evitado discutir o sistema de bem-estar social, temendo que isso possa perturbar o consenso político delicado que muitos alemães consideram tão confortável. Mas Kurt Lauk, presidente do Conselho Econômico da União Democrata Cristã, um lobby influente, disse que a elevação dos custos não pode mais ser ignorada.

“Nosso orçamento para o bem-estar social é de 177 bilhões de euros por ano, além dos 38 bilhões de euros em aumentos nos pagamentos”, disse Lauk. “Mas a receita de impostos anual total do governo federal, incluindo imposto de renda e imposto sobre valor agregado, é de 212 bilhões de euros. Isso precisa ser tratado.”

De fato, em questões orçamentárias, Merkel poderá descobrir que Papandreou está apenas à frente na tomada de algumas decisões difíceis. Mas a experiência dele na Grécia também sugere quão difícil é para políticos implantarem mudanças impopulares no extenso sistema de bem-estar social da Europa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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