Indonésia tenta reintegrar ex-rebeldes através de programas de inclusão

Peter Gelling

Em Banda Aceh (Indonésia)

Por décadas, a vasta floresta que cobre a província de Aceh, no norte da Indonésia, serviu como refúgio para milhares de rebeldes que travavam uma guerra pela independência. 

Agora, ainda marginalizados e em grande parte desempregados, apesar de quase cinco anos de paz, muitos ex-separatistas fugiram para a floresta, desta vez para derrubá-la. 

“Eu falei recentemente com um velho capitão rebelde e perguntei por que ele continuava a cortar ilegalmente as florestas de Aceh”, disse Mohammad Nur Djuli, chefe do Corpo de Reintegração de Aceh, uma organização criada pelo governo provincial em 2006 para ajudar a reintegrar os ex-combatentes à sociedade. 

“Ele disse: ‘Ok, você alimenta meus 200 homens e eu jogo esta motosserra no rio’. O que eu poderia responder?” 

  • Beawiharta/Reuters

    Guerrilheiros do movimento pela libertação fazem ronda na província de Aceh, em foto tirada antes do acordo com o governo, em 2001

Um programa do governo espera fornecer a resposta. 

Cinco anos após o terremoto e tsunami que devastaram grande parte da província de Aceh, matando 170 mil pessoas, o governo provincial, empoderado por um acordo de paz de 2005 que lhe dá autonomia limitada de Jacarta, começou a implantar uma estratégia de desenvolvimento econômico. Ela visa incorporar desenvolvimento sustentável, integrar ex-combatentes na sociedade e criar empregos que cumpram a meta do ex-movimento separatista: assegurar que a receita dos recursos naturais beneficie a população local. 

O programa Aceh Verde, apesar de ainda nos estágios iniciais, já produziu alguns resultados. 

Centenas de ex-rebeldes, que talvez conheçam a floresta de Ulu Masen melhor do que ninguém, estão sendo treinados e empregados como guardas florestais pela Fauna and Flora International, um dos grupos ambientais internacionais mais antigos em Aceh, que deu início ao treinamento em resposta ao Aceh Verde. Os novos guardas percorrem as matas, desta vez armados com bússolas e cordas, à procura de caçadores e madeireiros ilegais. 

Os guardas são escolhidos pelas comunidades locais e atuam como um grupo independente, complementando a polícia florestal existente –seus antigos adversários– que é pequena. Os ex-rebeldes são treinados por 10 dias pela Fauna and Flora International.

A formatura deles parece um episódio de “No Limite”. Exaustos e sujos, eles ficam de pé em um rio, cercados por tochas acesas para receber seus diplomas, que vêm na forma de abraços. Como um batismo, eles são imersos um por um no rio pelo “treinador mestre” e recebem um uniforme limpo para iniciar suas novas vidas. 

“Muitos deles choram. É incrível ver isso entre esses homens calejados”, disse Matthew Linkie, gerente do programa para a divisão de Aceh da Fauna and Flora International. “Essas pessoas estão se transformando de párias e criminosos em heróis. Eles estão se tornando em nossos olhos e ouvidos. Eles nos informam sobre o que está acontecendo em partes remotas da floresta, lugares que normalmente são muito difíceis de monitorar.” 

Aceh Verde é uma ideia do governador Irwandi Yusuf, um ex-rebelde que se formou em veterinária nos Estados Unidos e é fundador da divisão de Aceh da Fauna and Flora International. Ele apresentou o Aceh Verde ao mundo na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Bali em 2007, onde, sob aplausos dos ambientalistas de todo o mundo, ele declarou que tinha a intenção de transformar sua província em um modelo mundial de sustentabilidade. 

Os analistas em grande parte elogiam o espírito do programa, que aponta para um futuro potencialmente brilhante para uma região conhecida por desastre e conflito. Vários meses após a conferência de Bali, o governador declarou uma moratória a todo desmatamento na floresta de Ulu Masen e deu início ao programa de guardas florestais com a Fauna and Flora. 

Em fevereiro de 2008, Ulu Masen se tornou a primeira floresta a ser reconhecida internacionalmente como protegida segundo o programa REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) da ONU. O sistema permite aos países ricos compensar sua produção de carbono pagando aos países pobres para que preservem suas florestas. O projeto pode render a Aceh cerca de US$ 26 milhões em créditos de carbono se a província conseguir proteger com sucesso todos os 770 mil hectares da floresta de Ulu Masen. 

“Aceh Verde é uma articulação da visão que Pak Irwandi teve há muito tempo”, disse Lilianne Fan, uma ex-trabalhadora de ajuda humanitária que atualmente está servindo como consultora para o governo para o Aceh Verde, usando o equivalente indonésio de “senhor”. 

O programa visa “proteger as florestas e a biodiversidade de Aceh, para administrar os recursos naturais de Aceh de uma forma que assegure a sustentabilidade ecológica, reduzindo a pobreza e a insegurança no meio de vida por meio do desenvolvimento verde”. 

Aceh, que ocupa a ponta norte da ilha de Sumatra e conta com uma população de mais de quatro milhões, possui uma das maiores reservas do mundo em riqueza natural, incluindo gás natural, petróleo, carvão, ouro, ferro, cobre, estanho e madeira. Foi a luta pelo controle da receita desses recursos naturais que levou à rebelião separatista que durou tanto tempo. 

Agora, o governo provincial espera extrair esses recursos de modo sustentável e em benefício de seus habitantes. 

Os críticos dizem que apesar do Aceh Verde ser uma boa ideia, a província carece de infraestrutura pública e de vontade para torná-la eficaz. 

Alguns trabalhadores de ajuda humanitária se referem brincando ao programa como “Aceh Marrom”, apontando que nas áreas remotas onde trabalham, o som das motosserras se tornou ainda maior apesar do Aceh Verde e da moratória no desmatamento. Em resposta, o governo diz que ainda não é capaz de monitorar toda a floresta. 

Uma das forças motrizes por trás do Aceh Verde é a necessidade urgente de melhorar a economia de Aceh, o que os analistas dizem ser essencial para a manutenção da paz. 

A economia de Aceh foi estimulada por um esforço multibilionário de reconstrução após o tsunami de 2004. Mas à medida que ele chega ao fim, e centenas de grupos internacionais de ajuda humanitária se retiram, a província está sofrendo seriamente com o desemprego. 

Ambientalistas locais agora temem que, na pressa para compensar a perda desses empregos, o espírito do Aceh Verde seja diluído. 

O governador “apoia os investidores, não o meio ambiente”, disse Arifsyah Nasution, coordenador do Kuala, uma organização que representa 25 grupos ambientais locais. “O governador diz que estão fazendo isso de um ‘modo verde’, mas ainda não vimos nenhum resultado. Para nós é tudo apenas conversa, uma forma de atrair investimentos em grande escala.” 

No coração das dificuldades do Aceh Verde está a falta de um governo plenamente funcional em grande parte da região. Mais de 30 anos de conflito e o tsunami deixaram os governos locais e provincial em pedaços. A corrupção, especialmente na esfera local, permanece predominante, segundo monitores anticorrupção como a Transparência Internacional. 

“A equipe do Aceh Verde trabalha sozinha. Há muita pouca coordenação ou entendimento entre outros setores do governo”, disse Nasution sobre a equipe do governo, que trabalha em Banda Aceh, a capital provincial. 

“Há muitas regulamentações conflitantes vindo de vários níveis do governo. É uma confusão.” 

Fan disse que a equipe Aceh Verde do governador planeja passar os próximos dois anos fortalecendo a governança entre os líderes locais e provinciais. Eles estão revendo a política para a floresta assim como a extração de recursos. 

Vários projetos estão em andamento, disse Fan, incluindo uma parceria entre o governo indonésio e o banco de desenvolvimento alemão KfW para o desenvolvimento de recursos geotérmicos. 

“É claro, ainda há muito mais que precisa ser feito, já que estamos no início”, ela disse. 

Para alguns, incluindo os rebeldes que viraram guardas florestais, o Aceh Verde se transformou em um novo tipo de doutrina provincial. 

Kamarullah, 32 anos, um ex-combatente rebelde e madeireiro ilegal que, como muitos indonésios, tem apenas um único nome, disse que agora se considera um ativista ambiental. 

“Eu nunca soube como usar sabiamente a floresta”, ele disse durante uma patrulha recente. “Agora eu entendo a importância da floresta. Eu sempre a protegerei, assim como sua vida selvagem e o meio ambiente como um todo, mesmo que deixe de ser guarda florestal.”

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