Eleições no Iraque: Um agradecimento às tropas dos Estados Unidos

Hussain Abdul Hussain

  • AP

    Saddam Hussein, ex-presidente do Iraque, em imagem de 1998. Os atos do ditador deposto pelos EUA ainda ecoam na memória dos iraquianos

    Saddam Hussein, ex-presidente do Iraque, em imagem de 1998. Os atos do ditador deposto pelos EUA ainda ecoam na memória dos iraquianos

“Esta é mais uma votação. Vote novamente e deixe que o funcionário tire a sua fotografia”, disse Nabil al-Janabi, o encarregado de negócios em Beirute, ao me entregar um papel no Dia da Grande Morosidade, quando nós – iraquianos no país e no exterior – tínhamos que votar no único candidato presidencial, Saddam Hussein.

Estávamos em outubro de 2002, e como tinha que dirigir até a Embaixada do Iraque no subúrbio rico de Hazmiyeh, em Beirute, eu pedi meio dia de folga ao “The Daily Star”. Quando o editor soube que eu estava reduzindo o período de trabalho, ele disse: “Por que não escrever uma matéria? Eu arranjarei um fotógrafo para se encontrar com você”.

Eu cheguei antes do fotógrafo. Após uma revista de segurança, me deixaram entrar no saguão principal da embaixada, onde dezenas de eleitores iraquianos estavam sentados em silêncio absoluto. A embaixada, cuja equipe era oriunda da temida agência de inteligência de Saddam, não foi capaz de transformar a reeleição de Saddam, que estava na presidência por 23 anos, em uma ocasião alegre.

Os funcionários distribuíram a cédula com a pergunta: “Você aprova a renovação do mandato do presidente Saddam Hussein?”. Havia um quadrado para a marcação de um “sim”, e, surpreendentemente, um outro com um “não”.

A seguir um funcionário disse, “Irmãos e irmãs, quem quiser votar secretamente por trás da cortina, sinta-se à vontade para fazer isso”. Todos tinham medo de marcar a cédula por trás da cortina, de forma que marcamos o “sim” à vista de todos. A seguir fomos conduzidos a uma sala adjacente, onde havia uma única urna de madeira sobre uma mesa. Na parede estava um retrato de Saddam, decorado com luzes coloridas.

Eu mantive os dedos cruzados na esperança de que o fotógrafo do jornal chegasse no momento em que eu depositasse a cédula na urna. Mas ele chegou tarde, e eu lhe disse que desejava que ele tivesse tirado a minha foto votando. Al-Janabi, que ouviu a nossa conversa, me ofereceu uma nova cédula, e eu votei uma segunda vez, enquanto Mohamed me fotografava. Eu ainda tenho a foto no meu computador.

No domingo, eu pegarei meu carro e dirigirei até Arlington, no Estado de Virgínia, para votar para o segundo parlamento iraquiano pós-Saddam. Só que desta vez eu poderei escolher dentre mais de 6.000 candidatos.

Esta é a quinta eleição nacional desde 2005, um ano em que os iraquianos votaram para uma assembleia nacional, aprovaram a constituição e, a seguir, elegeram o seu primeiro parlamento. No ano passado nós votamos nas eleições provinciais.

Em 2002, eu entrevistei Al-Janabi como parte da minha tarefa jornalística, e jamais poderei esquecer o meu medo. Quais seriam as perguntas apropriadas para uma matéria sobre uma “eleição de mentira”? Será que eu deveria perguntar quando sairiam os resultados? Ou será que tal questão seria ofensiva porque não havia dúvida de que Saddam obteria uma vitória esmagadora? Deveria eu perguntar a respeito da logística do processo, ou isso evidenciaria a farsa?

À noite, eu li declarações oficiais iraquianas alegando que o comparecimento do eleitorado foi de 100%, sendo que Saddam recebeu todos os votos. Eu pensei: os meus pais não votaram, porque a embaixada não sabia que eles tinham acabado de chegar de Bagdá, mas mesmo assim as autoridades iraquianas alegam que todos os iraquianos votaram no “presidente perfeito”.

Depois de 2002, tudo mudou. Ontem eu liguei para os meus pais em Beirute. A minha mãe pretende votar no candidato número 319. Ao fundo, eu ouvi o meu pai dizendo: “Não, não, o número é 337. Eles fizeram um bom trabalho quanto aos contratos de petróleo”. O meu pai queria saber se poderia votar em candidatos distintos de chapas diferentes.

A democracia transformou a maioria dos iraquianos de pessoas que votavam amedrontadas ou eram indiferentes à eleição falsa de Saddam, em indivíduos que são motivados a votar por uma sensação de serem donos do seu país.

Os iraquianos percebem que a sua democracia não é a melhor, mas eles sabem também que a prática leva à perfeição.

Desde 2002 as eleições iraquianas vêm sendo aperfeiçoadas. Embora ainda não seja perfeita, a democracia está se firmando no país.

Enquanto isso, os iraquianos como eu aprenderam que a transformação de autocracia em democracia não teria sido possível sem os 4.700 corajosos soldados – homens e mulheres – norte-americanos e aliados que perderam a vida, e os muitos outros que ficaram feridos, em nome da liberdade do Iraque.

As famílias desses heróis deveriam saber que muitos de nós somos gratos aos seus filhos e filhas, e aos Estados Unidos e aos seus aliados, ainda que eles não ouçam com frequência agradecimentos do Iraque ou dos líderes do país.

É em dias como o domingo que esses sacrifícios são lembrados mais intensamente pelos iraquianos.

(Hussain Abdul-Hussain é o correspondente em Washington do jornal kuaitiano “Al Rai”, e pesquisador da Chatham House, em Londres)

Tradutor: UOL

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