Risco e oportunidade para as mulheres diante dos desafios do século 21

Katrin Bennhold

Paris (França)

Daniel Louvard não acredita na ação afirmativa. Vez ou outra, os cientistas em seu laboratório de estudo do câncer em Paris pedem que ele considere a diversidade de gênero ao contratar profissionais. Mas Louvard, diretor de pesquisa no Instituto Curie e um dos principais bioquímicos da França, continua contratando mais mulheres.

“Eu escolho os melhores candidatos, ponto final”, diz Louvard. Há 21 mulheres e 4 homens em sua equipe.

  • Lalo de Almeida/Folha Imagem - 22.nov.2001

    Pesquisadoras do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, analisam amostras orgânicas durante experimentos científicos. No Dia Internacional da Mulher, o trabalho científico ainda é uma das grandes barreiras que as mulheres ainda enfrentam

A revolução silenciosa que fez muitas mulheres do mundo em desenvolvimento alcançarem os homens no mercado de trabalho e na educação também chegou à ciência, o reduto masculino mais teimoso.

No ano passado, três mulheres receberam prêmios Nobel de ciências, um recorde. As mulheres agora representam 42% dos graduados em ciências nos 30 países da Organização pela Cooperação Econômica e Desenvolvimento; nas ciências da vida, como biologia e medicina, mais de seis entre dez graduados são mulheres.

As mulheres mais jovens também estão embarcando na ciência depois da graduação: na União Europeia, o número de mulheres na pesquisa está crescendo numa proporção quase duas vezes maior do que o de homens, dando origem ao que alguns apelidaram de “old girls network” [um sistema informal de assistência mútua entre mulheres de um determinado grupo].

Até a Barbie, a boneca icônica cuja edição de 1992 dizia a frase infame de que “matemática é difícil”, transformou-se em engenheira de computadores em sua edição de 2010, completa, com óculos e laptop cor-de-rosa.

Mas embora o progresso tenha sido imenso desde a época em que Marie Curie, vencedora do prêmio Nobel por duas vezes, foi barrada na academia de ciências da França há um século, ele tem sido mais lento em outras partes da sociedade – e bem menos uniforme.

Na ciência da computação, por exemplo, a porcentagem de graduadas mulheres nas universidades americanas chegou a um pico nos meados dos anos 80, em mais de 40%, e desde então caiu para a metade disso, diz Sue Rosser, acadêmica que escreve extensivamente sobre as mulheres na ciência. Na engenharia elétrica e mecânica, as porcentagens de matrícula continuam baixas. O número de mulheres que são professoras de ciências em tempo integral nas universidades de elite dos Estados Unidos ficou estacionado em 10% nos últimos 50 anos. Em todo o mundo, apenas um punhado de mulheres presidem uma academia de ciência nacional. As mulheres receberam apenas 16 dos 540 prêmios Nobel de ciência.

O cabo de guerra entre os números encorajadores e os detalhes lamentáveis demonstra, sob vários aspectos, a história do avanço das mulheres como um todo. As mulheres conseguem mais títulos e tiram notas melhores do que os homens nos países industrializados. Mas elas ainda ganham menos e com frequência não trabalham tempo integral. Apenas 18% dos professores catedráticos nos 27 países da União Europeia são mulheres.

E o dinheiro pesado da ciência hoje em dia está na computação e engenharia – os dois campos com menos mulheres.

No século 21, talvez mais do que nunca, o conhecimento científico e tecnológico será especialmente valorizado. Com a humanidade pronta para enfrentar desafios prementes – desde a mudança climática até doenças complexas e as consequências da revolução digital –, a falta de pessoas com a capacitação adequada deixa muitos países numa situação complicada.

Aí está tanto uma oportunidade quanto um risco para as mulheres: nos próximos anos, as pessoas que dominam as ciências mudarão o mundo – e muito provavelmente receberão os maiores salários.

“As mulheres precisam da ciência e a ciência precisa de mulheres”, diz Beatrice Dautresme, diretora executiva da Fundação L'Oreal e idealizadora do prêmio L'Oreal-Unesco para as Mulheres na Ciência, que homenageia cinco cientistas do mundo inteiro todos os anos. “Se as mulheres conseguem se dar bem na ciência, elas conseguem se dar bem em qualquer lugar.”

Muitos obstáculos que as mulheres enfrentam no cotidiano estão severamente cristalizados nas profissões tecnológicas e científicas. Equilibrar uma carreira com a família é particularmente complicado quando o tempo para conseguir uma cátedra compete com o relógio biológico, ou quando um cargo de engenharia requer longas permanências numa plataforma de petróleo no meio do oceano.

Para casais, coordenar duas carreiras é especialmente difícil quando ambos estão na ciência. E 83% das mulheres cientistas nos Estados Unidos têm parceiros cientistas, comparado a 54% dos cientistas homens.

Lutar contra preconceitos sutis e não tão sutis é muito mais difícil quando eles são transmitidos pelos educadores, desde os professores na pré-escola até Lawrence H. Summers, o ex-presidente da Universidade de Harvard. Rosser foi uma das palestrantes numa conferência em janeiro de 2005, na qual Summers disse que as diferenças “intrínsecas de aptidão” entre homens e mulheres são mais importantes do que os fatores culturais e a discriminação ao explicar porque menos mulheres têm sucesso nas ciências.

Pelo menos uma mulher na plateia saiu em protesto, lembra-se Rosser. Outras, como ela, desafiaram Summers depois de seus comentários.

A noção de que a habilidade intelectual nos homens tem uma variabilidade maior – ou seja, que os cérebros mais brilhantes e mais deficientes são encontrados nos homens – surgiu pela primeira vez em 1894 para explicar porque havia mais homens nos hospícios e menos mulheres geniais. A tese foi desacreditada por estudos empíricos, os mais recentes feitos em junho por Janet Hyde e Janet Mertz da Universidade de Wisconsin, que mostraram que em alguns países não há diferença entre homens e mulheres no mais alto nível. Nos lugares em que a diferença continua, é relacionada à desigualdade de gênero e está diminuindo, sugerindo que fatores culturais, e não intrínsecos, estão em jogo.

Mas os estereótipos correm soltos. Numa apresentação para garotas de colegial há alguns anos, Gigliola Staffilani, professora de matemática no Massachusetts Institute of Technology, foi questionada se, para uma mulher, o fato de ser inteligente “torna difícil namorar”. Os departamentos de matemática de várias universidades lamentam uma queda no número de mulheres matriculadas. No MIT, por exemplo, a quantidade de inscrições de mulheres no programa de graduação em matemática caiu de cerca de 17% nos anos anteriores para 13% este ano, diz Staffilani. (Mas a qualidade de suas inscrições foi tão alta, diz ela, que elas serão 22% dos alunos escolhidos.)

A falta de modelos femininos a preocupa. Isso reforça uma visão de que, para as meninas, a aula de matemática é difícil.

Com frequência, o condicionamento começa cedo. Blanca Treviso, cientista da computação e diretora executiva do Softtek, o maior provedor de serviços de informação e tecnologia na América Latina, diz que a professora do jardim da infância a chamou para reclamar de sua filha, que estava brincando com uma calculadora e não com bonecas.

“A mulher disse que minha filha estava inventando histórias, dizendo que sua mãe tinha um escritório e uma assistente”, disse Treviso. “A ideia de que isso pudesse ser verdade não ocorreu a ela.”

Na Índia, as cientistas reclamam que até nos livros de ciência as mulheres são mostradas nos papeis tradicionais. E nos Estados Unidos, alguns psicólogos dizem que o aumento dos jogos de computador voltados para os meninos é uma explicação para o hiato cada vez maior nas ciências da computação desde os anos 80.

“Deveria haver um esforço conjunto para desfazer essas expectativas estereotipadas”, diz Lotte Bailyn, professora da Escola Sloan de Administração do MIT, que estudou o fenômeno. “Precisamos de mais programas de TV com mulheres na medicina forense e outras cientistas. Precisamos de mulheres médicas e de bonecas cientistas.”

A história mostra que a própria ciência não tem ajudado muito as mulheres a receberem o crédito que merecem.

Tome como exemplo Lise Meitner, uma física nascida na Áustria que foi fundamental na descoberta da fissão nuclear com Otto Hahn mas que não dividiu o prêmio Nobel com ele em 1944. Ou Hedy Lamarr, outra austríaca, que é lembrada pelas cenas de nudez no notório filme “Ecstasy” de 1933 e por sua carreira em Hollywood e não por ter desenvolvido uma tecnologia, com George Antheil, que se tornou a base para a telefonia moderna.

Só em 1967 a rua que pode ser vista através da janela do escritório de Louvard no Quartier Latin, chamada Rua Pierre Curie por causa do marido físico de Marie Curie, foi rebatizada de Rua Pierre e Marie Curie. E só em 1995 o corpo de Marie Curie foi transferido para o Panteão, o monumento das grandes mentes da República Francesa. A inscrição na entrada do prédio ainda diz: “Aos Grandes Homens”.

É um detalhe, mas os detalhes são importantes. Em dezenas de conversas com mulheres cientistas e executivas de tecnologia dos EUA, Europa e Ásia, observou-se um padrão: muitas frequentaram escolas só para mulheres e um número significativo teve pais cientistas.

Apesar de protegidas do preconceito de certa forma, elas ainda tiveram que equilibrar o trabalho com a vida privada. Muitas não têm filhos (ou têm apenas um), e elas ainda são mais propensas a serem solteiras ou divorciadas do que a média da mulheres escolarizadas, diz Bailyn.

Nas Filipinas, Lourdes Cruz, bioquímica premiada pela L'Oreal-Unesco para a região da Ásia-Pacífico este ano, é um exemplo disso. Educada numa escola para meninas e encorajada pelo pai químico, ela teve uma carreira bem sucedida como pesquisadora na Universidade de Utah e no Instituto de Ciência Marinha em Quezon City. Nunca teve tempo para se casar, quanto menos para ter filhos, diz ela.

“Passei muito tempo no laboratório e isso era minha prioridade”, diz Cruz, que estuda as aplicações médicas de uma toxina nervosa de determinados moluscos.

Ela frequentemente dormia num colchão de espuma em seu laboratório e colocava o despertador para fazer medições noturnas durante experimentos longos.

As mulheres que conseguiram combinar uma carreira na ciência com a família quase sempre dizem que tiveram sorte de alguma forma. Elizabeth Blackburn, 61, uma bióloga molecular australiana que compartilhou o prêmio Nobel de Medicina no ano passado com Carol Greider, descobriu na mesma semana – quando ela tinha 37 anos – que estava grávida de seu filho e que tinha recebido uma cátedra na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Staffilani, 44, recebeu uma cátedra mais cedo, aos 34 anos, uma idade em que muitas cientistas na academia norte-americana mal começaram como professoras-assistentes, o que dá a elas seis anos para lutarem por uma vaga permanente. Ela tinha 36 anos quando teve gêmeos. Como teve dois filhos de uma vez só, ela teve que passar apenas metade do tempo sem ensinar e publicar.

Edith Heard, 44, geneticista britânica que comanda o departamento de biologia do desenvolvimento e genética no Instituto Curie, diz que sua sorte foi mudar para Paris com seu parceiro francês no começo de sua carreira.

“Foi uma mudança decisiva”, diz Heard, mãe de dois filhos. “Eu não poderia ter feito isso no Reino Unido e não o teria feito nos EUA.”

Várias mulheres com as quais ela foi à universidade na Grã-Bretanha abandonaram suas carreiras na ciência quando tiveram filhos, diz ela.

Heard se beneficiou de um contrato permanente com o governo francês quando ela tinha 28 anos, permitindo que ela fizesse experimentos arriscados que com frequência não são financiados nos contratos de curto prazo mais comuns em outros lugares. Ela tirou uma licença maternidade de dez semanas depois do nascimento de cada filho e usou o sistema de berçário subsidiado pelo Estado da França. O mais importante, talvez, é que seu marido, também geneticista, divide as responsabilidades domésticas.

Nisso, também, Pierre e Marie Curie foram pioneiros. Se ela continua sendo uma inspiração para as mulheres cientistas, não é só porque recebeu dois prêmios Nobel, um em física e outro em química. Ela também teve um casamento de longa duração e duas filhas bem sucedidas.

Pierre, com quem ela descobriu a radioatividade, recusou-se a aceitar o Prêmio Nobel em Física de 1903 que foi oferecido a ele e Henri Becquerel a menos que sua mulher o dividisse com eles.

Sua filha Irene Joliot-Curie recebeu seu próprio Nobel em Química, com seu marido, Frederic Joliot, em 1935. A outra filha, Eve, chegou à capa da Paris Match, tornou-se uma das primeiras repórteres de guerra na 2ª Guerra Mundial e escreveu a biografia de sua mãe. Blackburn leu a biografia quando era adolescente. “Fiquei impressionada com sua capacidade de encontrar grande satisfação em fazer ciência, com a mensagem de que o envolvimento passional na ciência era algo que uma pessoa admirável podia fazer, e com sua vida familiar da forma como é descrita por sua filha”, ela lembra.

Maridos que ajudam estão se tornando menos raros. Louvard, cuja mulher também tem um doutorado mas desistiu da carreira na ciência para cuidar dos três filhos, observou: “Vejo cientistas aparecerem em conferências com seus maridos e filhos agora. Isso era impensável até pouco tempo atrás.”

Mas só a boa vontade não é suficiente. “As instituições tem que mudar”, diz Blackburn.

Rosser observou que no Instituto de Tecnologia da Geórgia, onde ela trabalhou como reitora até um ano atrás, as mulheres tinham que tirar licença saúde para ter filhos, como todos os funcionários do Estado.

Ambas sugeriram que interromper o período de experiência da cátedra durante os períodos em que os cientistas – mulheres e homens – cuidam de seus filhos ou pais idosos pode motivar mais as mulheres a seguirem a carreira científica. Algumas universidades privadas, como Princeton e o MIT, já fazem isso. Assegurar que os pais continuem recebendo suas bolsas durante o período de licença e incluir dinheiro para cuidar das crianças nas bolsas de pesquisa pode ser outra sugestão. A chave para qualquer medida, dizem, é torná-la uma regra e não uma opção, para evitar estigmatizar as mulheres.

Recentemente, duas mudanças começaram preocupar os políticos e das empresas: a falta de engenheiros e outros tipos de mão de obra qualificada no Ocidente, e o aumento de graduados em ciência e tecnologia em países como a China e a Índia, à medida que o equilíbrio do poder econômico se transfere mais para o Oriente.

Em 2017, espera-se um déficit de 200 mil engenheiros na Alemanha, e na Inglaterra mais de meio milhão de trabalhadores capacitados serão necessários para satisfazer as demandas dos setores de transportes, aeroespacial e de energia renovável. Os Estados Unidos, enquanto isso, se encontram em antepenúltimo lugar na lista internacional da OECD de aptidão matemática e científica no nível escolar.

Ao mesmo tempo, países em desenvolvimento – principalmente na Ásia – aumentaram sua participação na pesquisa global, de 30% em 2002, para 38% em 2007, de acordo com a Unesco.

O governo Obama transformou em prioridade fazer com que mais mulheres entrem na ciência. Em todo o mundo desenvolvido, a academia e a indústria estão tentando, juntas ou separadamente, seduzir as mulheres para profissões técnicas com programas de monitoria, acampamentos de ciências e berçários.

“Esse pool de talentos é extremamente importante para nós”, diz Kerstin Wagner, chefe de recrutamento de talentos para a gigante eletrônica alemã Siemens. Apesar dos problemas econômicos, a Siemens está tendo dificuldades para preencher 600 vagas de engenharia nos Estados Unidos e mais de 1.200 vagas de engenharia na Alemanha.

“Tudo está propício para que mais mulheres tenham sucesso na ciência; agora as diferentes peças só precisam se encaixar”, diz Dautresme da Fundação L'Oreal. “Acredito que este século verá muito mais mulheres se tornarem líderes na ciência.”

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