Guerras internas devem terminar, afirma chefe de política externa da União Europeia

Bruxelas

  • Frank Rumpenhorst/AP

    Homem atravessa ponte perto do edifício Bundesbank, em Frankfurt, iluminado com o euro

    Homem atravessa ponte perto do edifício Bundesbank, em Frankfurt, iluminado com o euro

A chefe de política externa da União Europeia, Catherine Ashton, apelou na quarta-feira aos seus críticos e aos que estão travando guerras internas sobre a criação de um novo corpo diplomático para não deixarem as lutas internas destruírem uma “chance em uma geração” de aumentar a influência mundial da Europa. 

Após três meses de reclamações em todo o continente sobre a falta de experiência em política externa de Ashton, ela adotou uma postura dura em uma audiência no Parlamento Europeu, advertindo gravemente que as potências econômicas crescentes como China e Índia podem empurrar a Europa para o lado se continuar com implicâncias e picuinhas. 

Catherine Ashton

  • Olivier Hoslet/EFE

    A britânica indicada para presidir a Política Externa da União Européia, chega para sessão do Parlamento Europeu, em Bruxelas (Bélgica)

“Se nos unirmos, podemos proteger nossos interesses”, disse ela. “Se não, outros farão decisões por nós.” 

“Alguns preferem minimizar as perdas percebidas a maximizar os ganhos coletivos”, disse Ashton aos legisladores, admitindo que sua tarefa de criar um novo corpo diplomático estava se provando “confusa e complicada”. 

“Não devemos reduzir nossas ambições e sim dar-nos os meios de realizá-las”, acrescentou. 

As lutas internas sobre quem deve controlar o novo serviço diplomático europeu –combinadas com o as críticas ao próprio desempenho de Ashton em seus primeiros 100 dias no cargo- encobriram os esforços para construir uma presença global mais forte. Esse é um dos principais objetivos do Tratado de Lisboa que entrou em vigor em dezembro após oito anos de debate e negociação dentro da União Europeia. 

Ashton usou sua audiência no Parlamento em Estrasburgo para combater as críticas pessoais e para tentar abrir os caminhos para o estabelecimento do Serviço de Ação Externa Europeu, que terá milhares de funcionários. 

Na maior parte, ela foi recebida de forma educada. Hannes Swoboda, social-democrata da Áustria, disse que sentia muito que alguns ministros de relações exteriores da UE estivessem tornando a vida de Ashton difícil “talvez por ciúmes”. Um membro da centro-direita da Itália, Mario Mauro, disse que era importante que Ashton “não fosse intimidada por disputas institucionais”. 

Contudo, os políticos agora estão questionando abertamente se o papel de Ashton não é impossível –não importa quem o detenha. 

“No cerne da questão, está o fato que ela tem várias funções, varias lealdades e diversas expectativas. Por definição, ela não pode deixar todo mundo contente, e será muito difícil ficar no centro do fogo cruzado de diferentes demandas”, disse Antonio Missiroli, diretor de estudos do Centro de Política Europeia. 

Em um seminário em Bruxelas no mês passado, o ministro de relações exteriores da Suécia, Carl Bildt, expressou dúvidas sobre a criação do cargo de política externa, observando que combinava papeis anteriormente desempenhados por três pessoas trabalhando em dedicação integral. 

Com pouca experiência em política externa, Ashton, ex-líder não eleita da Câmara dos Lordes do Reino Unido e negociadora comercial da UE, foi criticada publicamente por alguns ministros da UE por sua pouca visibilidade. 

Em resposta às críticas francesas por participar da posse do novo presidente da Ucrânia, em vez de uma reunião informal com os ministros da defesa da UE, Ashton optou por ironia na quarta-feira, dizendo que “ainda tinha que aprender a viajar no tempo”. 

No longo prazo, a batalha sobre o corpo diplomático é mais séria. Como o Tratado de Lisboa não explicita detalhes, as instituições da UE e os Estados membros têm que definir quem deve controlar o novo corpo. Em Bruxelas, onde carreiras burocráticas avançam ou terminam com base no controle de linhas de orçamento, isso gerou uma batalha aberta. 

A situação de Ashton é desajeitada, em parte porque é representante dos 27 Estados membros e também vice-presidente da Comissão Europeia, o poder executivo do bloco, onde tem seu escritório. 

Até agora, a comissão teve controle da maior parte dos gastos de política externa da UE, inclusive da ajuda para desenvolvimento e de verbas para as nações candidatas ao ingresso na união. A política externa continua, contudo, sendo determinada pelos governos nacionais da UE. 

Ao tentar unir os dois elementos, Ashton encontrou resistência na comissão, que quer reter controle significativo sobre a ajuda de desenvolvimento e sobre os gastos em países vizinhos da UE. 

Isso irritou os Estados membros, que também estavam furiosos com a nomeação do novo embaixador da UE em Washington, João Vale de Almeida de Portugal, que era assessor próximo do presidente da Comissão Europeia, Jose Manuel Barroso. A nomeação foi promovida sob regras antigas que davam à comissão o poder de nomear representantes no exterior. 

Barroso era aliado próximo de Ashton e apoiou sua nomeação surpresa para o cargo em política externa no ano passado. 

Na semana passada, os ministros de relações exteriores do Reino Unido e da Suécia escreveram uma carta pedindo aos Estados membros que “desempenhassem um pleno papel desde o início” do serviço diplomático europeu e “colocassem de lado as rivalidades do passado”. 

Defensores de Ashton argumentam que ela começou a enfrentar a comissão e que, após ter nomeado como seu assessor Poul Skytte Christoffersen, dinamarquês bem conceituado e veterano do circuito da UE, ela estará mais bem equipada. 

Na quarta-feira, Asthon disse que a construção do Serviço de Ação Externa significava que “as pessoas terão que ajustar seus mapas mentais e as instituições terão que encontrar seu novo lugar.” 

A escala da tarefa adiante ficou clara quando membros do Parlamento Europeu deixaram claro na quarta-feira que queriam ter poderes. Apesar do Tratado de Lisboa não dar a eles o poder sobre a política externa da UE, estende sim sua competência sobre o orçamento da UE e regras de pessoal. Ambos terão que ser alterados para o estabelecimento do Serviço de Ação Externa. 

Vários membros do Parlamento ficaram do lado da Comissão Europeia no debate de quarta-feira, inclusive Elmar Brok, proeminente alemão da centro-direita. Ele disse que a UE raramente tinha tido sucesso quando buscou integração e cooperação entre os Estados membros sem a Comissão Europeia. Ele acrescentou que o Parlamento Europeu gostaria de exercer seus “direitos em termos de avaliação orçamentária”. 

A confusão significa que é altamente improvável que as autoridades europeias cumprirão o prazo original do final de abril para apresentar a estrutura final do corpo diplomático.

Tradutor: Deborah Weinberg

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