Sonhando com um fim para o pesadelo do futebol - os pênaltis

Christopher Clarey

As Olimpíadas de Inverno de 2010 acabaram, mas o verdadeiro evento esportivo global do ano só acontecerá em junho e julho na África do Sul.

A Copa do Mundo de futebol gera debate e paixão em todo continente, inclusive na Antártida, onde algumas poucas almas robustas nas estações de pesquisa, durante o inverno no Hemisfério Sul, presumivelmente manterão as coisas aquecidas conversando um pouco sobre futebol.

Apesar de não haver discussão sobre qual evento é mais universal, a Copa do Mundo poderia aprender alguma coisa com os Jogos de Vancouver. Ou melhor, pegar emprestado algo dos Jogos de Vancouver.

A questão é o desempate, que é o pesadelo recorrente do futebol, porque suas grandes ocasiões continuam sendo reduzidas ao espetáculo tenso, mas insatisfatório, das cobranças de pênaltis.

Duas das últimas quatro finais de Copa do Mundo foram decididas dessa forma, incluindo a mais recente, em Berlim em 2006, quando a Itália derrotou a França em um jogo mais lembrado pela cabeçada dada no adversário por Zinédine Zidane.

Mas é difícil não lamentar as cobranças de pênaltis e se perguntar como um esporte de enorme habilidade e resistência, um jogo definido por ataques cuidadosamente construídos, pode ser reduzido a uma loteria relativamente estática, fora de contexto, valendo o mais importante troféu no mundo dos esportes.

Eu sempre gostei da analogia feita por Ian Thomsen, meu antecessor no “International Herald Tribune”, após assistir a vitória do Brasil sobre a Itália de Roberto Baggio, seu pobre astro de rabo-de-cavalo, na cobrança de pênaltis na final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Thomsen a chamou de “o equivalente a tirar Jack Nicklaus e Tom Watson do Augusta National, após um empate em 72 buracos, e ordená-los a decidir o Masters no minigolfe Putt-Putt, na Rota 17, pouco depois de sair da cidade”.

Um exagero? Claro, mas um divertido e que acentua bem a incongruência. Os jogadores de futebol treinam e sonham por anos. Eles correm e transpiram por partidas eliminatórias, mata-matas e, no final, a decisão é assim?

Sepp Blatter, desde 1998 o presidente da FIFA, a federação internacional de futebol, defendeu o status quo após os pênaltis de 1994, basicamente equiparando os pênaltis com democracia (a pior forma de desempate, com exceção de todas as outras). Mas Blatter, que é conhecido por mudar de ideia ou tê-la mudada pelos outros, soou como se realmente estivesse cheio após a final de 2006.

“O futebol é um esporte coletivo e os pênaltis não envolvem uma equipe, mas sim indivíduos”, disse Blatter. “Quando se chega a uma final da Copa do Mundo, trata-se de paixão, e quando vai para a prorrogação vira um drama. Mas quando chega aos pênaltis, é uma tragédia.”

Apesar de tragédia parecer um termo melhor reservado para dificuldades da vida real e Shakespeare, Blatter estava obviamente exaltado e ele disse que a FIFA tinha quatro anos para criar uma abordagem melhor. Mas quatro anos se passaram e a abordagem permanece a mesma. Não causaria surpresa se Blatter, que é mais conhecido por apresentar ideias e depois vê-las afundar (Copa do Mundo de dois em dois anos? Calções mais justos e camisas mais curtas para as mulheres?), assistisse a outra decisão nos pênaltis, desta vez em Johannesburgo.

O que nos trás de volta às Olimpíadas de Inverno ou, mais especificamente, ao torneio olímpico de hóquei no gelo, onde cada equipe jogou as prorrogações com cinco jogadores em vez de seis.

A ideia, tirada da Liga Nacional de Hóquei, é criar mais espaço para o ataque, o que funcionou. Um dos motivos para a vitória do Canadá sobre os Estados Unidos, na disputa pela medalha de ouro, ter sido tão incrível é que terminou com um gol –um gol de verdade, marcado por Sidney Crosby durante a partida, em vez de um gol artificial.

O hóquei também tem uma disputa semelhante aos pênaltis, que foi usada para decidir o ouro em 1994, quando a Suécia derrotou o Canadá, mas que não ocorreu das quartas-de-final em diante em Vancouver, nem nas quartas-de-final em diante nos Jogos de Turim, em 2006.

O futebol, por ora, só pode sonhar, mas as disputas de pênaltis nem sempre foram o modo final de desempate. Introduzida nos campeonatos domésticos e em pequenas competições nos anos 50 e 60, a disputa de pênaltis só foi introduzida em um grande torneio nos campeonatos europeus de 1976 e só passaram a ser usadas na Copa do Mundo a partir de 1982.

A cobrança de pênaltis parece um avanço em comparação à solução anterior para duas equipes que não conseguiam desempatar: uma disputa de cara ou coroa na moeda. Mas apesar dos dirigentes do futebol terem experimentado com a prorrogação –tentando o formato da morte súbita, ou gol de ouro, na Eurocopa e na Copa do Mundo– eles nunca tentaram reduzir o número de jogadores na prorrogação.

Os criadores precisam de espaço para criar e, na verdade, muitos esportes modernos poderiam se beneficiar da remoção de um jogador de cada equipe, mesmo no tempo regulamentar, considerando que a maioria das dimensões dos campos e quadras do mundo foi estabelecida em uma era em que os atletas de elite não eram tão fortes e, acima de tudo, tão rápidos quanto os de hoje.

Mas exigir que os times de futebol joguem, digamos, os primeiros 10 minutos da prorrogação com 10 jogadores cada e o segundo período com nove, seria uma boa forma de começar e, ainda melhor, de terminar. Se isso ainda não resolver o conflito, que joguem 8 contra 8, depois 7 contra 7, que seria o mínimo em um campo de tamanho pleno.

E apenas se tudo isso fracassar, então recorrer à cobrança de pênaltis ou algum critério menos aleatório, como os jogos vencidos ou o saldo de gols durante o torneio.

Permitir substituições adicionais em caso de preocupações com a saúde dos jogadores e permitir que o primeiro gol decida o vencedor torna os empates ainda menos prováveis. Aqueles que acreditam que a remoção de jogadores viola o espírito do futebol devem lembrar que muitos jogadores crescem jogando em times com menos jogadores e até mesmo o fazem em treinamentos como profissionais, assim como jogam com menos jogadores em jogos oficiais, quando ocorrem expulsões.

O que importa é preservar a essência do esporte ao se forçar um resultado. O futebol, apesar de muitos estarem em campo, é basicamente uma série contínua de disputas pelo controle dentro de uma disputa maior. Jogar 9 contra 9 soa muito mais fiel ao esporte do que pedir para que alguém chute uma bola parada contra um goleiro solitário, para então enfrentar a reação da nação quando ele ou ela acerta a trave.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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