Alemanha muda de ideia sobre o resgate europeu à Grécia

Matthew Saltmarsh de Paris e
Stephen Castle de Bruxelas

  • ALINA NOVOPASHINA/EFE

    O primeiro ministro grego, Yorgos Papandreu, e a chanceler alemã, Angela Merkel, após encontro para discutir a situação financeira grega no último dia 05 de março, em Berlim

    O primeiro ministro grego, Yorgos Papandreu, e a chanceler alemã, Angela Merkel, após encontro para discutir a situação financeira grega no último dia 05 de março, em Berlim

A carga de resolver a crise financeira grega virou na direção do Fundo Monetário Internacional na quinta-feira (18/3), enquanto a Alemanha se distanciou da possibilidade de ajuda bilateral ou europeia ao país altamente endividado. 

Citando obstáculos legais, uma autoridade governamental em Berlim disse na quinta-feira que a Alemanha acreditava que qualquer apoio externo a Atenas, se necessário, deveria ser fornecido pelo FMI. 

“No caso de os gregos realmente entrarem em dificuldades, nós apoiamos uma solução pelo FMI”, disse a autoridade, que não estava autorizada a falar publicamente do assunto. 

Em meio às incertezas, o euro escorregou contra o dólar e cai de US$ 1,3741 pela manhã para US$ 1,3621 no pregão de tarde em Nova York. As ações europeias também declinaram. O índice geral da Bolsa de Valores de Atenas caiu 3,3%. 

A Alemanha é a maior economia da zona do euro, então a opinião de Berlim sobre o resgate ou outra forma de resolução da dívida é de vital importância. 

Os governos europeus, incluindo a França e a Alemanha, já haviam assinalado que qualquer resgate à Grécia, que foi punida pelos mercados financeiros como resultado de seu déficit crescente, deveria ser resolvido dentro da zona do euro. 

Berlim inicialmente pareceu relutante em convocar o FMI, preferindo resolver a questão dentro do bloco monetário –apesar de algumas autoridades financeiras, como Jürgen Stark, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu, terem assinalado sua preferência por uma solução externa. 

Desde a criação do euro, em 1999, nenhum membro pediu auxílio ao FMI, que ainda assim ajudou a resgatar uma série de economias da Europa oriental no auge da recente crise econômica. 

Uma autoridade de um dos parceiros da Alemanha na zona do euro disse que o empréstimo do FMI à Grécia talvez não seja suficiente para pagar suas dívidas, pois provavelmente seria limitado a um múltiplo da quota modesta que Atenas detém na instituição, que tem base em Washington. 

A mudança de opinião de Berlim sobre a ajuda à Grécia deixou alguns de seus parceiros europeus confusos sobre as intenções alemãs. 

Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos Políticos Europeus em Bruxelas disse que a mudança de ideia tinha sido movida por dois fatores: “O primeiro é o público interno”, disse ele, referindo-se ao sentimento entre muitos alemães que a Grécia não deve ser salva com seu dinheiro. “O segundo é que a estratégia que os alemães tinham em mente não funcionou”, disse Gros. “Eles imaginaram que a mera oferta de apoio político seria suficiente” para reforçar a confiança do investidor nos títulos gregos. 

Apesar da estratégia ter tido sucesso na perspectiva alemã, não satisfez a Grécia, disse Gros. 

O governo grego vem pedindo mais clareza sobre o que seus vizinhos europeus estão dispostos a fazer para diminuir seus custos de empréstimo, que aumentaram muito quando os problemas de dívida do país tornaram-se mais agudos. O juros dos bônus da Grécia de 10 anos subiu na quinta-feira para 6,265% -um spread, ou diferencial, de 3,14 pontos percentuais em comparação aos bônus alemães, a taxa básica europeia por segurança. 

Enquanto Berlim acredita que Atenas pode viver com o nível de juros que está pagando em seus bônus –e que não está em vias de dar um calote- o governo grego acha que não deveria ter que pagar tanto por seu financiamento, agora que concordou com medidas para cortar seu déficit orçamentário para 8,7% do PIB. 

“Quanto mais os gregos exigem algo de concreto, mais rígida é a parede que encontram”, acrescentou Gros. 

Enquanto isso, a Grécia procurou deixar suas opções abertas, apesar de expressar frustração com a falta de uma proposta sólida de seus parceiros na UE. 

Falando aos repórteres após reunir-se com legisladores das UE em Bruxelas, o primeiro-ministro George A. Papandreou advertiu que o governo seria prejudicado em suas tentativas de aprovar cortes de déficit se o país não puder pegar dinheiro emprestado de forma mais barata. 

Uma oferta de ajuda da UE “seria suficiente para dizer aos mercados: alto lá, não especulem, deixe este país fazer o que está fazendo, deixe-o em paz para que possa avançar”, disse ele. 

Se Atenas depender dos financiamentos com juros altos do mercado, “isso minará as atuais medidas que estamos tomando”, disse Papandreou. “Esse dinheiro então vai para os juros em vez de ir para a implementação do programa.” 

O primeiro-ministro grego disse que ainda esperava uma resposta positiva dos vizinhos da Grécia em uma reunião de cúpula da UE na semana que vem em Bruxelas. 

“Mantivemos todas as opções abertas”, disse ele. 

Falando em Washington, Caroline Atkinson, diretora de relações externas do FMI, disse na quinta-feira que o fundo ainda não foi procurado por Atenas. 

“Achamos que os países da zona do euro vão querer resolver essa questão por eles mesmos”, disse ela, acrescentando que o FMI estava disposto a responder a um pedido de empréstimo da Grécia. 

Amadeu Altafaj, porta-voz da Comissão Europeia para assuntos econômicos e monetários, disse que não havia tido mudança na situação desde segunda-feira, quando os ministros das finanças de 16 países que usam o euro anunciaram que tinham concordado com um mecanismo para salvar a Grécia, caso fosse necessário. 

“Estamos trabalhando em uma estrutura europeia para uma solução coordenada, caso se prove necessária”, disse ele. 

Na segunda-feira, Jean-Claude Juncker de Luxemburgo, que dirige as reuniões dos ministros de finanças da zona do euro, disse que uma estrutura europeia seria criada para coordenar empréstimos bilaterais, em caso de necessidade, envolvendo todos os 16 países da zona do euro. Ele acrescentou, contudo, que as decisões finais de qualquer pacote seriam tomadas pelos chefes de Estado da UE. 

Para citar uma razão pela aparente mudança de posição da Alemanha, a autoridade alemã apontou para o artigo 125 do tratado que governa a UE, que afirma que a UE ou os membros individuais não devem ser responsabilizados ou assumir compromissos dos diferentes governos. 

A autoridade acrescentou que Berlim ainda acreditava que era “muito improvável” que Atenas precisaria procurar o FMI.

Ainda assim, as poucas notícias de Berlim deixaram alguns políticos europeus confusos. 

“Acho incompreensível o que aconteceu, ou o que não aconteceu, nos últimos dias e semanas”, disse Guy Verhofstadt, ex-primeiro-ministro belga e atual presidente do bloco Democrático Liberal no Parlamento Europeu. “É incompreensível porque uma resposta europeia é exatamente a solução mais rápida e menos cara.” 

Membros do Ministério de Finanças alemão também pareceram não ter conhecimento da mudança de postura em seu governo. Autoridades financeiras em outros países da zona do euro ficaram igualmente chocadas. 

“Os sinais que se tem da Alemanha variaram consideravelmente. Não consigo entender qual é a linha deles”, disse uma autoridade de outro país da zona do euro que não tinha permissão para falar publicamente. 

A autoridade disse que os ministérios de finanças da zona do euro acham que a Grécia talvez precise de cerca de 25 bilhões de euros para cobrir dívidas de curto prazo. Atenas vai precisar pegar 53 bilhões de euros nos mercados financeiros neste ano e deve refinanciar cerca de 20 bilhões de euros de dívida em abril e maio –e os juros provavelmente serão altos. 

A autoridade acrescentou que a Grécia provavelmente poderia pegar emprestado entre 12 e 14 bilhões de euros junto ao FMI, assumindo o mesmo modelo usado em recentes resgates. Por exemplo, em 2009, o fundo emprestou à Romênia 13 bilhões de euros, ou 1.100% da quota do país no fundo. A Grécia detém apenas 0,38% de quota do fundo, ou seja, 823 milhões da unidade de moeda do próprio fundo –Direitos Especiais de Retirada- que valem US$ 1,53. 

A autoridade disse que outros organismos multilaterais como o Banco Mundial ou o Banco de Investimento Europeu não estariam em posição de emprestar 10 bilhões de euros ou mais à Grécia. Isso significaria que a União Europeia –e a Alemanha- talvez tenham que financiar a Grécia de qualquer forma, mesmo com a assistência do FMI. 

Ela também disse que os impedimentos legais ao apoio da UE não pareciam insuperáveis, apesar de alguns membros talvez terem que mudar as regras nacionais. 

“Sabemos como fazer”, disse ele. 

Ainda assim, a mudança de direção de Merkel será bem vinda por alguns. Stark do BCE disse a um jornal alemão neste mês que um financiamento conjunto “pode se tornar muito caro, criaria falsos incentivos e sobrecarregaria países com finanças sólidas”. Durante uma entrevista no mês passado, Otmar Issing, ex-membro dos bancos centrais alemão e europeu, advertiu que a União não pode “impor o tipo de sanções necessárias, que tornariam Bruxelas muito impopular. É melhor a Grécia procurar o FMI. É a única instituição que pode impor condições estritas o suficiente”.

Tradutor: Deborah Weinberg

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