Os mitos sobre a moeda chinesa

Pieter Bottelier e Uri Dadush

  • Frederic J. Brown/AFP

    Funcionária do Banco da China confere cédulas de yuan em Pequim, capital do país

    Funcionária do Banco da China confere cédulas de yuan em Pequim, capital do país

A febre da China está atacando Washington novamente à medida que o Tesouro norte-americano se aproxima de seu prazo, em meados de abril, para declarar se a China está manipulando sua moeda para obter uma vantagem injusta no comércio.

Embora faça parte dos interesses da China voltar a ter uma moeda mais flexível e valorizada, alguns mitos perigosos sobre a economia chinesa, e sobre os benefícios que os EUA teriam com um renminbi [outro nome para o yuan] mais caro, estão se espalhando novamente, alimentando a crítica entre os chineses e os lobbies protecionistas, enquanto colocam em risco a relação crucial entre os dois países. Eis alguns dos mitos:

O crescimento da China depende principalmente das exportações. As exportações são importantes para a China, mas a demanda doméstica é o principal motor do seu crescimento. Embora as importações da China tenham crescido quase tão rápido quanto as exportações durante a década anterior à crise, as exportações líquidas responderam por apenas um ponto percentual da taxa média de crescimento anual do país de 9,5%.

A China não contribuiu o suficiente com a demanda global durante a crise. Como resultado do agressivo e bem sucedido programa de estímulo da China, a demanda doméstica expandiu-se 12,3% em 2009 (enquanto nos EUA ela diminuiu 2,6%). Como resultado, o atual superávit da China e o déficit norte-americano caíram drasticamente. A China fez mais do que qualquer outro país para tirar o mundo da recessão.

O consumo da China não está crescendo rápido o suficiente. O consumo doméstico cresceu em média 7,5% ao ano durante os dez anos anteriores à crise, mais rápido do que em qualquer outra grande economia, embora o investimento e o PIB tenham crescido mais ainda, fazendo com que a relação entre o consumo e o PIB caísse a um nível extraordinariamente baixo. Em 2009, o consumo da China cresceu mais rápido do que o PIB pela primeira vez em muitos anos.

A valorização do renminbi ajudará os Estados Unidos. O efeito imediato da valorização da moeda chinesa será o aumento dos preços para os consumidores dos EUA. Uma valorização de 25% do renminbi, que alguns economistas dizem que é necessária – se não for compensada por uma redução nos preços da China – acrescentaria US$ 75 bilhões (R$ 132 bilhões) à conta de importação dos EUA. E como os EUA importam três vezes mais da China do que exportam para o país, o aumento das exportações dos EUA para a China não chegaria nem perto de compensar a perda de poder aquisitivo dos consumidores norte-americanos devido ao aumento dos preços da China.

No fim das contas, embora algumas companhias norte-americanas possam sair ganhando e alguns empregos possam ser criados no setor de exportação, o consumidor norte-americano sairá perdendo.

A valorização do renminbi é fundamental para reduzir o desequilíbrio do comércio global. Mas a revalorização por si só não faria muito para corrigir o desequilíbrio, e poderia, como foi mencionado, levar inicialmente a um déficit ainda maior no comércio entre os EUA e a China. A menos que a demanda interna dos EUA caia por outros motivos, é mais provável que no final o déficit de comércio dos EUA como um todo mal se modifique à medida que o país passe a importar mais de outros locais.

A China manipulou sua moeda durante anos. Cerca de 60 países fixam suas taxas de câmbio em relação ao dólar hoje, e nem todos as manipulam. A China fixou o renminbi no meio da crise asiática em 1997, ganhando a aclamação dos EUA e de outros países por contribuir com a estabilidade regional.

As queixas surgiram em 2003 com o aumento do superávit comercial da China e do déficit comercial dos EUA-China, uma tendência que se acelerou nos anos subsequentes.

A moeda da China se desvalorizou principalmente por causa de algumas políticas macroeconômicas questionáveis dos EUA e da falta de fiscalização do sistema financeiro dos EUA, o que contribuiu para uma explosão de liquidez e uma explosão do consumo financiado por dívidas e alimentado, em parte, pelas importações baratas da China.

O rápido crescimento da produtividade no setor manufatureiro da China, devido a reformas agressivas de mercado desde o final dos anos 90, combinado com a promoção da exportação e as políticas de substituição de importações, contribuíram para os desequilíbrios cada vez maiores no comércio. Em 2005, a China adotou uma política de valorização gradual do renminbi. Sua moeda subiu 21% ao longo de três anos até julho de 2008, quando uma queda brusca nos pedidos de exportação, por causa das condições de crise nos EUA, suspendeu a política.

Debates estéreis sobre a moeda chinesa tiram a atenção das reformas mais importantes, porém politicamente mais difíceis, que os EUA precisam realizar, como o aumento do consumo e das tarifas de energia.

Quanto à China, uma moeda mais flexível e valorizada é claramente de seu interesse, uma vez que daria ao país maior controle sobre sua política monetária e reduziria o preço dos produtos importados para seus consumidores.

A taxa de câmbio nominal da China é muito menos importante do que os ajustes de política interna necessários em ambos os países.

(Pieter Bottelier é professor adjunto da Universidade Johns Hopkins e acadêmico visitante no Carnegie Endowment, onde Uri Dadush é associado sênior.)

Tradutor: Eloise De Vylder

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