Histórias de opositores exilados do Irã

Roger Cohen

Em Nova York

  • AP

    Manifestantes oposicionistas protestam contra a reeleição fraudulenta do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em Teerã, capital do país

    Manifestantes oposicionistas protestam contra a reeleição fraudulenta do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em Teerã, capital do país

Primeiro Negar Azizmoradi me contatou, e depois li sobre Mohammed Reza Heydari: dois iranianos, dois exílios, uma verdade de um povo defraudado e negado.

Vou começar por Heydari. Ele é o corajoso diplomata iraniano na Noruega que desertou, depois que lhe pediram para mudar a contagem de votos que ele havia certificado: 650 votos computados na embaixada de Oslo, dos quais 540 (ou 83%) eram para o líder da oposição Mir Hossein Mousavi, um resultado consistente com o que vira em outras embaixadas.

“A vontade do povo era clara”, contou Heydari a Margaret Coker, do “Wall Street Journal”. Eu acredito que era. Mude este número aqui, mude aquele número ali – e logo você conseguirá tirar do nada os fantásticos 62,63% do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Três dias depois que o resultado da eleição de 12 de junho no Irã foi anunciado, encontrei Negar por alguns minutos. Por acaso ela estava ao meu lado na avenida entre a Praça Enghelab (Revolução) e a Praça Azadi (Liberdade), no centro de Teerã. Andamos lado a lado em uma multidão que mais tarde foi estimada em 2 milhões de pessoas, um Irã que se levantara para protestar contra o roubo das urnas.

Poucas vezes a dignidade e a indignação se uniram com tanta determinação como naquela segunda-feira, 15 de junho. “Onde estão os 63%?”, perguntava uma faixa. Olhei para Negar. “Houve uma grande fraude”, ela disse. “Esperávamos que depois de 30 anos talvez pudéssemos ter um pouco de escolha”.

Negar sorriu e se foi – para sempre, pensei.

Nove meses se passaram desde então, tempo o suficiente para dar à luz o maior movimento de protesto popular do Oriente Médio, tempo suficiente para matanças e prisões em massa, tempo suficiente para a esperança surgir e recuar, e tempo suficiente para que muitos daqueles que não estavam lá em junho passado opinassem que a multidão de manifestantes era menor, ou que o triunfo de Ahmadinejad era genuíno.

Às vezes você precisa cheirar a verdade, respirá-la. Heydari a viveu. Havia algo de podre no Estado do Irã. Ainda há. Um erro histórico foi cometido. Ele corrói o cerne da República Islâmica. A multidão se dispersou, mas não mudou.

Essa dispersão foi difícil. Gostaria de falar sobre a odisséia de nove meses de Negar. Também houve tempo suficiente para uma reviravolta nas vidas.

Todo o falatório sobre o Irã se torna muito abstrato, todas aquelas palavras moldadas em torno de tanta opacidade, teorias que se multiplicam na proporção inversa aos fatos. Bombardear o Irã pode começar a soar como uma decisão de tanta importância quanto descer até Chinatown para almoçar. Junte as palavras “nuclear” e “Irã” com uma certa frequência, e a ideia de que o lugar está armado atomicamente (não está) se propaga sozinha.

Mas depois do Iraque devemos ter muito cuidado, tentar nos ater ao que sabemos, e não ao que imaginamos, ou ao que é incutido. Eis algo que eu sei. O Irã está cheio de pessoas como Negar. Ela tem 32 anos, e é editora de filmes. Ela odeia o regime. Ela não quer que seu país seja atacado, uma volta para as sirenes da guerra Irã-Iraque de sua infância (na qual Israel apoiava o Irã).

Negar entrou em contato comigo outro dia, de uma cidade no centro da Turquia. Ela vive ali no limbo, enquanto seu pedido para o status de refugiada é analisado por uma agência da ONU. Sua história me levou de volta à estrada da Revolução para a Liberdade.

É somente uma história iraniana comum – de desperdício.

Em 17 de julho de 2009, ela estava em meio a uma manifestação quando agentes de segurança a agarraram, enfiaram sua cabeça em um canal de água, quebraram sua mão. Levaram sua câmera e sua bolsa. “Eu sabia que eles viriam atrás de mim”.

Ela conseguiu renovar seu passaporte, foi para Istambul, e resolveu procurar asilo na Grã-Bretanha. Seus pais pediram dinheiro emprestado e ela pagou $ 10 mil por um passaporte italiano falso. O “coiote” disse que ela deveria viajar para Nairóbi, e de lá para Londres. Assim, ela pareceria uma turista.

Então Negar foi para a África, passou quatro dias vagando por Nairóbi – e foi presa no aeroporto. A deportação para o Irã se assomava. “Não”, disse Negar, uma ateia convicta, “eles podem me matar”. Ela foi colocada em um avião de volta para Istambul via Dubai.

Em Dubai, as autoridades queriam deportá-la para o Irã. Ela novamente perseverou e seguiu para a Turquia, onde foi detida por cinco semanas. Sob as condições de sua liberação ela teve de se mudar para o centro da Turquia, para aguardar o resultado de seu pedido de refugiada.

Ela foi pega pelo turbilhão da História.

O coração de Negar está no Irã. “Foi um momento incrível, as mudanças aconteceram”, ela me contou. “As pessoas estão motivadas, a estupidez não pode continuar. Antes estávamos escondidos, agora nos encontramos. Aquele dia que te vi foi incrível, tanta serenidade. Percebi: os iranianos se importam com o seu destino”.

Agora Negar quer vir aos Estados Unidos, aguardando o novo Irã que ela considera inevitável. Perguntei por quê. “Porque lá posso ser como eu sou”.

Negar não quer que seu país seja bombardeado. “Seria um erro enorme. Todos os iranianos se uniriam em fúria”.

Seu próprio governo abafou a voz de Negar. Mas o mundo precisa escutar. É seu país, afinal – e o do contador de votos Heydari.

Tradutor: Lana Lim

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