Ataques de Mumbai ainda causam comoção na Índia e acirram a relação com os EUA

Akash Kapur

Em Mumbai (Índia)

  • Sajjad Hussain/AFP

    Ataque terrorista na Índia: fumaça e chamas no hotel Taj Mahal, em Mumbai (Índia). O hotel de luxo foi um dos pontos invadidos por extremistas islâmicos durante ação coordenada na cidade

    Ataque terrorista na Índia: fumaça e chamas no hotel Taj Mahal, em Mumbai (Índia). O hotel de luxo foi um dos pontos invadidos por extremistas islâmicos durante ação coordenada na cidade

Quase um ano e meio após esta cidade ter sido atacada por um grupo de militantes empunhando armas, Mumbai se tornou em muitos aspectos um lugar diferente. A vida prossegue, é claro; uma fortaleza muito exaltada está em plena exibição. Mas fora dos hotéis, onde os hóspedes passam por um aparato de segurança semelhante ao dos aeroportos; nos restaurantes e lojas, onde as sacolas e bolsas são revistadas; e na orla marítima da cidade, onde policiais com rifles semiautomáticos patrulham a costa, persiste a lembrança dos ataques, que são chamados pelos indianos de o 26 de Novembro. 

Pergunte aos mumbaicares a respeito daqueles dias fatídicos de novembro de 2008 e eles darão de ombros. Então eles contarão onde estavam quando souberam da notícia. 

As feridas podem ter fechado, mas as cicatrizes permanecem sensíveis. A recuperação da cidade é real, mas é frágil. 

Eu vi a sensibilidade aqui na semana passada, quando foi noticiado que David Coleman Headley, um dos principais planejadores dos ataques, acertou um acordo com as autoridades americanas. Em seu acordo, Headley, 49 anos, confessa ter frequentado campos terroristas no Paquistão, realizado vigilância por vídeo em Mumbai e ter circulado de barco ao redor do porto da cidade com um dispositivo GPS, anotando as coordenadas dos alvos potenciais. 

Como parte do acordo, Headley será poupado da pena de morte e de uma extradição à Índia. Ele também poderá cumprir uma pena menor do que a perpétua por cooperar com as autoridades. 

A imprensa indiana –especialmente a de Mumbai– respondeu à notícia com desalento. O “DNA”, um jornal, publicou um artigo de primeira página que considerava o acordo com Headley como sendo “um chute no estômago de Mumbai”. A emissora de TV “NDTV” exibiu esta manchete em seu site: “Headley faz acordo com EUA, Índia impotente”. 

Para muitos indianos, o acordo de Headley é o mais recente de vários desdobramentos humilhantes no caso –desdobramentos que questionam o compromisso dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo islâmico e, de modo mais geral, no relacionamento entre os dois países. Logo após a prisão de Headley, por exemplo, uma equipe de investigadores indianos que viajou aos Estados Unidos para interrogá-lo foi mandada embora. Os indianos compararam a recusa às nove horas de acesso direto concedidas ao FBI para interrogar Ajmal Kasab, o único perpetrador sobrevivente dos ataques a Mumbai. 

Quase seis meses depois, as autoridades indianas ainda não interrogaram Headley. A contínua recusa por parte de Washington em lhes conceder acesso levou a uma especulação febril neste país. Muitos indianos estão convencidos de que Headley é um agente da CIA, talvez desgarrado, e que a intransigência americana representa uma tentativa de protegê-lo e suas atividades anteriores de algum escrutínio. 

A CIA nega que Headley tenha trabalhado para a organização. Mas as declarações oficiais fracassam em acalmar a inquietação na Índia –uma sensação de que os Estados Unidos estão escondendo algo, que há mais por trás dessa história do que parece. 

Parte do aparente mistério deriva inegavelmente dos detalhes sobre a vida de Headley que têm vazado desde sua prisão –detalhes que parecem uma versão do século 21 de um thriller da Guerra Fria. Filho de mãe americana e pai paquistanês, Headley já teve problemas com a lei quando foi preso em Nova York em 1997, acusado de tráfico de drogas. O outro réu naquele caso foi sentenciado a 10 anos. Headley, naquela época ainda conhecido por seu nome de batismo, Daood Gilani, foi solto após cumprir dois anos e posteriormente se inscreveu como agente disfarçado da Drug Enforcement Administration (DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos). 

Ao longo da década seguinte, ele viajou com frequência ao Paquistão e à Índia, talvez em missões pela DEA, talvez para fins particulares. Agora está claro que ele estava usando suas viagens para estabelecer laços com os militantes. Seu acordo lista pelo menos cinco ocasiões em que ele frequentou campos patrocinados pelo Lashkar-e-Taiba, um grupo paquistanês supostamente responsável por várias atrocidades, incluindo os ataques a Mumbai. 

Muitas perguntas foram levantadas sobre as viagens de Headley –sobre sua aparente facilidade de deslocamento entre o Paquistão e os Estados Unidos, apesar de seu passado problemático, e sobre o fracasso do governo americano em informar a Índia sobre seu status como agente da DEA. 

Mas o que realmente levantou suspeita aqui é a alegação, feita por autoridades indianas e repetida pela imprensa, de que as agências de inteligência americanas, suspeitando da associação de Headley com os extremistas, o mantinham sob vigilância por pelo menos um mês antes dos ataques a Mumbai. 

A Índia em nenhum momento foi informada sobre a suspeita. De fato, Headley até mesmo viajou para a Índia após os ataques, no início de 2009, período durante o qual as autoridades indianas especulam que ele pode ter plantado as sementes para o atentado a bomba em Pune, que ocorreu no mês passado. 

Ironicamente, as suspeitas indianas também foram levantadas pela cooperação fornecida pelas autoridades americanas antes dos ataques a Mumbai, e em particular por seus alertas notavelmente específicos sobre potenciais ataques por mar contra hotéis de luxo. “A América se manteve calada sobre o 26/11?” dizia a manchete do “The Hindustan Times” no ano passado, em um artigo que especulava que os Estados Unidos poderiam ter “diluído” a informação recebida de um espião infiltrado (supostamente Headley) visando manter seu disfarce. 

Os céticos rejeitam essas teorias. Mas em Mumbai na semana passada, eu tive um senso distinto de que, reais ou imaginárias, as percepções da população sobre o caso começaram a minar a boa vontade em relação aos Estados Unidos que foi desenvolvida de forma tão assídua ao longo da última década. Há anos eu não participava de tantas conversas, ou lia tantos artigos, questionando os Estados Unidos e suas motivações. 

Além do desencanto, há uma sensação geral de que o governo Obama, desesperado em fechar um acordo com o Taleban, está cada vez mais se voltando para o Paquistão em busca de ajuda. 

De muitas formas, parece que a geopolítica complexa desta região completou um círculo. Por anos, foi o Paquistão que acusava Washington de ser um aliado volúvel. Agora há uma crescente apreensão de que é a vez da Índia ser vendida. 

Como Barkha Dutt, uma das principais jornalistas de TV da Índia, escreveu em um artigo de opinião: “Há uma crescente inquietação sobre se os Estados Unidos são um parceiro sério da Índia na luta contra o terrorismo. (...) A mudança na política para o Afeganistão-Paquistão por parte do governo Obama já parece ser a de que o governo não tem a Índia em mente. O mistério de Headley pode simplesmente levar o descontentamento que ferve ao ponto de ebulição”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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