Evitando o estopim nuclear iraniano

David Miliband
Ministro britânico das Relações Exteriores

O programa nuclear do Irã e a reação do mundo a ele levantam questões muito profundas sobre a força da lei internacional, o propósito da Organização das Nações Unidas e os direitos dos Estados que se sentem ameaçados por outros. De forma mais prosaica, as ambições nucleares do Irã são um estopim potencial para uma guerra no Oriente Médio.

Eu me preocupo que em países demais os riscos são vistos como teóricos, o prazo como sem pressa. Nós ainda não chegamos a um aperto, mas todos os membros do Conselho de Segurança da ONU precisam reconhecer o que está em jogo e quais serão as opções se tivermos a intenção de evitá-lo.

Ao lidar com o Irã, nós somos prisioneiros da história. Ao longo de décadas, erros foram cometidos pelo Ocidente, inclusive, mas não apenas, pelo Reino Unido, e erros cometidos pelo Irã, que criaram algo pior do que um clima de desconfiança –um impasse no qual ambos os lados falam sem serem ouvidos. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, diz que é anti-islâmico ter armas nucleares, mas as ações iranianas não apoiam essa alegação. O presidente Obama estende a mão à República Islâmica do Irã, e sua oferta é desdenhada como uma jogada de relações públicas ou parte de um plano elaborado –e certamente não visto pelo que é, uma oferta inovadora de mudar as relações entre os Estados Unidos e o Irã.

Nos últimos seis meses, o engajamento com o Irã se tornou bem mais complexo. Porque o próprio país está passando por um autoexame para descobrir o que defende – liderado por seu próprio povo nas ruas. Porque fazer com que os líderes do Irá abandonem sua duplicidade e opacidade em relação às suas ambições nucleares, e promover uma ampla reconciliação com o mundo, é algo difícil de ser coreografado quando eles estão internamente divididos. E porque há muitos Irãs.

Um Irã é visto nas pessoas com educação superior, empreendedoras, com uma cultura e civilização célebres. Esse Irã existe em diásporas ao redor do mundo, mas também está claramente presente entre aqueles no Irã que exigem o direito de opinar a respeito do futuro de seu país.

E há outro Irã cuja economia está um caos. Apesar de ser o segundo maior país do mundo em reservas de gás, ele importa gás. A corrupção é disseminada –a Transparência Internacional classifica o Irã na 168ª posição dentre 180 países. Segundo o FMI, ele possui a maior evasão de cérebros do mundo. Este Irã desestabiliza seus vizinhos ao apoiar o terrorismo; se isola da cooperação internacional no Afeganistão; desvaira a respeito da destruição de Israel e sugere que o apoio dos Estados Unidos ao devastado Haiti é uma trama para invadi-lo. Este Irã restringe o acesso de seus cidadãos educados à mídia internacional por temer o que podem aprender.

O regime confunde deliberadamente esses iranianos. Ele fala em vencer a batalha pela tecnologia quando lança minhocas ao espaço, 40 anos após o homem ter ido para a Lua. Ele alega ser um defensor dos direitos humanos, apesar dos iranianos que exercem suas liberdades básicas serem presos, espancados, mortos nas ruas e executados após julgamentos para exibição.

A solução da questão nuclear e um processo ativo para obter essa solução importam porque as duas alternativas –Irã com bomba ou Irã bombardeado para ser impedido de ter uma– são, como disse o presidente da França, Nicolas Sarkozy, horríveis.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) diz ser incapaz de verificar se o programa nuclear do Irã é exclusivamente para fins pacíficos. O Irã não oferece explicação crível para produção do material físsil com clara aplicação militar, ao mesmo tempo em que se recusa a responder às perguntas da AIEA sobre os contatos no passado com o mercado negro nuclear.

Enquanto isso, após meses de estagnação, o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse que o Irã estava pronto para um acordo com a AIEA para fornecimento de combustível ao Reator de Pesquisa de Teerã. Devido às políticas em Teerã, outros líderes imediatamente se opuseram. E poucos dias depois Ahmadinejad anunciou que o Irã enriqueceria o urânio em até 20% –um passo significativo para se aproximar o material para armas e sem nenhum uso final civil, porque o Irã, apesar de suas alegações grandiosas, não pode transformar este urânio em combustível utilizável para o Reator de Pesquisa de Teerã ou para as usinas nucleares que ainda não foram construídas.

A questão nuclear afeta o futuro do regime de não-proliferação nuclear e o futuro do Oriente Médio. Os países do Golfo vão querer se tornar nucleares caso o Irã se torne. Israel já deixou claro que considera um Irã nuclear como sendo uma ameaça à sua existência e atuaria se necessário em sua autodefesa. As consequências de ambos os casos seriam devastadoras.

Para evitar isso nós precisamos agir de um modo que demonstre unidade e determinação. Este é um motivo para eu ter ido à China na semana passada. O Conselho de Segurança precisa levar a sério suas responsabilidades, e não apenas países como o Reino Unido e a China, mas também membros não-permanentes como Brasil e Turquia. A UE declarou que agirá e os países de região precisam se unir a nós para aumentar a pressão. A comunidade internacional está unida em sua oposição a um Irã dotado de armas nucleares. Também há uma unidade na oferta clara apresentada ao Irã, de que se expor às claras seu programa nuclear ele receberá o apoio para um programa de energia nuclear civil; e de que se não o fizer, enfrentará crescente pressão. Agora é hora de unidade em relação à necessidade de uma pressão para complementar o engajamento.

Os céticos dizem que sanções podem ser duras demais; que o Irã nunca aceitaria a humilhação; e que o Irã ainda está longe de uma capacidade nuclear. Tudo isso é verdade – mas não o sentido. As sanções podem ser duras, mas também podem ser direcionadas, contra o sistema financeiro, contra a Guarda Revolucionária do Irã, e contra a tecnologia nuclear. A oferta na mesa, proposta em junho de 2008 e ainda aguardando resposta, permite ao Irã reivindicar os direitos desfrutados por outros Estados. Mas com esses direitos vêm responsabilidades, e a recusa do Irã em esclarecer suas atividades significa que há uma falta de confiança fundamental em suas afirmações de que o programa é para fins pacíficos.

As sanções não são uma bala de prata. Mas esse não é o teste. A questão é se sanções direcionadas, proporcionais e reversíveis aumentariam a pressão dentro dessa sociedade complexa e fervilhante por uma postura mais sensível em relação à questão nuclear. Eu acredito que sim e que elas são necessárias urgentemente, e que elas podem impedir um dos estopins mais perigos na política mundial atualmente.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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