Junta de Mianmar se prepara para atacar milícias étnicas

Thilo Thielke

  • 23.09.2007 - AFP

    Monges budistas e freiras rezam em protesto contra a junta militar de Mianmar

    Monges budistas e freiras rezam em protesto contra a junta militar de Mianmar

Depois de anos de relativa paz, a junta militar de Miamnar está tentando acabar com o poder dos exércitos guerrilheiros na região infestada pelas drogas do Triângulo Dourado. Os exércitos étnicos podem acabar representando uma ameaça bem maior ao regime do que o movimento democrático e sua líder Aung San Suu Kyi.

O vilarejo de Doi Taileng, na fronteira de Mianmar com a Tailândia, foi transformado num campo militar. Durante horas, colunas de guerrilheiros uniformizados marcharam pelo território do povo rebelde Shan, que se sente oprimido pelo grupo étnico majoritário de Mianmar, os birmaneses. Há outros milhares de soldados rebeldes em Doi Taileng, e eles acabaram de concluir seu treinamento militar. A poeira sobe sob as botas dos recrutas. O festival nacional Shan é apenas uma demonstração de poder.

Os guerrilheiros da milícia apontam suas armas repetidamente para o céu e atiram no ar limpo da montanha, acompanhados pelo som ensurdecedor de tambores e fanfarras. No final da parada, um monge budista abençoa os rebeldes do “Exército do Estado Shan – Sul” com água benta.

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Durante anos, o Exército do Estado Shan (SSA) tem lutado uma guerra desesperada e cara contra o exército birmanês. O SSA tem cerca de 10 mil guerrilheiros que lutam contra o exército bem maior da junta, com 400 mil soldados. “Estamos nos preparando para novas batalhas”, diz são Yawd Serk, 51, líder do Exército do Estado Shan e do braço político do movimento.

Até agora, a única coisa que impediu que esses homens fossem varridos dali foi a distância dessa remota região montanhosa localizada na fronteira do país. Outros grupos rebeldes também se mantiveram fieis à luta contra o grupo de generais na nova capital de Mianmar, Naypyidaw, incluindo o Exército de Libertação Nacional Karen e um punhado de milícias que lutam por outros grupos étnicos.

Paz frágil
A maior parte das demais minorias étnicas do país e seus guerrilheiros assinaram uma trégua com o governo em 1989, em troca de uma extensa autonomia em suas regiões. Eles também puderam ficar com suas armas e continuar seus negócios, que incluem o plantio de papoulas para produção de ópio, a produção de metanfetaminas como a Crystal Meth e a operação de cassinos na região da fronteira com a China.

Os comandantes têm negócios lucrativos no Triângulo Dourado, mas a frágil paz da região custou caro. Durante os últimos três anos, a quantidade de terras dedicadas ao plantio de papoulas cresceu quase 50%, para 31.700 hectares. As pílulas produzidas em Burma agora estão inundando o restante do sul da Ásia.

O dinheiro das drogas é usado para financiar poderosos exércitos. Estima-se que milícia que representa o grupo étnico Wa, o Exército Unido do Estado Wa (UWSA), formada em 1989 depois do colapso do Partido Comunista de Burma apoiado pela China, tenha cerca de 25 mil guerrilheiros prontos para o combate.

Mas agora essa paz frágil da região está em risco. A junta planeja realizar uma eleição este ano e a usá-la para fortalecer seu poder. Observadores estrangeiros e críticos em Burma dizem que a eleição será uma farsa. Por exemplo, as leis eleitorais do país, que a junta elaborou a seu favor, proíbem expressamente Aung San Suu Kyi de participar das eleições. A vencedora do prêmio Nobel de 64 anos está sob prisão domiciliar há anos.

Os exércitos das minorias étnicas que operam nas regiões fronteiriças de Mianmar podem ser uma ameaça muito maior ao governo do que Suu Kyi, que é o ícone da liberdade do país. O governo deu um ultimato às milícias: ou os guerrilheiros se integram voluntariamente às tropas oficiais de fronteira, submetendo-se parcialmente ao comando do exército de Mianmar, ou o exército irá desarmar as milícias à força.

Adversários desiguais
Até agora poucos grupos de combate indicaram estar dispostos a se submeter às demandas da junta. Para a maioria, a integração às tropas de fronteira seriam uma capitulação. Como resultado, dois conjuntos desiguais de adversários estão frente a frente nas regiões de florestas impenetráveis ao nordeste do país, observando-se cautelosamente. A junta está aparentemente falando sério sobre seus planos de acabar com os grupos armados de guerrilheiros étnicos.

Sob o pretexto de fechar as fábricas ilegais de armas da região habitada pelo povo Kokang, próxima da fronteira chinesa, o exército atacou suas milícias em agosto de 2009 e fez com que cerca de 37 mil Kokang fossem para a vizinha China. Desde então, um estado quase de guerra prevaleceu nessa parte de Mianmar, e que agora ameaça se expandir e tornar-se uma guerra entre adversários desiguais, uma guerra que poderia durar quatro anos e que ninguém é capaz de vencer.

O líder da SSA, Yawd Serk, está abertamente preparando suas tropas para novas batalhas. De seu posto de comando nas montanhas, ele tem uma boa visão da região em volta. As montanhas ao longo da fronteira com a Tailândia formam uma fortaleza natural quase impenetrável. Não longe dali, trincheiras permeiam as colinas verdes, enquanto o exército Wa se esconde atrás dos morros.

“Talvez logo estaremos lutando contra o governo”, disse Yawd Serk esperançoso. “Sabemos que os líderes militares Wa estão ansiosos por uma batalha.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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