Turquia critica França e Alemanha por venda de armas para a Grécia

Stephen Castle

Em Bruxelas (Bélgica)

  • Adem Altan/AFP

Assim que a chanceler alemã chegou em Ancara na segunda-feira (29/3) para negociações bilaterais já problemáticas por diferenças em questões de educação e do ingresso na União Europeia, uma nova cisão pareceu emergir sobre políticas em relação à Grécia, rival regional da Turquia.

Egemen Bagis, principal negociador turco na União Europeia, criticou a Alemanha e a França por buscarem vender equipamentos militares à Grécia enquanto pressionam o governo em Atenas a adotar drásticos cortes de gastos públicos como resultado de sua séria crise financeira. A crítica a Berlim e Paris foi feita em uma entrevista na semana passada em Bruxelas. 

A visita de Bagis ocorreu em um momento em que os problemas da dívida grega dominaram a agenda da União Europeia, fazendo o euro mergulhar na pior crise de sua história. Na sexta-feira, a chanceler Ângela Merkel teve um papel central em uma reunião de cúpula da UE que aprovou uma rede de segurança financeira para Atenas, mas apenas relutantemente e após insistir em um duro pacote de austeridades para a Grécia. 

Bagis também disse que para ajudar a Grécia a escapar de seu “desastre econômico” e para reduzir as tensões regionais, Ancara adotaria políticas recíprocas caso os gregos congelassem ou cortassem seus gastos com defesa. 

“Uma das razões pela crise econômica na Grécia é sua tentativa de competir com a Turquia em termos de gastos com defesa”, disse Bagis. 

“Até mesmo os países que estão tentando ajudar a Grécia neste momento de dificuldade estão oferecendo vender-lhe novos equipamentos militares”, acrescentou. “A Grécia não precisa de novos tanques, mísseis, submarinos ou caças, nem a Turquia. É hora de cortar os gastos militares em todo o mundo, especialmente entre a Turquia e a Grécia. Nem a Grécia nem a Turquia precisam de submarinos alemães ou franceses.” 

O Ministério de Relações Exteriores grego não quis comentar as declarações de Bagis. 

Sob pressão da UE, a Grécia aprovou recentemente um pacote de cortes para reduzir o déficit orçamentário de 12,7% do produto interno bruto em quatro pontos percentuais neste ano. As mais recentes medidas de austeridade incluem um aumento no imposto sobre vendas em produtos de valor agregado, um aumento de imposto para combustível, álcool, cigarro e um corte nos aditivos salariais de servidores públicos. 

De acordo com a Otan, em 2008, a Grécia usou 2,8% do PIB em gastos militares, ou cerca de 6,9 bilhões de euros (R$ 18 bilhões); a Turquia usou 1,8%, o equivalente a 11,5 bilhões de euros. 

Conversas entre os líderes da Turquia e da Grécia devem acontecer em breve. 

“É bom ter uma retórica positiva, mas ela precisa ser seguida de ação positiva”, disse uma autoridade grega, falando na condição de anonimato por causa da delicadeza da questão. 

Bagis não identificou projetos militares específicos, apesar de a Marinha grega ter uma encomenda antiga de quatro submarinos alemães. 

Merkel reuniu-se com o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan e deu uma fria recepção a sua sugestão de que escolas de língua turca devem ser abertas na Alemanha. 

“É claro que a Turquia também pode ter escolas na Alemanha”, disse ela, mas acrescentou que não devem “ser uma desculpa para os turcos que moram na Alemanha não aprenderem a língua alemã”, segundo a Associated Press. 

Ela também disse, segundo a Associated Press, que as negociações sobre a entrada da Turquia na UE não têm prazo para terminar, mas não repetiu sua antiga sugestão e da França de oferecer a Ancara uma “parceria privilegiada”, algo menos que uma associação plena à UE. 

Ancara ficou contente por Merkel ter mudado de discurso, e Bagis disse que o fato desse “insulto” não estar “mais sendo usado por esses países é um bom sinal”. 

Ainda assim, o pedido da Turquia de ingresso na UE perdeu força. Em apenas uma área, de pesquisa e desenvolvimento, as negociações terminaram provisoriamente. Negociações em 11 dos 35 temas, ou “capítulos”, no jargão da UE, foram abertas, mas oito permanecem bloqueadas pelo fracasso da Turquia de adotar o Protocolo de Ancara, que foi assinado em 2005 e afirma que os portos turcos devem ser abertos aos produtos da União Europeia, inclusive cipriotas gregos. 

Bagis disse que queria começar as negociações em quatro outras áreas neste ano e expressou otimismo com o progresso nas negociações sobre a reunificação de Chipre, acrescentando que os líderes cipriotas gregos e turcos tinham se reunido “quase 70 vezes” nos últimos dois anos. 

“Talvez não seja uma solução completa, que englobe todas as questões da ilha, mas eles devem ter alcançado algo”, disse ele. “Os rumores que ouvimos são que conseguiram muita coisa.” 

Bagis, contudo, rejeitou a ideia de um gesto unilateral turco para abrir seus portos sem uma medida para pôr fim ao embargo econômico do Chipre do Norte que ocorreu após a divisão da ilha em 1974. 

Isso seria impossível, disse ele, “porque a Turquia não é um sultanato ou um emirado –a Turquia é uma democracia onde temos uma oposição e a opinião pública tem importância.” 

Bagis também negou a ideia que o processo de acessão da Turquia na UE pode entrar em crise neste ano por causa do Protocolo de Ancara. As negociações, disse ele, são “tão importantes que nem a Turquia nem a UE podem ser dar ao luxo de um desastre”. 

Uma recente controvérsia sobre a possibilidade de um golpe militar tornou a Turquia mais aberta e transparente, e esse processo será aprofundado por novas emendas constitucionais, argumentou Bagis. 

Enquanto isso, a posição da Turquia como 16ª maior economia do mundo e 6ª maior economia da Europa torna seu país centralmente importante na União Europeia. 

“Especialmente após esta importante crise econômica, que influenciou toda a Europa, a força econômica da Turquia tornou-a um país candidato muito atraente”, acrescentou Bagis.

Tradutor: Deborah Weinberg

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