Por que o governo da Coreia do Sul nega o ataque marítimo dos norte-coreanos?

Andrei Lankov*

Em Seul

  • Jo Yong-Hak/Reuters

    Forças de resgate participam das buscas ao navio desaparecido perto da fronteira entre as duas Coreias. A Marinha da Coreia do Sul investiga possível ação do Coreia do Norte contra o navio

    Forças de resgate participam das buscas ao navio desaparecido perto da fronteira entre as duas Coreias. A Marinha da Coreia do Sul investiga possível ação do Coreia do Norte contra o navio

Na noite do dia 26 de março, Cheonan, uma corveta de 1.200 toneladas da Coreia do Sul, estava patrulhando as águas costeiras próximas à região disputada da fronteira com a Coreia do Norte quando sua popa foi subitamente estilhaçada por uma poderosa explosão. 

O navio de guerra afundou em minutos, junto com a vida de 46 marinheiros. O governo sul-coreano inicialmente assumiu que o navio fora atacado por um submarino da Coreia do Norte e colocou suas forças armadas em estado de alerta máximo. 

Contudo, na manhã seguinte, o governo sul-coreano esforçou-se para negar, ou ao menos minimizar, a possibilidade de um ataque norte-coreano. O presidente Lee Myung-bak e seus ministros fizeram advertências contra “conclusões prematuras” e enfatizaram que não havia evidências definitivas ligando o desastre da Cheonan à Coreia do Norte. 

Talvez estivessem certos: apesar dos ocasionais surtos de retórica belicosa, a Coreia do Norte atualmente está em seu modo de negociação (ou seja, procurando extrair mais dinheiro do mundo exterior). Contudo, as evidências apontam para uma explosão externa equivalente a 180 kg de TNT, então as explicações mais plausíveis são uma mina ou um torpedo. 

Então, por que o governo em Seul está negando tal opção? Há boas razões para isso. Se o envolvimento norte-coreano fosse comprovado, o governo em Seul enfrentaria uma dura escolha: teria que retaliar ou seria considerado fraco. Esta é uma situação que só traria perdas para a Coreia do Sul, pois não tem uma forma de “punir” o Norte. 

Uma guerra declarada está fora de questão. O equilíbrio militar quase não deixa dúvidas que uma eventual guerra seria vencida pelo Sul (com algum envolvimento dos EUA), mas o preço da vitória seria inaceitavelmente alto. 

A região metropolitana de Seul, que abriga metade de população do país, está ao alcance de alta capacidade da artilharia norte-coreana. Um forte ataque de artilharia deixaria milhares mortos e devastaria partes vitais do país. Avançar para o Norte, pelo terreno montanhoso difícil e altamente fortificado, também seria muito caro –sem mencionar os custos da reconstrução após a guerra. 

Então, é provável que apenas um amplo ataque da Coreia do Norte contra populacionais do Sul seriam considerados por Seul como causa suficiente para uma operação militar de larga escala. 

Ações limitadas, como ataques contra as instalações militares da Coreia do Norte, tornariam o governo de Seul forte aos olhos dos eleitores, mas criariam muitos problemas para os quais os mesmos eleitores logo começariam a culpar o governo. 

Além disso, esse tipo de ataque seria inútil. Kim Jon Il e seus capangas não perderiam o sono se soubessem que algumas dúzias de marinheiros ou soldados norte-coreanos foram mortos em um ataque do Sul. Até mesmo a morte de milhares de pessoas é politicamente irrelevante, desde que não façam parte do círculo íntimo de Kim. Ao mesmo tempo, tais ataques afastariam os investidores estrangeiros da Coreia do Sul e fariam danos a sua classificação financeira pelas agências de notas de crédito. 

Sanções financeiras, tais como fechar o parque industrial de Kaesong, um desenvolvimento econômico conjunto com o Norte, ou congelar os poucos projetos de intercâmbio que ainda restam podem parecer atraentes à primeira vista, mas no longo prazo podem ser contraproducentes. Ao contrário do que supõem alguns, o parque Kaesong e outros projetos de intercâmbio são danosos para Kim Jong Il, pois representam um contato potencialmente perigoso com o mundo exterior. 

Sem meios de retaliação, o governo de Lee Myung-bak talvez tenha decidido minimizar a probabilidade do envolvimento da Coreia do Norte ou ao menos retratá-la apenas como uma das possíveis explicações. 

Com ou sem o envolvimento da Coreia do Norte, o incidente de Cheonan serve para lembrar que, se o país voltar ser agressivo, não há muito que possa ser feito para combatê-lo. Operações parciais podem ser impactantes, mas não são eficientes, e uma retaliação em grande escala provavelmente seria discretamente bloqueada pelos sul-coreanos. É compreensível –são eles que moram na fronteira. 

*(Andrei Lankov é professor de história da Universidade Kookmin em Seul).

Tradutor: Deborah Weinberg

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