Pesquisadores estudam como reconhecer emoções sem a expressão facial

Benedict Carey

  • Michele McDonald/The New York Times

    Kathleen Bogart, psicologia na Universidade que tem a síndrome de Moebius, uma rara condição congênita que causa paralisia facial

    Kathleen Bogart, psicologia na Universidade que tem a síndrome de Moebius, uma rara condição congênita que causa paralisia facial

A mulher estava sozinha e com medo, uma alma frágil numa cadeira de rodas que havia conseguido enfiar algumas posses dentro de um saco de lixo antes de evacuar a área.

Como muitos dos refugiados do furacão Katrina que foram para Baton Rouge, Louisiana, no verão de 2005, ela precisava de muito mais do que alimento e abrigo. Ela precisava de companhia, empatia – alguém, qualquer pessoa, que visse e sentisse a sua perda – e ela procurou isso em vão no rosto da assistente social designada para o seu caso. Mas a assistente social, recém-formada, parecia um pouco distante emocionalmente. Alguma coisa estava faltando.

“Eu podia ver que nossa ligação emocional estava fracassando, eu vi isso acontecer e não podia fazer nada”, diz Kathleen Bogart, 28, a assistente social que hoje é pesquisadora de psicologia na Universidade Tufts. Bogart tem a síndrome de Moebius, uma rara condição congênita que causa paralisia facial, batizada com o nome de um neurologista do século 19.

Quando as pessoas que ela ajudava mostravam uma expressão triste, ela era incapaz de corresponder. “Tentava fazer isso com as palavras e o tom de voz, mas não adiantava. Sem expressão facial, a emoção simplesmente morre ali, sem ser compartilhada. Ela simplesmente morre.”

Faz tempo que os pesquisadores sabem que as expressões faciais são cruciais para a interação social e as caracterizaram com muito detalhe. Eles sabem quais expressões são universais; são capazes de distinguir pequenas diferenças de expressão, como por exemplo entre um sorriso amarelo e um genuíno.

Mesmo assim, ainda persiste uma questão central: como o cérebro interpreta as emoções dos outros com tanta rapidez e precisão? É provável que a resposta seja imensamente importante, dizem os especialistas, para entender como as interações podem ir bem ou sair dos trilhos.

Os estudos até agora apontam para o que os psicólogos chamam de mímica facial. Durante uma interação social, as pessoas inconscientemente imitam a surpresa, o desgosto ou a satisfação das outras – e interpretam a emoção sentindo o que seu próprio rosto está expressando. Franzir o cenho é tão comunicativo quanto um sorriso, e carregam sua própria carga emocional.

Mas e se alguém é incapaz de imitar qualquer expressão?

Num novo estudo, o maior feito até hoje sobre a síndrome de Moebius, Bogart e David Matsumoto, um psicólogo em San Francisco State, descobriram que as pessoas com o distúrbio, independentemente de suas dificuldades sociais, não tinham problemas para reconhecer as expressões dos outros. Elas têm um desempenho tão bom quanto qualquer outra pessoa ao identificar emoções em fotografias de rostos, embora não tenham como imitá-las.

As descobertas sugerem fortemente que o cérebro tem outros sistemas para reconhecer as expressões faciais, e que as pessoas com paralisia facial aprendem a tirar vantagem deles. “É provável que elas desenvolvam estratégias de compensação em resposta à deficiência de longa data”, escreveu Tanya Chartrand, uma psicóloga da Universidade de Duke que não está envolvida no estudo da síndrome de Moebius, numa mensagem de e-mail. “Estratégias que não dependem do processo de mímica e permitem que elas possam entender as emoções por outro caminho.”

Se essas estratégias puderem ser ensinadas, dizem os especialistas, elas poderiam ajudar outras pessoas com dificuldades socais, seja por ansiedade, problemas de desenvolvimento como o autismo, ou causas comuns como paralisia parcial, como a paralisia de Bell.

“Eu não tinha nenhum interesse especial em estudar a paralisia facial, embora eu mesma tivesse; eu poderia ter feito muitas outras coisas”, disse Bogard em sua sala na Tufts. “Mas na faculdade eu procurei saber o que os psicólogos tinham a dizer sobre isso, e não havia quase nada. Muito, muito pouca coisa sobre paralisia. E aquilo me deixou – bom, eu fiquei com raiva disso.”

A emoção fechou seu punho, endireitou seu corpo e correu para os seus olhos, pulando o rosto. “Raiva. Pensei que afinal eu devia estudar isso, uma vez que ninguém estava estudando.”

A causa da síndrome de Moebius não é conhecida, ela afeta menos de uma entre 100 mil crianças no nascimento, resultando em paralisia total ou quase total da face. Na maioria dos casos, os olhos não piscam e a íris se move apenas para cima e para baixo, privando as pessoas de olhar para os lados, virar os olhos, fechá-los parcialmente, ou seja, de todo um vocabulário de olhares. As gozações tendem a começar logo na infância e se avolumar, e ninguém é capaz de ver a vergonha e o sofrimento nas vítimas. “É como ter uma deformidade e não ser capaz de comunicar, tudo de uma vez”, diz Bogart.

A maioria das pessoas com a condição se adapta. “Assim como os cegos, que desenvolvem mais os sentidos do tato, olfato e audição”, diz Matsumoto. “Acho que o mesmo acontece nesse caso, só que no domínio da comunicação não verbal.”

No primeiro dos dois estudos, Bogart e Matsumoto fizeram com que 36 pessoas com síndrome de Moebius olhassem 42 fotos de expressões selecionadas online, como raiva, alegria e tristeza. Os participantes identificaram corretamente as emoções em cerca de três quartos das vezes – a mesma frequência dos adultos que não tinham a síndrome. O nível de deficiência não influenciou sua pontuação.

Os resultados não implicam que a socialização seja fácil ou natural para os portadores de uma paralisia como esta; a maioria deles tem dificuldades. Bogart e Matsumoto descobriram num estudo subsequente que a principal razão para isto (além do rosto imóvel que distrai algumas pessoas) tem pouco a ver com a dificuldade em reconhecer as emoções nos outros, sugere o estudo.

É mais provável que tenha a ver com a mímica, ou a falta dela. Numa série de estudos, psicólogos descobriram que as ligações sociais entre pessoas conversando dependem muito de uma troca rítmica e geralmente inconsciente de gestos e expressões que criam uma espécie de boa vontade compartilhada. “Parte disso pode ser o acordo da própria interação”, diz Chartrand.

Se o ritmo não funciona – o estudo da síndrome de Moebius não levou em conta esse fator – então o acordo pode parecer incerto, e a interação falha.

A forma como muitas pessoas com paralisia total ou quase total superam esse problema é usando outros canais de comunicação que não o rosto: o olhar, os gestos, a postura e o tom de voz. Muitas pessoas com paralisia podem fazer com que esse instrumento expressivo se torne tão sutil e potente quanto um quarteto de cordas.

“Eu descobri a minha voz, figurativamente e literalmente, com a fonoaudiologia”, diz Matthew S. Joffe, diretor da seção de alunos na Faculdade Comunitária LaGuardia e terapeuta, que tem a síndrome de Moebius. Joffe descreveu sua paralisia como pronunciada, “com a boca que fica aberta, e o lábio inferior que se projeta para baixo.”

“Eu uso bastante o humor”, diz ele. “É uma forma de mostrar minha humanidade, por um lado, e ao longo dos anos as pessoas disseram que eu tenho uma ótima risada. Agora já vivi o suficiente para concordar. Eu rio com a barriga, tenho muitas risadas para diferentes ocasiões, cada uma delas parece diferente no meu corpo. Eu aprendi logo cedo, por causa dos padrões rígidos que a sociedade impõe, que se eu não risse das coisas, provavelmente entraria em colapso.”

Bogar também tem uma risada distinta. Sua mandíbula desce, seus lábios esticam e se levantam um pouco, e todo seu tronco chacoalha. A necessidade de usar outras vias de expressão torna as pessoas com paralisia especialmente sensíveis a esses sinais nas outras pessoas. “Numa festa, sinto que posso dizer com quem vale a pena conversar em poucos segundos”, diz ela. “Consigo perceber rapidamente o quanto as pessoas estão confortáveis, ou se elas conseguem superar o desconforto.”

Alguns psicólogos afirmam que as evidências sobre as pessoas com paralisia e sem sugerem que o cérebro acessa vários canais simultaneamente quando interpreta as emoções alheias. A mímica com certeza é um deles – mas ela precisa da ajuda de outros.

Num experimento publicado no ano passado, pesquisadores holandeses fizeram com que 46 estudantes da Universidade de Leiden formassem pares para uma interação de três minutos com um colega que estava mentindo ou falando a verdade sobre ter doado dinheiro para caridade. Os alunos que foram instruídos a não imitar as expressões de seus interlocutores conseguiram determinar melhor quem estava dizendo a verdade do que os alunos que foram instruídos a imitar ou que não receberam nenhuma instrução. “A mímica, quer seja espontânea ou produto de uma instrução, prejudica a capacidade dos observadores acessarem objetivamente” os verdadeiros sentimentos dos outros.

Os gestos e tons que as pessoas com paralisia costumam usar acrescentam mais informação. “E achamos que pode haver outros sistemas, em áreas pré-motoras do cérebro, que compilam toda essa informação” para que o córtex possa fazer um julgamento da emoção, diz Matsumoto. Em seu atual projeto de pesquisa, Bogart está gravando em vídeo dezenas de interações sociais com pessoas com todo tipo de paralisia, não apenas a de Moebius, mas também com paralisia de Bell, que normalmente enrijece metade do rosto, e com pessoas com nervos danificados.

“O plano é mostrar as entrevistas para que as pessoas digam qual é sua impressão, separar todos os elementos da face, voz e gestos, para ver o que é percebido pelas pessoas como positivo ou negativo”, diz ela. “A ideia é que se pudermos aprender quais são as melhores técnicas de comunicação não verbal, poderemos ensinar as pessoas que são socialmente diferentes por alguma razão.”

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos