Impasse político em Bancoc se intensifica

Seth Mydans e Thomas Fuller

Bancoc (Tailândia)

O impasse político intensificou-se neste domingo na Tailândia depois do pior episódio de violência civil em quase 20 anos, com manifestantes sustentando sua posição nas ruas de Bancoc e o governo ignorando os pedidos para renunciar e marcar novas eleições. 

Em batalhas ferozes que aconteceram na noite de sábado adentro, os militares não conseguiram retirar os manifestantes antigovernistas que estão acampados na cidade há quase um mês, deixando o governo com poucas opções para acabar com o confronto que desestabiliza cada vez mais o país. 

O número de mortos no domingo aumentou para 21, com cerca de 900 feridos, depois de uma noite de caos cheia de gás lacrimogêneo, tiros e explosões, em que ambos os lados, armados e agressivos, colocaram fim às semanas de não-violência escrupulosa. Tanto os militares e os manifestantes estavam ensaguentados e irados, e era impossível saber quais seriam os próximos movimentos depois de três anos de distúrbios que incluíram um golpe militar, meses de protestos e o fechamento dos aeroportos de Bancoc. 

“Não há mais negociação”, disse Jatuporn Prompan, líder dos manifestantes, rejeitando a abertura do governo. “Embora o caminho seja difícil e cheio de obstáculos, é nosso dever honrar os mortos e trazer a democracia para este país.” 

Num pronunciamento na televisão, o porta-voz chefe do governo, Panitan Wattanahyakorn, disse que os soldados estavam se retirando para os quartéis e que o governo faria uma investigação bipartidária da violência. “Estamos comprometidos em garantir que a justiça seja feita”, disse ele. 

As tensões políticas sacudiram a imagem pacífica e democrática da Tailândia e tiveram um impacto profundo sobre seu imenso setor turístico; 43 países lançaram alertas de viagem. A China foi o mais recente, cancelando 100 voos charter que levariam 15 mil turistas para o Festival da Água esta semana. 

Bancoc cancelou as festividades tradicionais em Khaosan Road, famoso destino de mochileiros que foi cenário das batalhas sangrentas da noite de sábado. No domingo, turistas perambulavam pelo local junto com os tailandeses, inspecionando buracos de bala, cartuchos, manchas de sangue e outros prejuízos.

Não longe dali, pessoas subiam em veículos blindados abandonados, usando ferramentas para abrir as correntes e retirar as armas pesadas até que fossem reduzidos a lixo. “Esta terra pertence ao povo”, leia a mensagem pintada no veículo. 

Os alertas de viagem foram feitos por vários países vizinhos da Tailândia no sudeste asiático, entre eles o Laos, minúsculo país de governo comunista do outro lado do rio Mekong. 

Falando numa conferência regional em Hanói, à qual o primeiro-ministro da Tailândia, Abhisit Vejjajiva, não conseguiu comparecer, o ministro das Relações Exteriores da Indonésia, Marty Natalegawa, disse que todas as nações da região estavam acompanhando de perto a violência no país. “Todos nós esperamos que a situação se estabilize na Tailândia”, disse ele. 

A Austrália alertou seus cidadãos para uma “forte possibilidade de mais violência”. 

Aproveitando o apoio do público, os manifestantes fizeram uma “cerimônia memorial” na noite de domingo, desfilando em torno do Movimento pela Democracia, um dos locais em que ocorreu o conflito, enquanto seguravam fotos dos mortos. 

“Um aplauso para os heróis da democracia!”, gritou o líder da procissão, Satyam Wipornmaha. 

O conflito foi o pior episódio de violência política em Bancoc desde que dezenas de pessoas foram assassinadas por soldados que tentavam impedir uma manifestação pela democracia em 1992. 

Parecendo preocupado em seu discurso na televisão, Abhisit disse que procurará restaurar a ordem, mas não respondeu às demandas dos manifestantes. 

“A situação dos dois ou três últimos dias não me deu escolha”, disse ele, referindo-se à sua decisão de usar a força. “Tenho que cumprir a lei. Se o governo não tivesse feito nada, teria mostrado sua fraqueza.” 

Controlados por regras rígidas de batalha, os soldados usaram principalmente gás lacrimogêneo e balas de borracha, disse Abhisit. Ele admitiu as alegações dos manifestantes de que também foi usada munição de verdade, mas, segundo ele, apenas para atirar para o alto em ou em casos de autodefesa. 

Vários relatos deram conta de que os manifestantes usaram dispositivos explosivos, e Abhisit disse que estes foram os responsáveis pela muitos dos ferimentos. 

O Centro Médico de Emergência Erawan, do governo, disse que 17 civis e quatro soldados foram mortos. O número de feridos aumentou para 874. 

Entre os mortos estavam um operador de câmera japonês, Hiro Muramoto, 43, que trabalhava para a agência de notícias Thomson Reuters e morreu com um ferimento a bala no peito. 

Panitan diz que quatro soldados foram mortos, incluindo um coronel, e que 200 ficaram feridos, incluindo 90 que estão em condições graves. 

Numa declaração feita no domingo, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA P.J. Crowley, disse que os Estados Unidos lamentam a violência e acreditam que as disputas devem ser resolvidas através de negociação.

A maioria das mortes aconteceu num conflito furioso à noite, o segundo do dia no principal local de protesto próximo do Monumento à Democracia, depois de uma tentativa que havia fracassado mais cedo.

Cercados no escuro por milhares de manifestantes de camisetas vermelhas, os soldados fugiram encolhidos atrás de seus escudos de plástico. As pessoas os perseguiram e bateram neles com paus enquanto o gás lacrimogêneo era lançado no céu escuro e soltava fumaça perto de seus pés. 

Ambulâncias resgatavam os feridos à medida que os manifestantes gritavam: “Há um novo herói!” Incapazes de tirar os manifestantes do Monumento à Democracia , os militares não fizeram nenhuma tentativa no local taticamente mais difícil e visível, um cruzamento perto de shoppings e hotéis cinco estrelas que se tornou o lar de milhares de manifestantes por uma semana. 

Às 21h, depois de cerca de duas horas de batalha, um porta-voz militar, o coronel Sansern Kaewkamnerd, disse que os soldados haviam recebido ordens para se retirar, enquanto o governo buscava uma negociação. 

Líderes dos manifestantes descartaram a abertura. Em seu palco improvisado, eles mostraram dois corpos, um deles com pedaços do crânio ao lado da cabeça. Eles também levaram para o palco vários soldados capturados que foram obrigados a ver os corpos. Os líderes disseram que haviam retirado os corpos do hospital para preservar as provas de suas mortes. Funcionários do hospital confirmaram que os corpos haviam sido removidos. 

Durante o último mês, Abhisit vinha tentando evitar o uso da força, e os camisas-vermelhas também haviam prometido a não-violência. Mas o primeiro-ministro sentiu-se humilhado na sexta-feira quando os soldados não conseguiram impedir uma invasão dos camisas-vermelhas a uma estação de TV da oposição que havia sido tirada do ar pelo decreto de emergência. 

Ele havia expedido o decreto na quarta-feira depois que os manifestantes atacaram o prédio do Parlamento. 

Assim como nos dois eventos anteriores, testemunhas disseram que dois encontros que aconteceram mais cedo no dia de violência foram iniciados pelos camisas-vermelhas. Os manifestantes também partiram para a ofensiva fora de Bancoc, em áreas rurais onde têm predominância política, forçando seu caminho para dentro de prédios do governo em Chiang Mai e Udon Thani. 

Durante todo o fim de semana, altos líderes militares permaneceram em silêncio, assim como estiveram durante todo o impasse. 

Os militares tailandeses, que já lideraram 18 golpes no passado, permaneceram neutros durante os confrontos atuais e em 2008, quando um decreto de emergência similar foi expedido contra os manifestantes “camisas-amarelas” do outro lado da divisão política. 

O confronto tem suas raízes na liderança de seis anos do ex-primeiro ministro Thaksin Shinawatra, que criou um bloco eleitoral entre a maioria pobre do país, mas foi deposto em um golpe em 2006 que teve amplo apoio da classe média. 

Acredita-se que ele venha financiando o movimento dos camisas-vermelhas e continue a enviar mensagens para seus seguidores desde Dubai, onde está morando depois de fugir de uma condenação por corrupção em seu país. 

A maioria dos manifestantes camisas-vermelhas são do interior do país, e confrontam o establishment da cidade grande que gira em torno da elite monarquista, dos líderes empresariais e, tradicionalmente, da alta hierarquia militar. 

Mas os camisas-vermelhas tem apoio na baixa hierarquia da polícia e das forças armadas. 

Num momento revelador, próximo ao local de protestos no centro da cidade, centenas de manifestantes camisas-vermelhas confrontaram uma linha bem maior de policiais de capacete no final da tarde. Ambos os lados se sentaram por algum tempo, olhando-se de frente. Então a polícia se levantou e foi embora, deixando a rua para os camisas-vermelhas. 

Enquanto saíam, muitos policiais apertaram as mãos dos manifestantes e até os abraçaram. Um deles acenou com uma matraca em forma de mão vermelha usada nos protestos. 

Jovens em camisetas vermelhas tomaram conta da rua Sukhumvit, uma das principais da cidade, desviando o trânsito e às vezes parando os carros e os inspecionando antes de os deixarem passar.

Tradutor: Eloise De Vylder

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