O triunfo do celular comum nos países emergentes

Anand Giridharadas

Cambridge, Massachusetts (EUA)

  • Reprodução do site www.kylebean.co.uk

    A obra "Mobile Evolution" (evolução móvel), do inglês Kyle Bean, representa a evolução dos telefones celulares ao estilo das bonecas russas que ficam umas dentro das outras

    A obra "Mobile Evolution" (evolução móvel), do inglês Kyle Bean, representa a evolução dos telefones celulares ao estilo das bonecas russas que ficam umas dentro das outras

E se, pensando globalmente, o iPad não for a próxima grande invenção? E se a próxima grande invenção for pequena, barata e não vier dos Estados Unidos?

Os norte-americanos ficaram enlouquecidos no último fim de semana com o laçamento do iPad. Mas embora centenas de milhares de pessoas nos EUA tenham desembrulhado seus novos iPads, um futuro completamente diferente pode estar se descortinando fora do país, no que diz respeito aos celulares.

Em meio ao tumulto norte-americano, a onda de inovação global do simples telefone celular ficou esquecida. Do Brasil à Índia, passando pela Coreia do Sul e até mesmo pelo Afeganistão, as pessoas estão procurando emprego através de mensagens de texto, emprestando dinheiro e recebendo salários pelos celulares; usando seus telefones como lanterna, televisão e rádio.

E muitos fazem isso por uma bagatela. Na Índia, a Reliance Communications vende telefones por menos de US$ 25 (R$ 44,32), cobra um centavo por mensagem de texto e por minuto de ligação nacional, sem nenhuma fatura mensal – e ainda assim tem um lucro gordo. Compare isso aos compradores do iPad nos EUA, que pagam US$ 499 (R$ 885) pelo modelo mais básico, e que talvez também tenham um computador de mais de US$ 1.000 (R$ 1.770) e um smartphone de mais de US$ 100 (R$ 177), e que podem pagar US$ 100 ou mais por mês para conectarem todos esses aparelhos ao éter.

Não é a primeira vez que os Estados Unidos e a maior parte do mundo estão caminhando em direções diferentes. Os inventores norte-americanos, que constroem aparelhos para uma rede de banda larga cada vez maior, investem em dispositivos cada vez mais sofisticados, caros, famintos por conexão e que são símbolos de status; enquanto isso, seus colegas dos países em desenvolvimento estão inovando ao encontrar mais usos para os telefones celulares básicos e baratos.

Os Estados Unidos não vivem o romance com o telefone que existe em outros lugares – até mesmo na rica Europa. Desde que voltei da Índia no ano passado, fiquei assombrado com a frequência com que as ligações caem aqui, e surpreso com o fato de que as mensagens de texto, tão essenciais para os indianos, ainda não se infiltraram nos EUA, onde tantas mensagens trafegam pela internet.

Uma relatório recente do Fórum Econômico Mundial e da escola francesa de negócios Insead, concluiu que os Estados Unidos estão atrás de 71 países em relação ao uso de celulares, muito embora lidere em outras áreas de conectividade. Alguns norte-americanos não têm nenhuma conexão. Mas milhões de outros estão além do telefone, por assim dizer: eles têm um telefone; utilizam-no; mas têm outros aparelhos também, e o telefone não é algo definitivo, que serve para tudo.

Mas é no Quênia, na Colômbia e na África do Sul, entre outros países, que os celulares estão se tornando a verdadeira tecnologia universal. Esses lugares construíram torres de telefonia celular para driblar os custos de implantar as redes cabeadas que conectaram os norte-americanos durante um século.

O número de inscrições em serviços de telefonia celular deve ultrapassar cinco bilhões este ano, de acordo com a União Internacional de Telecomunicação, uma associação do setor. Isso significaria que mais seres humanos hoje têm acesso a um telefone celular do que a um banheiro limpo segundo dados da ONU.

Por ser uma tecnologia que atinge tantas pessoas, por estar sempre com você, por ser barato, poder ser compartilhado e consertado facilmente, o telefone celular abriu uma nova fronteira na inovação mundial.

Duas organizações – a Babajog, em Bangalore na Índia, e a Souktel, nos territórios palestinos em Israel – oferecem serviços de busca de empregos através de mensagens de texto. A Souktel permite que usuários sem acesso à Internet ou a telefones sofisticados se registrem no serviço enviando uma série de mensagens de texto com informações sobre si mesmos. Quando o usuário envia a mensagem “me posicione”, recebe uma lista de vagas compatíveis, incluindo números de telefone para entrar em contato.

Na África, o celular está dando origem a um novo paradigma no que diz respeito ao dinheiro. Os cartões de plástico se tornaram os principais instrumentos de pagamento no Ocidente, mas projetos como o PesaPal e M-Pesa no Quênia estão trabalhando para transformar o celular no eixo das finanças pessoais. M-Pesa permite que os usuários transformem dinheiro vivo em créditos de celular nas lojas locais, e esse crédito pode ser instantaneamente transferido para qualquer um que tenha um telefone.

Esses esforços surgem por causa da falta de contas bancárias na África. Mas eles criam a possibilidade de um sistema financeiro peer-to-peer [pessoa-a-pessoa] no mundo em desenvolvimento, que pode ser útil até mesmo em países ricos – por exemplo, permitindo que pequenas empresas nas áreas rurais recebam dinheiro sem precisar de sistemas de cartão de crédito.

Liguei para a Wester Union, o serviço de transferência de dinheiro com sede no Colorado, para perguntar se poderia enviar dinheiro para um telefone celular. “Basicamente, não temos esse tipo de opção no momento”, disse o operador.

Uma companhia norte-americana, Obopay, oferece pagamentos de telefone para telefone. Sua fundadora, Carol Realini, teve a ideia quando atuou como voluntária na África.

O telefone celular também assumiu um papel central na vida comunitária em muitos lugares. Na África, as igrejas urbanas gravam os sermões com telefones celulares e depois os transmitem para serem reproduzidos nos vilarejos. No Irã e em Moldova, os celulares ajudaram a organizar revoltas populares contra governos autoritários. E na Índia, o celular é usado agora para permitir que os cidadãos monitorem as eleições e para fornecer aos eleitores, via mensagem de texto, informações sobre os rendimentos e fichas criminais dos candidatos.

Reconhecendo o papel dos celulares nos países em desenvolvimento, a Casa Branca fez um esforço especial no ano passado ao transmitir o discurso do presidente Barack Obama para o mundo muçulmano, no Cairo, em 13 línguas via mensagem de texto. O governo não fez nenhum gesto com a mesma publicidade nos Estados Unidos, muito embora nem todos tenham acesso à Internet. (O governo propõe remediar isso expandindo o acesso à banda larga.)

Tudo isso sugere que existe um hiato de inovação entre as sociedades mais ricas do mundo e as mais pobres – não só no desenho de aparelhos mas principalmente no seu uso. E fica a questão: será que os Estados Unidos, que ganharam tanto com a revolução da internet, serão capazes de lucrar da mesma forma com a entrada de mais bilhões de pessoas do mundo em desenvolvimento numa grande classe média mundial – consumidores que ainda não são ricos, têm um simples telefone celular e a sensibilidade de saber que menos é mais?

Certamente, novos aparelhos inovadores podem encontrar papéis importantes nos Estados Unidos – por exemplo, como plataformas pra distribuir notícias, livros e entretenimento, produtos que até agora tiveram dificuldades para se adaptar à era digital. Isto por si só poderia tornar sua invenção revolucionária.

Será que o desejo está substituindo a necessidade na invenção norte-americana? Será que a demanda doméstica por aparelhos ainda mais elegantes, rápidos e sofisticados a longo prazo tornará mais difícil para os norte-americanos gerarem inovação para o mercado externo mais vasto e menos opulento, ainda dominado por desejos mais frugais? Talvez.

Ken Banks, empresário britânico que trabalha na África e desenvolveu o FrontlineSMS, um serviço de mensagem para grupos de ajuda humanitária, acredita que “há uma tendência comum no Ocidente de abordar as coisas do jeito errado, então acabamos criando soluções ao procurar por um problema, ou construímos coisas simplesmente porque somos capazes.”

Bem, é verdade. Mas o próprio telefone celular começou dessa forma. Há um quarto de século, quando Michael Douglas usou um celular no filme “Wall Street”, aquilo ainda era um aparelho exorbitante usado pelos corretores de valores.

Agora é mais comum do que um banheiro.

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos