Opinião: o sofrimento e a glória da Polônia

Roger Cohen

Em Nova York (EUA)

Meu primeiro pensamento, ao ouvir sobre a tragédia polonesa, foi de que as voltas da história podem ser de uma crueldade insuportável, decapitando a elite da Polônia duas vezes no mesmo local amaldiçoado, Katyn. 

Meu segundo foi telefonar para meu velho amigo Adam Michnik em Varsóvia. Michnik, um intelectual que foi preso seis vezes pelos ex-governantes comunistas e fantoches soviéticos, certa vez me disse: 

“Qualquer um que tenha sofrido essa humilhação, em algum nível, deseja vingança. Eu conheço todas as mentiras. Eu vi pessoas sendo mortas. Mas eu também sei que o revanchismo não termina nunca. E minha obsessão tem sido a de que temos que ter uma revolução que não lembre a francesa e nem a russa, mas sim a americana, no sentido de que deve ser a favor de algo, não contra algo. Uma revolução por uma Constituição, não um paraíso. Uma revolução antiutópica. Porque utopias levam à guilhotina e ao gulag.” 

A obsessão de Michnik deu fruto. O presidente Lech Kaczynski está morto. Slawomir Skrzypek, o presidente do Banco Nacional, está morto. Uma explosão na neblina da floresta tirou suas vidas e as de 94 outras pessoas a caminho de Katyn. Mas a democracia da Polônia não foi abalada. O líder da câmara baixa do Parlamento foi empossado presidente até a eleição. O primeiro vice-presidente do Banco Nacional assumiu as funções do presidente falecido. A Polônia, frequentemente desmembrada, até mesmo eliminada do mapa, está calma e em paz. 

“Katyn é o local de morte da intelligentsia polonesa”, disse Michnik, atualmente a alma do bem-sucedido jornal polonês “Gazeta Wyborcza”, quando o contatei por telefone. “Esta é uma tragédia nacional terrível. Mas em minha tristeza eu estou otimista, porque a declaração forte e sábia de Putin abriu uma nova fase nas relações russo-polonesas, e porque nós poloneses estamos demonstrando que podemos ser responsáveis e estáveis.” 

Michnik se referiu às palavras do primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, após ele ter decidido na semana passada se juntar, pela primeira vez, às autoridades polonesas no evento marcando o aniversário do assassinato de milhares de autoridades polonesas pela União Soviética, em Katyn, no início da Segunda Guerra Mundial. Putin, ao mesmo tempo em que defendia o povo russo, condenou as “mentiras cínicas” que esconderam a verdade de Katyn, dizendo que “não há justificativa para esses crimes” de um “regime totalitário” e declarando: “Nós devemos nos encontrar no meio do caminho, percebendo que é impossível viver apenas no passado”. 

A declaração, desdenhada pelo paleolítico Partido Comunista russo, importou menos do que a presença de Putin, com a cabeça baixa naquela floresta de vergonha. Vê-lo ao lado do primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, me fez lembrar de François Mitterrand e Helmut Kohl, lado a lado em Verdun em 1984: o milagre de uma Europa unida e livre foi construído de momentos solenes de reconciliação como esse. Agora essa Europa se estende para o leste, na direção dos Urais. 

Eu lembrei até mesmo de Willy Brandt de joelhos no Gueto de Varsóvia, em 1970, um momento de virada na estrada para uma reconciliação entre alemães e poloneses ainda mais milagrosa do que o amanhecer de uma aliança franco-alemã no pós-guerra. E agora talvez ocorra a reaproximação mais espantosa, a russo-polonesa. 

Ainda é cedo demais para dizer para onde as relações entre Varsóvia e Moscou estão caminhando, mas não é cedo demais para dizer que 97 almas perdidas seriam desonradas se os líderes poloneses e russos não transformassem essa tragédia em um laço solene. Como Tusk disse para Putin: “Uma palavra de verdade pode mobilizar dois povos à procura da estrada da reconciliação. Nós somos capazes de transformar uma mentira em reconciliação? Nós temos que acreditar que sim”. 

A Polônia deve fazer com que toda nação que acredite que a paz e a reconciliação são impossíveis, que todo Estado que acredite ser necessário o sacrifício de novas gerações para vingar os ressentimentos da história, sinta vergonha. O competitivo complexo de vítima, um passatempo favorito no Oriente Médio, condena as crianças de hoje a se juntarem à longa lista de mortos. 

Dificilmente uma nação sofreu mais do que a Polônia desde 1939, dividida pelo pacto de não-agressão de Hitler e Stalin, transformada pelos nazistas no epicentro de seu programa de aniquilar os judeus europeus, terra de Auschwitz e Majdanek, campo de morte de milhões de cristãos poloneses e milhões de judeus poloneses, lar corajoso do Levante de Varsóvia, peão soviético, líder solitária da luta do Solidariedade pela liberdade da Europa pós-Yalta, um lugar onde, como escreveu um de seus grandes poetas, Wislawa Szymborska, “a história conta seus esqueletos em números redondos” –20 mil deles em Katyn. 

É esta Polônia que agora está em paz com seus vizinhos e estável. É esta Polônia que se uniu à Alemanha na União Europeia. É esta Polônia que acabou de ver os próprios símbolos de sua história tumultuosa (incluindo a operária das docas de Gdansk, Anna Walentynowicz, e o ex-presidente em exílio, Ryszard Kaczorowski) caírem em um jato de fabricação soviética e mesmo assim responder com dignidade, de acordo com a regra da lei. 

Logo, não me diga que a história cruel não pode ser superada. Não me diga que israelenses e palestinos não podem chegar às pazes. Não me diga que as pessoas nas ruas de Bancoc, Bishkek e Teerã sonham em vão com liberdade e democracia. Não me diga que mentiras podem durar para sempre. 

Pergunte aos poloneses. Eles sabem. 

(Roger Cohen é o editor-geral do “International Herald Tribune”.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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