Na Índia, a luta pela sobrevivência sem sinais de desaceleração

Kyle Jarrard

Em Pondicherry (Índia)

  • AFP

    Mulheres indianas trabalham em lavoura de papoula no norte da Índia

    Mulheres indianas trabalham em lavoura de papoula no norte da Índia

Elas surgem na escuridão, na borda da estrada de Chennai a Pondicherry, às 3h30: 12 mulheres usando saris roxos sentadas em um círculo, arrumando cuidadosamente os cabelos para o dia. Um homem, como se fosse o chefe delas, observa. Em cerca de uma hora, ele as levará para os campos para que comecem a trabalhar antes que nasça o forte sol do sul da Índia. Elas receberão o equivalente a pouco mais de um dólar pelo dia de trabalho; isso alimentará, com arroz e pouco mais do que isso, uma família de cinco pessoas.

Tão rapidamente quanto se vê as mulheres de dentro do carro, elas desaparecem da vista na fumaça emitida por fogões a lenha e canos de descarga de caminhões. Mas sempre há mais gente na Índia, e uma multidão no meio da rua, a qualquer hora.

O fotógrafo francês Bruno Sauerwein capturou as pessoas em movimento com a sua recente exposição “Índia em Movimento” na parte francesa de Pondi, conforme os habitantes locais chamam o lugar. Na Índia jamais se vê alguém que não esteja fazendo algo; nada permanece parado. As fotos de Sauerwein registram as imagens da noite e do quase alvorecer: garotos em motocicletas brilhantes e garotas em bicicletas cor-de-rosa; homens cansados tomando um chá rápido ou vasculhando o lixo; uma dupla de jovens guardas de trânsito sorrindo, de braços dados, sob o azul do céu da tarde.

Para onde quer que você olhe, ou aponte a câmera, na Índia, existe uma abundância de sorrisos e surpresas.

Na estrada ao sul de Villupuram, uma parada em um pequeno templo hindu à beira da estrada durante uma manhã quente atrai instantaneamente meia dúzia de mulheres que retiram mato do meio da nova rodovia. Elas usam um colete de segurança de cor laranja brilhante e exibem dentes tortos. Não é possível dizer a idade das mulheres, mas elas querem ser fotografadas.

Foi isso o que Sauerwein encontrou também, por toda parte. Primeiro, as pessoas desejam falar, bastante, para saber qual o seu nome e, acima de tudo, de onde você veio. A seguir, elas querem ser fotografadas com você; elas se espremem, ombro a ombro, mexendo-se, e depois aglomeram-se para ver a foto na telinha da máquina.

Essas fotografias atraem e inspiram. Todos aqui parecem querer mais, não necessariamente segundo a imagem do Ocidente, mas, de toda forma, mais. E eles estão de fato lutando para conseguir isso. A nação está repleta de esforço, bom humor e esperança. Não parece haver ninguém que não esteja pensando na educação como chave para o sucesso; cada conversa parece voltar-se para os próximos exames, ou para a faculdade ou universidade que o indivíduo pretende frequentar, e para tentativas fracassadas em uma frente, mas novos sonhos em outra.

Um jovem que administra um restaurante perto de Kodaikanal, nas colinas que ficam a algumas horas a noroeste de Madurai, explica o seu plano profissional, passando de uma instituição de ensino para outra, para tornar-se um melhor cozinheiro, gerente de hotel, fornecedor de refeições e mais. Ele agradece aos seus pais por tê-lo ajudado, comprando uma vaca nova para eles. Ele mostra uma foto, tirada com um telefone celular, do bezerro que acabou de nascer, com as pernas abertas em um pátio limpo e organizado.

Em viagens anteriores para cá, nós nunca percebemos todos esses telefones celulares. Agora tornou-se obrigatório andar de motocicleta pela tempestade rodopiante do tráfego na Índia, falando ao mesmo tempo com o telefone celular apoiado entre o ouvido e o ombro, sem capacete para proteger a cabeça.

O futuro parece ter chegado a toda velocidade quando vemos uma mulher velha agachada diante da sua cabana coberta de folhas de palmeira, falando ao telefone celular e gesticulando, como se a pessoa do outro lado da linha pudesse vê-la.

A Índia é um espetáculo diferente de estilo e ambição a cada curva. Cada veículo está pintado com símbolos e slogans em cores claras e brilhantes, como se houvesse uma tremenda batalha de arte de caminhões ou riquixás sendo travada nas estradas.

As próprias estradas são um sinal dos tempos: para cada estrada antiga de duas pistas que serpenteia pelo interior, passando por casas e campos sem fim, há bem perto as formas de uma nova rodovia abrindo caminho rumo ao futuro. De cada lado do cimento e do asfalto há ruínas de casas cortadas ao meio. Papéis de parede tremulam ao vento e fios oscilam para frente e para trás.

Mas os moradores dessas casas, as pessoas deslocadas pelas estradas, movem-se, e com rapidez. Aqui não existe tempo para reflexão; quem parar morre, for falta dos produtos básicos, que ainda não são fáceis de se adquirir. Permanecer em movimento é sobreviver em meio à massa de seres humanos para se sustentar.

É um trabalho duro através de uma tempestade de lixo; cada árvore e arbusto traz em si uma sacola plástica que ficou presa nos ramos, e todos os campos possuem muito plástico em meio aos arrozais e outras plantações. Uma aldeão perto de Pondi nos diz que o caminhão de lixo vem talvez duas vezes por ano, ou não. Então, a ideia é a seguinte: todo esse lixo não está lá se você não olhar para ele. Às vezes alguém ateia fogo a uma pilha de lixo, mas o plástico queima devagar, e a fumaça é oleosa e grossa.

Um movimento verde, pelo menos no que se refere ao lixo, parece um conceito absurdo aqui. Mas nos arredores de Kodaikanal, para onde os colonizadores britânicos gostavam de mandar as suas mulheres e filhos no calor de abril e maio, há uma placa dizendo que a cidade não tem plástico. E, de alguma forma, não tem mesmo – talvez porque seja necessário pagar uma pequena taxa, 30 rupias, ou cerca de 70 centavos de dólar, apenas para chegar ao local.

Lá, os indianos correm até o lago para alugar barcos a remo e pedalinhos, e circulam de um lado para o outro falando em seus telefones celulares à medida que a névoa das montanhas desce. Mais tarde, eles lotam as lojas ao longo do lago para comprarem garrafas de óleo amarelado de eucalipto e sacos de pedaços de chocolate.

Atualmente é a Índia moderna que move-se ao ritmo do consumismo e da aquisição, onde os homens que se casam mandam instalar à beira da estrada cartazes enormes com fotos deles ao lado das mulheres; onde grandes pôsteres são também exibidos para saudar o secretário da Agricultura; onde um empresário que teve um recente sucesso nos negócios coloca a sua própria imagem de quatro metros de altura em uma calçada circular no meio da rua para ser visto durante meses, até que as chuvas o derretam. E, mesmo assim, uma quantidade muito maior de tais pôsteres surgirá em meio às enxurradas, pendurados por exércitos de homens magros que sobem em estrados de compensado em meio a um emaranhado de fios elétricos, enquanto tentam ao mesmo tempo alçar-se nos ombros dos novos poderosos para também melhorarem de vida.

Esta é a Índia que ninguém segura. Em frente a um Internet Café em Pondi houve uma tremenda explosão certa manhã. Os homens saem às ruas. Nós tememos que tenha sido um ato de terrorismo, e após algum tempo saímos. Mas o que aconteceu foi que policiais homenagearam o seu chefe que fazia anos com uma quantidade de fogos suficiente para estourar os tímpanos de qualquer um. Todo mundo tem certeza de que amanhã haverá mais uma surpresa inimaginável.

Tradutor: UOL

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