Principais partidos políticos britânicos voltam a fazer alianças tradicionais

Eric Pfanner

  • Toby Melville/Reuters

    David Cameron, líder dos conservadores britânicos

    David Cameron, líder dos conservadores britânicos

Após 13 anos de liderança do Novo Trabalhismo no Reino Unido, durante os quais as divisões entre a esquerda e a direita ficaram indistintas, o partido governista e a oposição conservadora voltaram a fazer alianças mais tradicionais nesta semana, quando a campanha das eleições nacionais entra na sua fase decisiva.

Embora o líder conservador, David Cameron, insista que o seu partido virou a página do legado de inflexibilidade de Margaret Thatcher, havia ecos de Thatcherismo na sua convocação, feita na terça-feira (14/04), dos britânicos para que estes retirem o poder do Estado e assumam “controle direto” sobre questões como a educação infantil e o policiamento das suas comunidades.

“A nossa economia está sufocada pela dívida, o nosso tecido social encontra-se fragilizado e o nosso sistema político traiu o povo”, afirmou Cameron ao apresentar o manifesto, ou plataforma, do Partido Conservador, para a eleição de 6 de maio. “Mas esses problemas podem ser superados se nos mobilizarmos e trabalharmos juntos”.

Falando em uma usina de geração de energia elétrica abandonada em Londres que foi arrumada para a ocasião, ele pediu a criação de uma “grande sociedade” para substituir o “grande governo” que ele identifica como o principal legado de dois primeiro-ministros trabalhistas, Tony Blair e Gordon Brown.

Em contraste com o candidato conservador, Brown, que anunciou o manifesto trabalhista um dia antes em um hospital recém-construído em Birmingham, defendeu o papel do setor público.

Embora Brown se defina como o representante do Novo Trabalhismo, o movimento centrista que Blair conduziu à vitória eleitoral em 1997, 2001 e 2005, a sua insistência em afirmar que o governo poderia ser uma força de luta pela justiça social faz lembrar prescrições trabalhistas mais tradicionais.

“Os trabalhistas serão reformadores incansáveis e constantes – reformadores do mercado e reformadores do Estado”, declarou Brown.

A desilusão com o governo anda alta após um escândalo referente às despesas de parlamentares e à mais profunda recessão desde a Segunda Guerra Mundial. Para tentar restabelecer contato com os eleitores, ambos os partidos se auto-definiram como agentes de mudanças.

Porém, como o aumento do déficit orçamentário, nenhum dos dois partidos é capaz de fazer grandes promessas. Tanto Brown quanto Cameron prometeram que a redução do déficit será uma alta prioridade, caso os seus respectivos partidos vençam a eleição de 6 de maio. Mas eles discordam quanto ao ritmo dos cortes. Os conservadores afirmam que isso deveria começar imediatamente; os trabalhistas querem aguardar até o ano que vem, argumentando que essa é a melhor maneira de impedir que a economia caia de novo na recessão.

“Não existe nenhuma grande proposta de mudança em nenhum dos manifestos, e certamente nada que custe muito”, afirma Tony Travers, diretor do Grupo Greater London, um centro de políticas públicas da Escola de Economia de Londres. “Nenhum deles pode se dar ao luxo de assumir grandes compromissos de gastos”.

Mesmo assim, os manifestos dão aos eleitores uma chance de avaliar o “ritmo da música”, segundo a expressão de Travers, antes dos três debates televisivos entre Brown, Cameron e Nick Clegg, líder do terceiro maior partido britânico, os liberais democratas. Nunca antes houve debates eleitorais televisados desse tipo no Reino Unido; o primeiro deverá ocorrer na noite de quinta-feira.

Faltando menos de um mês para a eleição, os conservadores continuam apresentando uma liderança nas pesquisas, embora essa vantagem tenha caído das amplas margens presenciadas no ano passado para as atuais percentagens de um dígito.

As pesquisas mais recentes revelam que os conservadores contam com uma vantagem insuficiente para obterem uma maioria das 650 cadeiras na Câmara dos Comuns; isso gera a perspectiva de um “parlamento pendurado”, no qual ou os trabalhistas ou os conservadores precisariam formar uma coalizão como os liberais democratas, o que é uma perspectiva nada familiar para os britânicos.

As diferenças ideológicas entre os dois principais partidos ficaram evidentes nas suas propostas para a educação e outros serviços públicos.

Os conservadores desejam fazer com que seja mais fácil para grupos de pais e organizações filantrópicas criar escolas, por exemplo, e subordinar as polícias locais a autoridades eleitas. Segundo o plano trabalhista, ao contrário, o governo autorizaria instituições mais bem sucedidas a assumir a responsabilidade sobre escolas fracassadas e forças policiais locais.

A plataforma trabalhista também enxerga espaço para uma maior intervenção pública nas questões econômicas, pedindo a criação de uma taxa internacional sobre os bancos como garantir contra futuras crises financeiras, e poderes governamentais para bloquear certas aquisições corporativas.

A plataforma conservadora prega a introdução de medidas para a suspensão de membros do parlamento envolvidos em ações condenáveis graves, em uma tentativa de agradar os eleitores indignados com os escândalos do ano passado referentes a verbas inflacionadas para despesas pessoais.

Mas ela não inclui uma proposta trabalhista de criação de uma casa superior do parlamento composta integralmente por políticos eleitos; alguns membros daquela casa parlamentar, a Câmara dos Lordes, possuem cadeiras hereditárias.

Clegg, o líder dos liberais democratas, criticou os planos de ambos os partidos, observando que os trabalhistas prometeram promover justiça em três eleições seguidas, mesmo enquanto aumentavam as divisões entre ricos e pobres. E ele ridicularizou o pedido de Cameron por maior responsabilidade individual, afirmando que os tories (conservadores) desejam criar uma “D.I.Y. Society” (algo como “Sociedade do Faça Você Mesmo”). Os democratas liberais deverão apresentar o seu manifesto nesta quarta-feira.

Steven Fielding, professor de história política da Universidade de Nottingham, diz que as diferenças reais entre os dois principais partidos podem ser menos substanciais do que sugerem as suas apresentações sobre políticas. Eles podem estar exagerando pequenas diferenças como forma de conquistar o apoio de indivíduos leais aos partidos, apelando para os eleitores indecisos que manifestam ceticismo quanto à possibilidade de os seus votos fazerem qualquer diferença.

Em uma tentativa de distanciar os conservadores da imagem austera associada aos tories no passado, Cameron esboçou planos para um crédito fiscal anual de 150 libras esterlinas, ou US$ 230 (R$ 402), para indivíduos casados com poucos recursos financeiros. Brown respondeu com uma proposta de isenção de impostos para famílias que têm bebês.

“Não é de se admirar que o eleitorado se encontre confuso”, diz Fielding. “Eles estão tentando enviar todo tipo de mensagem para todas as pessoas”.

Para todos os partidos, um debate acalorado sobre questões como policiamento, educação e valores familiares ajuda a desviar a atenção do grande problema como qual qualquer novo governo deparar-se-á: o enorme déficit.

Os tories, que inicialmente prometeram adotar medidas drásticas para reduzir os gastos, retrocederam nos últimos meses, após descobrirem que esse tipo de discurso estava prejudicando as suas chances políticas junto a uma população que teme a recessão.

“O fator interessante quanto a ambos os manifestos reside naquilo sobre o qual eles não falam”, disse Fielding. “Todo mundo sabe o que terá que acontecer, ou seja, que eles terão que fazer algumas escolhas bastante difíceis quanto àquilo que será cortado”.

Tradutor: UOL

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