Banco Central Europeu vê risco de nova crise financeira

Jack Ewing e Matthew Saltmarsh

Em Frankfurt (Alemanha) e Paris (França)

  • GEORGES GOBET/AFP - 11.fev.2010

    O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, e o ministro da Economia grego, George Papaconstantinou, durante reunião do eurogrupo, em Bruxelas, na Bélgica

    O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, e o ministro da Economia grego, George Papaconstantinou, durante reunião do eurogrupo, em Bruxelas, na Bélgica

O Banco Central Europeu (BCE) alertou na quinta-feira (15) que um ressurgimento dos enormes desequilíbrios comerciais e um crescente endividamento dos governos estão criando uma mistura volátil que pode provocar novas turbulências econômicas. 

“Nós podemos já ter entrado na próxima fase da crise: uma crise de dívida soberana após a crise financeira e econômica”, disse Jurgen Stark, um membro do conselho executivo do BCE, na quinta-feira, em comentários preparados para serem feitos em Washington. 

Os comentários de Stark repetiram os alertas feitos no boletim mensal do banco central, divulgado na quinta-feira, que diziam que a China e outros países em desenvolvimento provavelmente gerarão de novo imensos superávits comerciais enquanto os Estados Unidos e outros países ricos acumularão déficits. 

“As apostas são altas se quisermos prevenir um ajuste desordenado no futuro, que teria custos elevados para todas as economias”, disse o banco central. 

Ressaltando a posição do BCE, um grupo representando os bancos globais expressou preocupação de que o Grupo dos 20 países industrializados e em desenvolvimento não está cumprindo as promessas de criar um sistema financeiro mundial mais robusto. 

“O espírito de unidade no tratamento dos desafios globais pode estar diminuindo”, disse Charles Dallara, diretor administrativo do grupo das instituições financeiras, o Instituto Internacional de Finanças, em uma carta endereçada aos líderes do G20, antes de se reunirem na próxima semana em Washington. O instituto conta com mais de 390 membros em mais de 70 países. 

Nos mercados de títulos, os investidores passaram a exigir ágios mais altos para a dívida do governo grego, à medida que passaram a acreditar que um plano de resgate europeu para o país provavelmente só produzirá um alívio temporário. 

O resgate à Grécia, assim como a decisão do BCE de afrouxar as regras para a garantia que aceitará para os empréstimos, “estabelecem um precedente ruim para os outros países membros da zona do euro e aumentam a probabilidade de que a zona do euro se degenere em uma zona de prodigalidade fiscal, fraqueza de moeda e pressões inflacionárias maiores com o passar do tempo”, escreveu Joachim Fels, um economista do Morgan Stanley, em uma nota de pesquisa. 

Fels chegou até mesmo a dizer que há um maior risco de a Alemanha e outros países decidirem abandonar a zona do euro e formar sua própria união monetária, mais estável. 

Mark Otty, um diretor administrativo da Ernst & Young que supervisiona as operações de consultoria da empresa na Europa, disse que o problema da dívida está pesando na confiança das empresas. “Está claro que como consequência da dívida pública, a confiança das empresas na Europa está menor do que em outros grandes mercados”, disse Otty na quinta-feira. 

O BCE baseou seu alerta em indicações de que os desequilíbrios comerciais, que diminuíram durante a crise financeira, estavam retornando à medida que os preços do petróleo voltaram a subir e o comércio global recuperou seu impulso. 

O déficit em conta corrente dos Estados Unidos, que tinha encolhido para 2,6% do produto interno bruto no ano passado em comparação ao recorde em 50 anos de 6%, provavelmente subirá de novo, disse o banco. 

O superávit da China, que caiu para 6% do PIB no ano passado, em comparação a 10% em 2006, provavelmente aumentará. 

Os membros do G20 prometeram tratar dos desequilíbrios, com os países exportadores dizendo que tentariam aumentar a demanda doméstica e os países importadores prometendo reduzir a tomada de empréstimo por parte do governo e aumentar a poupança privada. 

“Infelizmente, a implantação de medidas corretivas não ocorreu de forma suficiente”, disse o BCE. 

O banco central disse que o comércio desequilibrado contribuiu para a crise financeira. “O quadro ainda é de desequilíbrios globais continuando a colocar em risco a economia global”, disse o BCE. 

O Instituto Internacional de Finanças também fez cobranças aos países do G20. O grupo alertou que os países estavam perdendo o foco em seus esforços para fortalecer o sistema financeiro e tratar dos desafios econômicos globais, potencialmente colocando um fardo indevidamente pesado sobre os mutuantes. 

“Nós estamos cada vez mais preocupados com a forma como o plano do G20 está sendo executado”, disse Dallara. O instituto pediu às autoridades do G20 que renovem seu compromisso de apresentar as mudanças regulatórias, feito no encontro de cúpula em Pittsburgh, em setembro de 2009. 

Uma série de propostas nacionais inconsistentes para regulamentação bancária está criando incerteza e aumentando as dificuldades para as instituições financeiras levantarem capital, acrescentou o instituto. 

“Nós pedimos um foco renovado por parte das autoridades financeiras e autoridades regulatórias em um conjunto claro e integrado de propostas de reforma regulatória”, disse Dallara. 

O instituto também disse que os planos atuais para regulamentações financeiras nacionais e globais poderiam ter “um impacto adverso significativo sobre o desemprego e o crescimento nos Estados Unidos por muitos anos. Um efeito mais substancial ocorreria provavelmente na zona do euro, refletindo a maior importância relativa dos bancos na economia da região; e ocorreriam efeitos materiais no Japão e em mercados emergentes”. 

William R. Rhodes, vice-presidente do conselho do instituto e vice-presidente sênior do Citigroup, enfatizou o equilíbrio delicado entre a retirada do estímulo econômico cedo demais e permitir que os déficits orçamentários cresçam por tempo demais. 

“Uma ação prematura de retirada do estímulo, como vimos nos anos 30, pode prolongar as dificuldades do desemprego elevado, mas o adiamento da formulação de estratégias para tratar dos grandes déficits fiscais pode minar a confiança, gerar incertezas no mercado e colocar em risco as perspectivas de crescimento”, escreveu Rhodes. “Os mercados já foram claros em expressar sua preocupação com a sustentabilidade fiscal.” 

Rhodes notou que o desemprego elevado está alimentando as pressões para um protecionismo financeiro e comercial. 

“É importante que o G20 atue para repelir as medidas protecionistas e completar os acordos de livre comércio pendentes”, ele escreveu.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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