Um maestro enfrenta escolhas difíceis

Anthony Tommasin

Nova York

  • Richard Termine/The New York Times

    O maestro James Levine, que enfrenta problemas de saúde, durante um concerto em Nova York

    O maestro James Levine, que enfrenta problemas de saúde, durante um concerto em Nova York

Ninguém ficou mais frustrado com os sérios problemas de saúde que James Levine vem enfrentando desde 2006 do que o próprio Levine, e ele deixou isso transparecer em inúmeras entrevistas e releases à imprensa. Há seis anos ele vem fazendo malabarismo para atender à demanda da direção musical da Metropolitan Opera e da Orquestra Sinfônica de Boston. Mas por causa dos vários procedimentos cirúrgicos e problemas de saúde que exigiram longos períodos de recuperação, ele perdeu vários meses de apresentações nas duas instituições, não só em Boston e Nova York, mas também nas turnês norte-americanas e internacionais.

Chega um momento em que a falta do diretor musical de uma companhia de ópera ou de uma grande orquestra – nas apresentações cotidianas, e principalmente nas grandes iniciativas artísticas – torna-se um fator debilitante para a instituição. Esse momento parece ter chegado para a Metropolitan Opera, e com certeza chegou para a Sinfônica de Boston.

Desde que foi anunciado no mês passado que Levine, 66, precisava ser operado de uma dolorosa hérnia de disco, Mark Volpe, diretor-administrativo da Sinfônica de Boston, e Peter Gelb, gerente geral da Met, fizeram declarações sinceras sobre a necessidade de conversarem a sério com Levine para descobrir até que ponto ele pode se comprometer realisticamente.

Na Metropolitan Opera, ele deveria ter regido quatro apresentações de “Tosca” de Puccini, começando na noite de quarta-feira, e três de “Lulu” de Berg em maio, um trabalho que ele conduz como ninguém. Fabio Luisi, um maestro competente, assumirá o seu lugar.

De certa forma, o impacto das ausências de Levine na Sinfônica de Boston pode ser percebido ao observar os quatro concertos da orquestra esta temporada no Carnegie Hall. Levine perdeu três deles, incluindo a prestigiosa noite de gala de abertura de temporada e, mais recentemente, uma apresentação do oratório “Elijah” de Mendelssohn, que ele pretendia que fosse uma grande apresentação.

Parte do trabalho de um diretor musical em uma orquestra ou ópera envolve simplesmente estar presente: ou seja, estar em forma e concentrado o suficiente para dar estabilidade, promover o crescimento, e principalmente, concretizar os planos artísticos.

Pense no que estava em jogo para Alan Gilbert durante a temporada atual, sua primeira como diretor musical da Filarmônica de Nova York. Sua nomeação foi aplaudida por todos aqueles que queriam que a Filarmônica virasse uma página em sua história e se revitalizasse nãos mãos de um jovem e dinâmico visionário. Mas havia dúvidas, especialmente entre os membros mais tradicionais, e Gilbert tinha muito a provar.

Suas ideias para os programas foram criativas, e a orquestra tem tocado de forma esplêndida para ele. Mas imagine se ele tivesse perdido semanas de apresentações neste outono. Ou considere o prejuízo que a orquestra teria se de repente ele tivesse de se ausentar da regência dos programas “Contact!” desse final de semana, a série de música contemporânea que ele lançou, ou das apresentações de “Grand Macabre”de Ligeti em maio, um novo e ambicioso projeto da Filarmônica, ao apresentar a produção de uma ópera contemporânea difícil que ainda não foi produzida pela Metropolitan Opera.

As ausências de Levine da Sinfônica de Boston foram especialmente complicadas para a organização. A orquestra procurou Levine como um sucessor de Seiji Ozawa, e queria tanto o maestro que estava disposta a passar duas temporadas sem um diretor musical em tempo integral, esperando o fim do compromisso de Levine com a Filarmônica de Munique. Sua temporada inaugural, que começou com uma alegre apresentação da “Sinfonia dos Mil” de Mahler, no Symphony Hall em Boston em outubro de 2004, satisfez todas as expectativas.

Desde o começo de sua regência, o público teve que se acostumar a vê-lo reger sentado numa cadeira com apoio para as costas. Ninguém ligou, porque o som que ele tirava da orquestra era brilhante, cheio de nuances e preciso. A Sinfônica de Boston parecia reenergizada e inspirada.

Mas em 2006 ele perdeu meses de trabalho e sua primeira turnê com a Sinfônica de Boston por causa de uma queda no palco depois de uma apresentação da Nona Sinfonia de Beethoven. Ele teve uma lesão no manguito rotador que precisou de cirurgia e um longo período de reabilitação. Durante seu tempo fora, ele prometeu melhorar seu comportamento e recuperar sua saúde.

“Vou fazer o que os terapeutas me falam para fazer”, disse numa entrevista de 2006. “Quero ter um outro tipo de resiliência física”. Essa resiliência pareceu durar pouco. Ele continuou a lutar contra o peso e às vezes parecia muito cansado durante as apresentações.

Em 2008, ele teve um outro problema de saúde sério que pode afetar qualquer pessoa: um cisto cancerígeno no rim que precisava ser removido. Levine havia estabelecido que todo o festival de música contemporânea em Tanglewood naquele verão seria dedicado ao centenário de Elliott Carter. Levine deveria ter um papel fundamental nos programas, que tocariam 47 obras de Carter em dez concertos ao longo de cinco dias. Ele perdeu o festival inteiro, assim como outros projetos importantes naquele verão.

E desde então ele nunca recuperou totalmente sua força e saúde. No outono passado ele deveria ter regido todas as nove sinfonias de Beethoven com a Sinfônica de Boston. Um ciclo de sinfonias de Beethoven não é um programa muito inovador, mas de certa forma, ao longo de sua carreira, Levine nunca havia regido as obras completas. Ele divulgou o projeto para a administração como uma chance para ele e sua orquestra mostrarem seu trabalho. As apresentações deveriam ser gravadas ao vivo, na esperança de lançar um conjunto completo de gravações. Levine perdeu todos os concertos de Beethoven por causa de uma cirurgia na coluna. O projeto se tornou simplesmente mais uma execução comum de obras fundamentais com uma lista de maestros convidados.
No outono Levine deverá reger “Rheingold” de Wagner na noite de abertura da temporada de 2010-2011 da Metropolitan Opera, o primeira parte da nova produção “Ring” dirigida por Robert Lepage. Este é um grande e arriscado empreendimento para a Met. Na verdade achei que Levine poderia desistir. Por ter feito o “Ring” na Met durante os últimos 25 anos, ele poderia ter pensado: “Já fiz isso”, e passado as apresentações para outra pessoa. Em vez disso, ele abraçou o “Ring” de Lepage como uma chance de combinar sua profunda experiência na música com uma abordagem recente, e de trabalhar com um novo elenco e uma orquestra cheia de jovens músicos entusiasmados que se juntaram ao grupo nos últimos dez anos.

Tudo bem. Mas será que ele estará presente? Sem ele, todo a ideia do projeto muda.

Seria difícil mesmo para um maestro totalmente saudável e incansável manter as duas direções musicais. No mínimo, Levine terá que escolher. Se não, infelizmente, alguém terá de escolher por ele.

Tradutor: Eloise De Vylder

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