Caos aéreo obriga empresas a buscarem outras alternativas

Matthew Saltmarsh

Paris (França)

  • AFP

    Passageiros lotam o aeroporto de El Prat, na Espanha, país afetado pelas nuvens vulcânica

Empresas de toda a Europa corriam para fazer planos de contingência nesta sexta-feira por causa da nuvem de cinzas vulcânicas da Islândia que manteve os aeroportos fechados, enquanto as companhias de seguro esperavam não ter de cobrir nenhum prejuízo.

O cancelamento da maioria dos voos no norte da Europa obrigou os fornecedores a buscarem rotas alternativas para enviarem itens de valor e produtos perecíveis como flores e alimentos que normalmente são transportados via aérea.

“Nossos serviços expressos e de correio foram drasticamente afetados”, disse Dan Moriarty, diretor de operações da Aerly Bird Trans Global, uma transportadora próxima ao distrito de carga do Aeroporto de Dublin. “É uma situação incomum. A maioria de nossos clientes aceita que este é um problema de força maior.”

A companhia, especializada em entregas “just-in-time” [sistema de fornecimento que realiza entregas frequentes para evitar o desperdício e economizar espaço de estocagem] desde a Grã-Bretanha e o continente para clientes na Irlanda, principalmente de serviços de software e call centers, optou pelo transporte viário e marítimo o quanto pode. A demanda pelo transporte via ferry cresceu. “O principal problema – se isso continuar – será para os clientes”, diz Moriarty.

As companhias de seguro esperam não ter que pagar grandes indenizações, a menos que exista um dano físico direto resultante das erupções.

Bart Nash, assessor de imprensa da Lloyd's de Londres, disse que a gigante dos seguros estava examinando sua situação “em relação a vários tipos de negócios”, mas que é “muito cedo para dizer” que tipo de pedidos de indenização podem surgir.

A Swiss Re, outra grande seguradora, disse que não espera grandes pedidos de indenização. “Nesse momento não acreditamos que o impacto sobre as resseguradoras será muito significativo”, diz Josephine Chennell, porta-voz do grupo em Zurique.

“A interrupção dos negócios por causa da erupção do vulcão não é coberta pelas seguradoras”, disse Richard Manson, assessor de imprensa da Allianz.

Avaliar os custos reais para as empresas será impossível até que fique claro quanto tempo as nuvens de cinzas levarão para se dispersar.

Thijs Berkelder; um analista de transportes no Petercam Bank em Amsterdam, disse que as grandes transportadoras europeias como a Air France-KLM poderiam perder dezenas de milhões de euros em negócios por dia.

“A principal preocupação é que aconteça uma grande erupção que dure semanas ou até mesmo meses”, disse ele, e isso multiplicaria os prejuízos das transportadoras.

O impacto pode ser mais prejudicial para as transportadoras pequenas, que não têm tanta capacidade para desviar voos e operar a partir de diferentes centros, diz ele.

Especialistas alertaram que o vulcão sobre a geleira de Eyjafjallajokull na Islândia pode continuar em erupção nas próximas semanas.

O professor Bill McGuire do Centro de Pesquisas de Riscos em Aon Benfield observou que a última erupção do vulcão durou mais de doze meses. Se esta erupção tiver uma duração similar, as cinzas poderão apresentar um problema frequente para o espaço aéreo britânico.

O Centro para Aviação na Ásia-Pacífico, em Sydney, estimou na sexta-feira que cerca de seis milhões de passageiros seriam afetados se o fechamentos dos aeroportos continuasse por até três dias. Os preços das ações das companhias aéreas estavam mais baixos na sexta-feira.

A Ryanair, a maior companhia aérea de baixo custo, perdeu 2,6% depois de cair 2% na quinta-feira. A Air France-KLM caiu 1,8% em Paris e a British Airways perdeu 2,1%.

Por outro lado, o preço das ações das maiores seguradoras e resseguradoras ficou estável.

Na TNT, a maior companhia de logística holandesa, já existem planos de contingência para transferir as cargas aéreas para a rede viária.

A companhia, maior grupo de entregas dentro da Europa, contratou mais caminhões para operarem em seu centro no sul da Holanda. Seu centro aéreo em Liege, na Bélgica, começou a enviar os bens por terra, disse o porta-voz Cyrille Gibot.

A companhia conseguiu receber um de seus voos mais importantes da China para a Europa na última quinta-feira, ele acrescentou. Esses voos, que normalmente acontecem três vezes por semana, costumam carregar eletrônicos caros e componentes automobilísticos desde a China para os fabricantes europeus.

A Korean Air, a maior transportadora de carga entre as companhias aéreas, disse que cortou três voos de carga e quatro voos de passageiros da Ásia para a Europa na sexta-feira. Ela normalmente opera de quatro a seis voos de carga por dia para a Europa.

Em Rungis, o maior mercado atacado de alimentos do mundo, localizado perto de Paris, os negócios quase não foram afetados.

Lá, apenas 10% dos produtos comercializados chegam pelo ar, de acordo com o porta-voz Philippe Stisi. E com a chegada da primavera na Europa, mais frutas e vegetais virão do sul da Europa, e chegarão pelas estradas, em vez de virem da África e da Ásia.

Um gerente da Solanes, empresa que distribui no mercado, disse que não recebeu entregas de ervas aromáticas e frutas exóticas que normalmente chegam de Israel e da África.

O transporte aéreo, embora seja mais caro do que o marítimo, teve uma espécie de revitalização no ano passado, de acordo com Victor Fung, presidente do grupo de companhias Li & Fung, de Hong Kong, um grande grupo de distribuição e comércio.

Por causa da crise financeira, mais companhias e firmas de exportação deixaram de usar o transporte marítimo e passaram a usar o aéreo, por conta da redução no movimento das companhias de transporte marítimo e da necessidade de pedidos menores e entregas mais frequentes. Ainda assim, outros executivos dizem que o alto custo do transporte aéreo e as considerações ambientais continuam a limitar a expansão do setor.

Tradutor: Eloise De Vylder

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