Depois da Grécia, situação da dívida preocupa em Portugal

Landon Thomas Jr.

Em Londres (Reino Unido)

  • THOMAS LOHNES/AFP

Os especuladores começaram a se concentrar em outro pequeno membro da zona monetária problemática da Europa, acentuando a mesma falha econômica que deixou a Grécia à beira da insolvência: uma taxa de poupança cronicamente baixa que força uma dependência de investidores estrangeiros, que por sua vez têm um apetite cada vez menor para financiar os déficits persistentes.

Enquanto os investidores voltam sua atenção para o próximo país vulnerável, a Grécia deu mais um passo na quinta-feira para ativar um pacote de resgate de US$ 61 bilhões, com o primeiro-ministro George A. Papandreou chamando a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional para um encontro em Atenas na próxima semana.

O pacote de ajuda acertado no fim de semana passado –visando afastar os temores de um calote grego– ainda não teve o efeito desejado. O rendimento dos títulos da dívida grega de 10 anos chegou brevemente a 7,3% na quinta-feira, não longe dos 7,5% de antes do pacote de resgate ser anunciado. As taxas de juros dos títulos de 10 anos de Portugal também estão subindo, atingindo a alta de 4,5% na quinta-feira.

Apesar do Ministério das Finanças da Grécia ter dito que seu pedido de reunião não necessariamente significa que fará uso dos fundos, ele contribuiu para a ansiedade que ajudou a derrubar o valor do euro em 0,0008, para 1,3576 frente ao dólar.

Tudo isso aumenta a perspectiva de que o pacote de empréstimo à Grécia, o resultado de meses de discussão política, pode ser apenas uma bandagem em um ferimento que mostra pouco sinal de cicatrizar.

Alguns analistas acham que o resgate à Grécia pode ter um efeito oposto, mais danoso a longo prazo. Em vez de promover um período de taxas de juros mais baixas e calma no mercado, ele poderia levar os investidores a testar o estômago da Europa –e em particular o da Alemanha– para um resgate a outras economias europeias em dificuldades, começando por Portugal.

O resgate poderia até mesmo criar um incentivo para que o governo de coalizão em Lisboa, que já tem promovido cortes dolorosos de gastos, alivie um pouco, ciente de que um pacote de resgate com taxas de juros mais baixas por parte da Europa e do FMI pode estar próximo.

“Agora haverá mais prodigalidade fiscal na Europa, mais fraturas políticas e, no final, a possibilidade de que alguns países queiram deixar a zona do euro”, disse Joachim Fels, um economista do Morgan Stanley. A zona é composta por 16 países que usam o euro.

O fato da Grécia e de Portugal estarem entre aqueles com mais problemas é de conhecimento geral, com ambos provavelmente sobrecarregados pela dívida elevada, fraca competitividade e crescimento estagnado há anos. Mas outro fator que contribui para seus problemas é sua taxa de poupança –6% do produto interno bruto na Grécia e 7,5% em Portugal. Estes são percentuais baixos para países desenvolvidos. Em comparação, a Itália tem uma taxa de poupança de 17,5%, 20% na Espanha, 19% na França e 23% na Alemanha.

Para Atenas e Lisboa, é uma combinação arriscada: baixas reservas de capital quando o custo de nova dívida está crescendo, enquanto a habilidade deles de gerar receita tributária para pagar por estas obrigações está encolhendo devido às fortes medidas de austeridade.

A dívida de Portugal, em pouco menos de 90% do produto interno bruto, é mais baixa do que a de 113% da Grécia. O governo de Lisboa adotou medidas preventivas de corte de gastos e aumento de impostos.

As necessidades financeiras de Portugal para o ano, apesar de altas, em 24 bilhões de euros, ou US$ 32,7 bilhões, não são tão onerosas quanto as da Grécia. Na quarta-feira, o governo conseguiu levantar confortavelmente 2 bilhões de euros no mercado de títulos.

Mas Tim Lee, da pi Economics, uma consultoria com sede em Stamford, Connecticut, disse que a taxa de poupança do país, mais do que seus déficits ou relação dívida/PIB, é a melhor medida da capacidade de uma economia de pagar sua dívida.

Neste aspecto, Grécia e Portugal permanecem altamente vulneráveis.

“A taxa nacional de poupança líquida altamente negativa acentua o fato de que o déficit do governo não pode ser facilmente financiado domesticamente”, disse Lee, “dificultando para que esses países escapem de sua armadilha da dívida”.

Lee apontou que Grécia e Portugal não são os únicos países em grande dificuldade. Os Estados Unidos e o Reino Unido, com taxas de poupança de 10% e 12%, respectivamente, também estão entre os piores poupadores do mundo. Mas a Grécia e Portugal, como membros da zona do euro, não contam com o luxo de imprimir dinheiro para desvalorizar suas moedas e assim buscarem sua recuperação por meio da exportação.

Neste aspecto, Portugal talvez sofra ainda mais do que a Grécia. Os exportadores portugueses têm perdido participação de mercado para os concorrentes desde a entrada na moeda comum em 2000. Isso, por sua vez, levou o governo a tomar empréstimos no exterior para financiar o déficit em conta corrente, elevando a dívida aos níveis atuais.

Mais seriamente, Portugal –diferente da Grécia, Irlanda e Espanha– não experimentou os efeitos positivos do longo período de crescimento que resultou em taxas de juros mais baixas ao longo da última década. Isso ocorreu porque Portugal não se beneficiou do boom imobiliário ou de consumo, de forma que não viu nenhuma melhora de seu PIB per capita nos últimos 15 anos, segundo uma pesquisa do Deutsche Bank.

Logo, dizem os analistas, será difícil para os políticos portugueses persuadirem sua população já em dificuldades de que mais sacrifícios –como cortes salariais no setor público ou impostos de valor agregado mais altos– são necessários.

A Fitch já rebaixou a dívida do país devido às dúvidas de que Portugal conseguirá cortar seu déficit de 9% do PIB. Olli Rehn, o comissário europeu para assuntos econômicos e monetários, alertou Portugal nesta semana que mais passos são necessários para redução de seu déficit.

Gilles Moec, um economista para a Europa do Deutsche Bank, disse: “Será um processo longo e doloroso para Portugal e há dúvidas sobre se serão capazes de fazê-lo”. Ele acrescentou: “É um lembrete de que há um problema aqui”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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