Quais são as chances de uma coalizão britânica?

Stephen Castle

Em Bristol (Inglaterra)

  • Stefan Rousseau/AFP

    Participam de debate na TV Nick Clegg, David Cameron e Gordon Brown (da esq. para a dir.)

    Participam de debate na TV Nick Clegg, David Cameron e Gordon Brown (da esq. para a dir.)

Graças ao seu sistema de votação brutal no qual o vencedor leva tudo, o Reino Unido não tem uma coalizão formal de governo desde a Segunda Guerra Mundial.

Isto pode estar prestes a mudar, à medida que o Partido Liberal Democrata, liderado por Nick Clegg, capitaliza seu sucesso no debate da semana passada.

Por vários motivos, tanto pessoais quanto políticos, os liberais democratas teriam dificuldade em obter um papel oficial no próximo governo. O resultado mais provável, dizem os analistas, seria um arranjo não oficial no qual um partido luta para formar um governo sem uma maioria clara –mas com o apoio tácito dos liberais democratas.

“Um governo de minoria de algum tipo é o resultado mais provável”, disse Philip Cowley, professor de governança parlamentarista da Universidade de Nottingham. “Eu não vejo o surgimento de uma coalizão.”

Ao ser perguntado na quinta-feira sobre um possível arranjo com os liberais democratas, Peter Mandelson, o principal mediador do Partido Trabalhista, descreveu a discussão como “prematura”, acrescentando que ele está “lutando pela maioria trabalhista, não em algum acordo como os liberais democratas”.

Mas de forma privada, sobra especulação. Para os liberais democratas, seu Santo Graal é obter uma mudança no sistema de votação de maioria simples. Segundo os sistemas proporcionais amplamente usados no continente europeu, os liberais democratas, que antes de sua recente ascensão nas pesquisas de opinião conseguiam mais de 20% do voto popular, seriam parlamentares-chave.

Segundo as mais recentes pesquisas de opinião, os conservadores permanecem à frente. Apesar de sua vantagem ter diminuído, eles ainda estão mais bem posicionados para se tornarem o maior partido. Mas uma aliança do Partido Liberal Democrata com o líder conservador, David Cameron, seria muito difícil de ocorrer sem uma mudança da política: ele e a maioria dos conservadores são contrários à reforma eleitoral.

“Apesar de terem apanhado em várias eleições, quase não há nenhum reformista eleitoral conservador”, disse Cowley.

Apesar de uma maior afinidade nas políticas com o Partido Trabalhista, cujo líder, Gordon Brown, deixou clara sua abertura para uma mudança eleitoral, qualquer aliança com o partido que governou desde 1997 poderia trazer toda uma série de grandes problemas.

Poderia ser pedido aos liberais democratas para apoiarem um governo visto como derrotado na eleição, algo que seria particularmente odioso de ser feito caso Brown tentasse permanecer como primeiro-ministro.

E isso não é impossível. Um dos aspectos mais estranhos do sistema britânico é que, mesmo se os trabalhistas conquistarem o menor percentual dos votos –de acordo com algumas pesquisas recentes– ele poderia, devido à forma como são distribuídos, conquistar um maior número de cadeiras no próximo Parlamento.

Segundo a Constituição não escrita do Reino Unido, Brown pode ainda ter direito à primeira tentativa de formar um governo, mesmo que considerado como tendo “perdido” a eleição.

Raio-x do Reino Unido:

  • Nome oficial: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte

  • Capital: Londres

  • Tipo de Governo: Sistema parlamentarista e monarquia constitucional

  • População: 61.113,205

  • Idiomas: Inglês, galês (cerca de 26% do País de Gales) e escocês

  • Grupos étnicos: Brancos 92.1% (ingleses 83.6%, escoceses 8.6%, galeses 4.9%, irlandeses do norte 2.9%), negros 2%, indianos 1.8%, paquistaneses 1.3%, indefinidos 1.2% e outros 1.6%

  • Religiões: Cristãos 71.6% (anglicanos, católicos romanos, presbiterianos, metodistas) , muçulmanos 2.7%, hindus 1%, outros 1.6%, sem especificação ou sem religião 23.1%

  • Fonte: CIA Factbook

Um estudo sobre Parlamentos sem maioria definida, produzido pela biblioteca da Câmara dos Comuns, nota que “se nenhum partido tiver uma maioria clara, o governo anterior poderia ser mantido e haveria um período de negociação, durante o qual haveria a tentativa de formação de uma coalizão ou a decisão de tentar governar com a minoria dos Membros do Parlamento”.

A história certamente sugere que um governo de minoria é o precedente mais provável. Após a segunda de duas eleições em 1974, o Partido Trabalhista formou um governo com uma maioria geral de três, mas em 1977-1978 ele pediu o apoio do Partido Liberal de centro, um dos precursores do Partido Liberal Democrata. Mas esse pacto trabalhista-liberal não foi uma coalizão.

A estratégia de Clegg tem sido discutir cenários pós-eleitorais o mínimo possível. Seu partido sabe por meio de campanhas anteriores como a especulação a respeito de exigência de cargos ministeriais pode fazer o partido parecer ávido e sem princípios.

Em vez disso, Clegg apresentou várias exigências que ele diz que seriam pré-condições para qualquer acordo pós-eleitoral, incluindo mudanças tributárias e na educação, novas regras para os bancos e reforma eleitoral.

Mas os liberais democratas também perceberam que, mesmo se a balança do poder ficar em suas mãos, suas opções serão determinadas pela posição relativa dos dois grandes partidos e pela forma como seus líderes reagirem.

Personalidades também importam. As relações de Clegg com Brown foram estragadas pelas negociações sobre como limpar a política após o escândalo em torno dos gastos dos parlamentares, disse um político familiarizado com as discussões e que pediu anonimato devido à sensibilidade do assunto.

Brown “chamou tanto Clegg quanto Cameron e, em vez de ser educado e discursivo, lhes disse o que pensar e para que concordassem com ele, e então os despachou para fora da sala”, ele disse.

Na entrevista para o “Daily Telegraph” publicada na quarta-feira, Clegg atacou mais fortemente Brown do que o partido dele. “Brown bloqueou sistematicamente, assim como pessoalmente, a reforma política”, ele disse. “Eu acho que ele é um político desesperado e eu simplesmente não acredito nele.”

Uma preocupação dos liberais democratas é que seja permitido a Brown elaborar um programa de governo que atenda muitas das exigências do partido, para depois derrubá-las no voto.

Apesar de que uma mudança na liderança trabalhista provavelmente ajudaria uma aliança entre liberais e trabalhistas, ela levaria algum tempo, segundo as regras trabalhistas. Um golpe interno poderia ser necessário para forçar a renúncia de Brown e abrir caminho para outro líder. “Passar por Gordon seria um problema não apenas para nós, mas para o Partido Trabalhista”, disse um liberal democrata que não estava autorizado a falar publicamente.

Enquanto isso, a maioria dos observadores acredita que, em vez de ceder à reforma eleitoral e outras exigências, Cameron provavelmente preferiria liderar um governo de minoria até julgar ser o momento certo de convocar outra eleição –como os trabalhistas fizeram em 1974.

Tudo isso significa que, mesmo se Clegg conseguir um desempenho impressionante na eleição, em 6 de maio, ele pode se ver diante de opções intoleráveis.

 “Os liberais democratas estão mais próximos politicamente dos trabalhistas do que dos conservadores”, disse Cowley, “e há mais chance de obterem a reforma eleitoral junto aos trabalhistas do que junto aos conservadores”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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