Quem governa Israel?

Yossi Alpher

Tel Aviv (Israel)

Os problemas do governo de Obama com Israel vão além da construção de mais de uma centena de casas no leste de Jerusalém. Mais que isso, a coalizão governista de Israel reflete uma reformulação na sociedade israelense que fortaleceu as configurações de direita na Cisjordânia e a resistência a um acordo de paz.

Raio-x de Israel:

  • Nome oficial: Estado de Israel

    Governo: Democracia Parlamentar

    Capital: Jerusalém

    Divisão administrativa: 6 distritos

    População: 7.233,701

    Idiomas: Hebreu (oficial), árabe (usado oficialmente pela minoria muçulmana) e inglês

    Grupos etnicos: Judeus 76.4%, muçulmanos 16%, árabes cristãos 1.7%, outros cristãos 0.4%, druzes 1.6%, sem especificação 3.9%

    Fonte: CIA World Factbook

Sem dúvida, esta não é a primeira vez que Israel está lidando com uma coalizão de direita-religiosos-assentados-russos que pressiona por um programa mais reacionário. A diferença é que este alinhamento político poderá se tornar dominante em Israel por algum tempo. 

A esquerda política praticamente desapareceu, desacreditada pelas tentativas fracassadas de paz. Ao mesmo tempo, o setor conservador ultra-ortodoxo está crescendo rapidamente. Assim como a população árabe-israelense, que, sob a influência de um processo de paz falido, está se tornando cada vez mais hostil à ideia de se transformar numa minoria num Estado judeu – endurecendo assim a reação da maioria judaica. 

Além disso, os riscos são maiores do que no passado. A direita israelense vê um ataque internacional contra seus baluartes no leste de Jerusalém e na Cisjordânia. Ela decidiu não repetir nunca mais o que ocorreu na retirada de Gaza. E portanto está atacando seus críticos e aumentando seu domínio sobre os instrumentos de poder. E esta reação amplifica ainda mais o isolamento internacional de Israel, criando um círculo vicioso.

O aspecto mais visível desta campanha da direita é seu foco nos grupos da sociedade civil israelense que monitoram as ações e decisões do governo. Um projeto de lei já foi aprovado numa votação preliminar no Parlamento para exigir que todas as ONGs israelenses que recebem apoio de governos estrangeiros declarem-se publicamente como “agentes estrangeiros” se buscarem “influenciar a opinião pública ou (…) qualquer autoridade governamental em relação (…) à política externa”. 

Isso significa que todos, dos críticos da ocupação aos defensores dos direitos das mulheres, podem ser considerados “agentes estrangeiros” se aceitarem apoio financeiro norte-americano ou europeu. Isso poderia impedir seriamente as críticas domésticas contra os assentamentos israelenses e as políticas de ocupação. 

A guinada para a direita da sociedade israelense está mudando o formato de instituições fundamentais do Estado. As Forças de Defesa de Israel estão tão repletas de assentados religiosos e seus partidários – cerca de um terço dos soldados de infantaria, segundo alguns relatos – que é provável que não se possa mais contar com elas para deter à força as massas de assentados. O chefe do Exército, Gabi Ashkenazi, pediu ao governo que evite conferir essas tarefas às Forças de Defesa. 

Na frente legal, o governo não fez cumprir as ordens do Supremo Tribunal para desmantelar partes da cerca de segurança consideradas ilegais na Cisjordânia, ou para remover postos de assentamento não autorizados e outras estruturas na parte árabe do leste de Jerusalém e para fornecer oportunidades de ensino iguais para as crianças árabes de Jerusalém. O chefe de Justiça do Supremo Tribunal Dorit Beinisch recentemente se sentiu compelido a lembrar o governo de que as decisões do tribunal “não são recomendações”. 

A coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu parece quase que programada para provocar. O comando da Segurança Interna e dos Assuntos de Exterior está nas mãos do Yisrael Beiteinu (Israel é Nosso Lar), o partido de base imigrante russa cujo líder, o ministro do Exterior Avigdor Lieberman, é conhecido por seus ataques aos árabes e está sendo investigado por corrupção. A pasta da moradia está nas mãos do Shas, um partido cuja base está na comunidade sefárdica ortodoxa de baixa renda – daí a construção de moradias em lugares como Ramat Shlomo no leste de Jerusalém, onde a terra é barata. 

É claro, Israel têm alguns inimigos de verdade. Irã, o Hamas e o Hezbollah apresentam ameaças cada vez maiores ao povo de Israel. Mas a postura de extrema direita leva o governo a ignorar oportunidades genuínas para o progresso em direção à paz, como a bem sucedida empreitada de construção do Estado por parte do primeiro ministro da Autoridade Palestina, Salam Fayyad, na Cisjordânia, ou as repetidas ofertas da Síria para renovar o processo de paz que poderia, se bem sucedido, representar um golpe contra o Irã e seus aliados. 

Nesse contexto, os sucessos ocasionais de segurança em Israel, como em Gaza no ano passado, fortalecem perversamente o crescimento de uma campanha internacional para deslegitimá-lo. 

O governo de Netanyahu reclama em alto e bom som do fato de os palestinos incitarem seu povo contra os judeus (o que, na verdade, está diminuindo) enquanto suas políticas encorajam ou ignoram o crescente sentimento antiárabe em Israel. 

Se 80% dos estudantes das escolas secundárias religiosas querem privar os cidadãos árabes de Israel (um quinto da população) de seus direitos, como mostrou uma pesquisa recente, isso significa que suas escolas devem estar lhes ensinando alguma coisa muito errada. Se o chefe espiritual do partido Shas, Rabbi Ovadia Yosef, pode dizer a seu imenso rebanho de fieis, como fez no ano passado, que a religião dos muçulmanos é “tão feia quanto os próprios”, e não causar nada além de sorrisos constrangidos, é porque o Shas é membro da coalizão do governo. Mas, se por outro lado, a ONG da qual eu participo reclamar dessas declarações, eu poderei ser em breve rotulado como um agente estrangeiro. 

Mas ainda existe uma verdade redentora: os israelenses sabem que precisam não só do apoio dos EUA para sua segurança, mas também da aprovação norte-americana à sociedade judaica e democrática a que eles aspiram. Um interesse crucial dos EUA e da comunidade internacional pela estabilidade regional está em jogo aqui. 

(Yossi Alpher, ex-diretor do Centro Jaffee para Estudos Estratégicos na Universidade de Tel Aviv, é coeditor do bitterlemons.org)

Tradutor: Eloise De Vylder

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