Música serve como ponte entre a China e Taiwan

Eloise De Vylder

Em Dalin (Taiwan)

Quando um grupo musical de Taiwan apresentou sua reconstrução do que teria sido a música da época da corte imperial chinesa, no ano passado em Pequim, o episódio foi um marco não só cultural, mas também político.

O concerto ofereceu uma oportunidade rara para ouvir sons ancestrais resgatados de uma tradição musical quase desaparecida. O gênero conhecido como yayue, ou “música elegante”, de três mil anos de idade, desapareceu com o colapso da dinastia chinesa em 1911, e quase sucumbiu ao ataque maoísta aos elementos “feudais” do passado chinês.

Mas também foi uma oportunidade para que ambos os lados separados pelo estreito de Taiwan, há muito divididos, comparassem suas observações sobre quais partes de sua herança cultural chinesa foram preservadas, ou não.

“A resposta do público foi bem forte. Muitos estavam ouvindo essa música pela primeira vez”, disse Xie Jiaxing, diretor do Conservatório da China em Pequim, que convidou o Yayue Ensemble da Universidade de Nanhua para se apresentar na capital.

“Por motivos políticos, não fizemos muitas pesquisas sobre o yayue”, disse Xie. “A Universidade de Nanhua em Taiwan fez um ótimo trabalho nesse sentido. Depois, nossos alunos escreveram para a escola dizendo que estavam felizes de descobrir tamanho tesouro da cultura ancestral chinesa, muito embora eles na verdade não o compreendam.”

A vitória comunista na guerra civil chinesa em 1949 e a fuga das forças derrotadas do Kuomintang para Taiwan foi seguida por décadas de tensa separação. Taiwan se considera uma ilha autogovernada, enquanto a China a vê como uma província renegada.

Uma trégua, que primeiro tomou a forma de laços econômicos, reuniu forças no começo de 2008 com a eleição em Taiwan do presidente Ma Ying-jeou, que transformou a melhora nas relações num marco de seu governo. Floresceram os voos diretos, o turismo e trocas culturais cada vez mais frequentes.

Embora Taiwan costume se orgulhar de ser guardiã da tradição chinesa, até recentemente estava afastada das raízes culturais do continente. A China continental, por outro lado, cortou os laços com seu passado sob muitos aspectos. As trocas permitem que ambos os lados preencham as lacunas. O ano passado teve exibições e apresentações impossíveis de se imaginar há pouco tempo.

Em outubro passado, o Palace Museum em Pequim e o National Palace Museum de Taiwan fizeram sua primeira mostra conjunta em Taipei, exibindo pinturas e outros tesouros da coleção imperial que ficou por muito tempo fragmentada.

Os dois museus também estão aumentando a cooperação, coordenando seus catálogos e sites, e compartilhando sua experiência em preservar e restaurar artefatos.

Em março, o diretor chinês internacionalmente conhecido Zhang Yimou encenou sua produção da ópera “Turandot” de Puccini em Taiwan, executada por cantores do continente e instrumentistas de Taiwan.

Governos de províncias do continente têm enviado delegações a Taiwan para promover o investimento, o comércio e o turismo, e cada um deles leva amostras de sua cultura local, algumas das quais jamais haviam sido vistas em Taiwan.

A província de Henan levou monges do Tempo Shaolin que demonstraram suas habilidades nas artes marciais. A província de Guizhou mostrou um de seus produtos mais famosos – a bebida alcoólica Maotai, que ainda é proibida em Taiwan – mas também roupas, artesanato e danças de suas muitas minorias étnicas.

Chou Ju-mu, 20, estudante de moda de Taipei que visitou a recente exibição Guizhou, diz ter ficado maravilhada com os bordados intrincados, batiques e ornamentos de prata finos como papel. “Nós só aprendemos sobre a China continental nos livros”, diz ela. “Só agora podemos ver essas coisas ao vivo.”

Joseph Lee, empresário que também foi à exibição, concordou, dizendo que muitos aspectos da cultura chinesa continuam desconhecidos para os taiwaneses comuns. “Nós conhecemos mais a cultura do Japão, da Coreia do Sul, Cingapura, Estados Unidos ou Canadá do que da China continental.”

Isso está mudando. Banners que costumavam promover apresentações artísticas ocidentais ou japonesas nas principais ruas de Taipei agora divulgam apresentações da Orquestra Sinfônica de Xangai ou de uma trupe de ópera Kunqu.

Até um cantor do Exército Popular de Libertação ganhou um show na cidade.

Esses eventos não acontecem sem nenhuma controvérsia ou críticas, especialmente por parte do principal partido da oposição de Taiwan e de outros que suspeitam que a abertura chinesa, e mesmo as trocas culturais, podem ter como objetivo fazer com que a ilha passe para seu comando.

Entretanto, Chen Huei-ying, diretor-geral do departamento de cultura e educação do Conselho de Assuntos Continentais, órgão governamental de Taiwan responsável pelas políticas em relação à China, vê benefícios. “As trocas culturais colaboram para o desenvolvimento pacífico e as relações entre os dois lados do estreito”, diz ele.

“Elas aumentam a compreensão e a apreciação entre os dois lados e melhoram os sentimentos que as pessoas têm umas pelas outras.”

Elas também permitem que os visitantes da China continental vejam como sua cultura evoluiu em Taiwan, livre das campanhas comunistas contra muitos dos costumes tradicionais.

Algumas tradições populares – como o culto a Mazu, a deusa do mar – prosperam em Taiwan de uma forma que não existe mais na China continental. Os templos chineses estão buscando ajuda de seus colegas taiwaneses para ressuscitar os festivais de Mazu.

No caso do yayue, a música clássica da corte, as trocas geram uma discussão vivaz, e nem sempre o consenso.

A apresentação de yayue feita em Pequim no outono passado foi o ápice de 15 anos de pesquisa de Chou Chun-yi, chefe do Yayue Ensemble na Universidade de Nanhua, em Dalin.

A influência da China imperial sobre seus vizinhos foi tamanha que variações dessas formas musicais e instrumentos chegaram às cortes da Coreia, Japão e Vietnã. Chou viajou a esses países em busca de pistas de quais instrumentos deveriam ser usados, de como a música deveria soar e como deveriam ser os passos da dança que a acompanha. Mas ele também fez inúmeras viagens à China continental, onde estudou os instrumentos antigos desenterrados de tumbas e fez réplicas deles.

“Um povo não pode existir sem sua história”, diz Chou. “O Japão e e Coreia do Sul podem tocar coisas de mil anos trás. Por que nós não podemos?”

A Televisão Central da China, estatal, transmitiu um programa especial sobre o concerto e entrevistou Chou. Ele sustenta que esta foi a primeira vez que muitos chineses ouviram falar desse tipo de música de seus próprios ancestrais.

Peng Qingtao, diretor do comitê de pesquisa de materiais do Departamento de Relíquias Culturais de Qufu, cidade natal de Confúcio, reconhece que a maior parte do que se passa por música ancestral na China de hoje pode não ser genuína. Mas ele se pergunta o quanto autênticas podem ser as apresentações exaustivamente pesquisadas de Chou.

“Não há gravações das músicas”, disse Pen. “Mesmo as notações musicais eram feitas num sistema diferente do que usamos agora. Então é impossível que qualquer interpretação seja totalmente autêntica.”

Ele disse que a China também tem muito a oferecer a Taiwan em termos de cultura tradicional.

“Nós fazíamos cerimônias para homenagear Confúcio aqui durante dois mil anos, que só foram interrompidas em 1949, então não é correto dizer que toda a cultura chinesa desapareceu da China”, disse Peng, referindo-se ao ano em que Mao Tse-tung fundou a República Popular da China.

“Ainda temos documentos que mostram exatamente onde os músicos ficavam, e os avisos enviados antes das cerimônias em que o yayue era tocado”, diz Peng.

“Isso não foi totalmente destruído na Revolução Cultural”, diz ele, referindo-se à campanha de 1966 a 1976 em que os guardas vermelhos destruíram os túmulos de Confúcio e de seus descendentes.

Enquanto isso, os dois lados estão compartilhando sua compreensão do yayue. Em parte por causa da apresentação em Pequim, o Conservatório da China planeja montar seu próprio centro de pesquisa do yayue no final do ano e convidou Chou para ajudar na tarefa.

“Vale a pena estudar e ressuscitar o yayue. É um dos tesouros de nossa cultura antiga”, disse Xie, diretor do conservatório. “Essas trocas são boas. Elas aprofundarão nossa compreensão da cultura tradicional chinesa.”

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