China, Índia e EUA querem ser potências no futebol, mas esquecem de deixar os jovens talentos florescerem

Rob Hughes

  • AP

    O jogador argentino Lionel Messi, do Barcelona, comemora gol marcado em jogo contra o Real Madrid, na Espanha

    O jogador argentino Lionel Messi, do Barcelona, comemora gol marcado em jogo contra o Real Madrid, na Espanha

A China acabou de anunciar um plano quinquenal para recrutar 500 jovens e enviá-los ao exterior, principalmente à Espanha, para que treinem futebol.

Os Estados Unidos acabam de escolher Claudio Reyna, o melhor jogador da história do futebol norte-americano, como diretor técnico da seleção juvenil.

A Índia, fascinada pelo críquete, e atualmente entediada com este esporte, procura há anos encontrar uma forma de mergulhar no fascínio global pelo futebol.

Todo mundo está fazendo isso. Todos estão tentando encontrar o próximo Lionel Messi.

Imaginem como o mapa demográfico desse esporte se modificaria se esses três gigantes, que juntos abrigam a metade da população do planeta, pudessem cada um criar uma “geração dourada” do futebol.

Se for possível aprender esportes – em vez de os talentos simplesmente emergirem onde a sorte ditar –, não há como apostar contra a possibilidade de esses países tornarem-se uma força do futebol global em um futuro próximo.

O novo diretor da estrutura do futebol na China, contratado ostensivamente para acabar com a corrupção do esporte no país, parece acreditar que a resposta para os problemas consiste em investir no desenvolvimento dos jovens jogadores. De forma semelhante ao sistema da velha Alemanha Oriental, e assim como o sucesso chinês nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, o sistema depende do recrutamento e do treinamento de crianças às centenas, promovendo os melhores e descartando o restante.

O diretor da Associação Chinesa de Futebol, Wei Di, pode ter sido bem aconselhado ao escolher clubes espanhois como os focos para o treinamento dos seus futuros craques. A Espanha, e não apenas o F.C. Barcelona, tem um histórico comprovado de sucesso no investimento no futebol juvenil – conforme provavelmente veremos na Copa do Mundo de 2010.

E os jogadores chineses, conforme observa a associação chinesa, possuem biotipos semelhantes aos dos espanhóis Xavi Hernandez, Andres Iniesta, Cesc Fabregas e muitos outros jogadores treinados no Barcelona.

Messi é diferente porque ele veio da Argentina para a renomada academia do Barcelona, La Masia, quando tinha 13 anos de idade. O talento de Messi foi identificado pelo seu pai, Jorge, quando ele mal tinha saído do berço, e passou a ser adorado pelo seu time local, o Newell’s Old Boys, que abriu as portas do sua escola de treinamento juvenil básico para Messi quando este tinha apenas seis anos de idade.

Mas ainda bem que os indivíduos que trabalhavam lá em regime de meio expediente – um fisioterapeuta, um mecânico, um gerente de uma fábrica de embalagens – conheciam um fato muito importante a respeito do garoto.

“Messi não foi treinado. Ele nasceu desse jeito”, diz o mecânico Ernesto Vecchio, em um documentário, “Las Origenes de Messi”, que rastreia as origens do mais evidente talento do futebol mundial.

Vejam aquele documentário, dirigido por Michael Robinson, e maravilhem-se com a humildade de todos os indivíduos a volta de Messi, dos seus pais aos seus mentores. Essencialmente, eles sabiam do que o garoto era capaz de se tornar, e sabiam também que o melhor que poderiam fazer era simplesmente deixar que ele se desenvolvesse – nas ruas, nos parques, no pátio poeirento onde ele e a bola eram amigos inseparáveis.

Isso faz lembrar um livro, publicado em 1970 e há muito tempo esgotado, escrito por Nils Middelboe, um banqueiro dinamarquês que jogou como amador pelo Chelsea em 1913. As últimas linhas do livrinho, “Common Sense About Soccer” (“Senso Comum Sobre o Futebol”), são inesquecíveis.

Ele usou a frase “sistematizar é esterilizar” ao implorar aos técnicos que não sobrecarregassem as crianças com teorias, que não estragassem a alegria que elas sentem, deixando que a imaginação dos pequenos atletas os guiasse com a bola. Mesmo naquela época, nas décadas de cinquenta e sessenta, Middelboe temia a arregimentação dos adultos impondo controle sobre as crianças.

Nós vemos essa gente por toda parte, das primeiras divisões dos países de grande tradição futebolística aos campos escolares onde as crianças jogam: indivíduos antiquados e sem imaginação admoestando os jogadores pelo crime de fazerem aquilo que vem naturalmente, em vez de obedecerem as ordens que recebem.

O plano que a China adotou consistirá em inserir um contingente de jovens de 15 a 17 anos de idade nas estruturas dos principais clubes europeus. Nos Estados Unidos, eles sabem que isso só é possível em uma idade avançada demais para que os seus objetivos sejam atingidos.

Sunil Gulati, o presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos, que contratou Reyna neste mês, está pensando em crianças bem mais jovens. Ele pediu a Reyna que desse início àquilo que a federação chama de Zona 1, o período de formação que vai dos seis aos 12 anos de idade.

Reyna, assim como Messi, tem na Argentina a fonte do seu talento e do seu estilo de jogo. O seu pai, Miguel, mudou-se daquele país para o Estado norte-americano de Nova Jersey antes de Reyna nascer e matriculou-o na Escola Preparatória Saint Benedict, cujo programa de futebol produziu dois dos melhores jogadores de origem hispânica da história do futebol norte-americano: Tab Ramos e Reyna.

Na verdade, pode ser que haja um outro legado em processo de formação, porque antes que a federação o convocasse, Reyna tinha criado a sua própria fundação, com o objetivo de fornecer treinamento futebolístico a crianças pobres.

A ideia dele, que motivou Middelboe a escrever um livro, é transmitir o conhecimento obtido por Reyna no decorrer de uma carreira como jogador na Inglaterra, na Alemanha e na Escócia, e na sua temporada final em Nova York. E a federação vê nele um exemplo para a nova geração, baseado no seu recorde de liderança com os seus 112 gols marcados pela seleção nacional dos Estados Unidos.

O rumo que a China e os Estados Unidos tomarem – e que a Índia cogita – poderá alterar o futuro do futebol mundial. Ou ele poderá repetir os mesmos velhos erros, ao reproduzir os mesmos caminhos de doutrinação que fizeram com que o futebol ficasse exatamente daquela forma que Middelboe temia: demasiadamente estruturado e sistemático.

A Inglaterra, onde Middelboe jogou por amor e recusou o dinheiro, ajudou a disseminar o esporte pelo mundo um século atrás. Mas a obsessão inglesa em dizer a todos como jogar, em como estruturar as linhas do jogo, só teve sucesso uma vez, em 1966, em uma Copa do Mundo, e desde então deixou a desejar.

E por que outro motivo os principais times da Inglaterra, como aqueles de outras ligas europeias, gastariam milhões recrutando talentos novos da América do Sul e da África para injetar alguma mágica e imaginação nos seus times?

Se Middelboe ainda fosse vivo, ele constataria que o único responsável pelo sucesso de Messi foi ele próprio, com os seus jogos de rua.

Ele poderia duvidar de que a China obterá mais resultados na Espanha do que obteve enviando um punhado de jovens para treinarem no Brasil, e dos quais ninguém mais ouviu falar.

E ele poderia achar que Reyna, o membro da seleção nacional norte-americana de espírito mais livre, terá uma batalha pela frente, caso decida flexibilizar o currículo usado pelos técnicos de futebol nos Estados Unidos.

UOL Cursos Online

Todos os cursos