Hamid Karzai, o presidente do Afeganistão, quer conversar com o Taleban

James Dobbins

  • Shah Marai/AFP

    O presidente afegão, Hamid Karzai, discursa na Comissão Eleitoral Independente, em Cabul

    O presidente afegão, Hamid Karzai, discursa na Comissão Eleitoral Independente, em Cabul

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, deseja conversar com o Taleban, e esta será uma questão delicada para o presidente Obama quando os dois líderes se reunirem nesta quarta-feira (12).

Algumas autoridades norte-americanas prefeririam que Karzai e o seu governo se concentrassem em atrair combatentes de menor importância para fora da causa insurgente, mas Karzai gostaria de ir direto à liderança máxima do grupo. Ele já se ofereceu para reunir-se com o mulá Muhammad Omar para buscar um fim para o conflito.

No jargão oficial norte-americano, os esforços no sentido de negociar um acordo de paz com a liderança do Taleban foram rotulados de reconciliação, enquanto que o processo de assimilação de combatentes insurgentes é conhecido como reintegração.

Os Estados Unidos preferem a reintegração. Cada insurgente que muda de lado enfraquece o inimigo e fortalece as forças do governo. No Iraque, um processo desse tipo arrasou com a estrutura da insurgência sunita, resultando na deserção maciça de combatentes inimigos, que em 2007 pararam quase que de repente de matar soldados norte-americanos e passaram a trabalhar para estes. Isso foi conseguido sem que os Estados Unidos fizessem concessões quanto à natureza do Estado iraquiano.

A reconciliação exigiria uma acomodação mútua entre duas lideranças afegãs rivais, o que inevitavelmente faria surgir a possibilidade de acordos que preocupam as autoridades norte-americanas e muitos afegãos.

Portanto, é fácil entender porque uma reintegração de baixo para cima seria recebida com maior satisfação pelos Estados Unidos do que uma reconciliação de cima para baixo. Mas existem motivos para duvidar que o modelo iraquiano funcionasse no Afeganistão.

Parte do motivo para tal dúvida é o fato de o Taleban não estar perdendo a guerra. Em 2007, a minoria sunita iraquiana, o menor dos três principais grupos sectários do país, havia sido decisivamente vencido pela maioria xiita. Foi somente após aquela derrota que os sunitas recorreram às forças dos Estados Unidos em busca de proteção. Já a insurgência taleban não se encontra enraizada no menor grupo étnico do Afeganistão, mas sim no mais vasto, formado pela etnia pashtun. Há vários anos, os insurgentes estão vencendo.

No Iraque, em 2007, a Al Qaeda tornou-se bastante impopular entre os seus aliados sunitas devido à natureza indiscriminada da sua violência. Já no Afeganistão, hoje em dia a Al Qaeda encontra-se quase que inteiramente ausente, e certamente não representa uma ameaça comparável à liderança insurgente pashtun.

E, finalmente, as estruturas tribais no Afeganistão foram enfraquecidas por 30 anos de guerra civil. Isso fez com que os anciões afegãos fossem menos influentes do que os xeques iraquianos, que mostraram-se capazes de atrair quase todos os seus aliados quando decidiram passar para o lado norte-americano.

Os líderes norte-americanos não têm sido necessariamente contrários à negociações com a liderança do Taleban, mas a maioria deles argumenta que isso só deveria ser feito a partir de uma posição de força, e que, para qualquer tentativa de reconciliação, dever-se-ia esperar um progresso no campo de batalha. Isso faz sentido caso se tenha uma confiança razoável em que a tendência dessa guerra será invertida. Infelizmente, tal inversão parece cada vez mais difícil de se obter, pelo menos dentro do cronograma estreito estabelecido pelo presidente Obama em novembro do ano passado, que prevê a retirada das tropas norte-americanas até meados de 2011.

Reconhecendo que a sua posição não está necessariamente se fortalecendo, Karzai deseja abrir negociações com a liderança do Taleban neste momento. E esse desejo é compartilhado por vários governos aliados, cujos cidadãos apoiam ainda menos do que o povo estadunidense esta guerra.

Portanto, será que o presidente Obama deveria dar a Karzai um sinal verde para que este mantivesse conversações de alto nível com o inimigo?

Como eu próprio representei os Estados Unidos no final de 2001 nas conferências internacionais nas quais Karzai foi escolhido para liderar o novo governo provisório afegão, tenho plena consciência de que a maior facção política do Afeganistão não foi representada. O Taleban certamente não contava e não conta com o apoio da maioria dos afegãos – ou mesmo da maioria dos pashtuns –, mas, não obstante, ele é a maior e a mais coesa dentre as várias facções afegãs.

Isso não era algo evidente no final de 2001, quando a Aliança do Norte, formada por milícias tadjiques, uzbeques e hazzaras (ou seja, xiitas), derrotou o Taleban com o auxílio do poder aéreo dos Estados Unidos. Mas a natureza incompleta daquela vitória, a capacidade limitada do governo Karzai, e a vitalidade contínua do Taleban tornaram-se desde então mais evidentes.

Assim, faz sentido que os Estados Unidos apoiem Karzai no seu esforço de reconciliação, mesmo que os norte-americanos deem continuidade aos planos do general Stanley McChrystal para uma reintegração. No entanto, ao fazer isso, Obama deveria tentar estabelecer certas regras, e garantir uma abordagem mais ponderada do que aquela que Karzai provavelmente adotará.

Acima de tudo, é preciso que os Estados Unidos estabeleçam certos limites. O governo Bush exigiu três condições para qualquer acordo de paz, diretrizes que a secretária de Estado, Hillary Clinton, recentemente reiterou. Primeiro, os insurgentes precisariam romper todos os vínculos com a Al Qaeda. Segundo, eles deveriam abandonar as suas armas. Terceiro, eles teriam que concordar em atuar dentro daquilo que ficou estabelecido pela atual constituição afegã.

O presidente Obama deveria certamente insistir no corte das relações com a Al Qaeda. Mas, se o Taleban baixar as suas armas, os Estados Unidos retirarão a liderança do movimento da sua lista de capturas e execuções? E as Nações Unidas também removeriam esses indivíduos da sua lista de sanções? A constituição afegã poderia ser emendada como parte do acordo? Karzai terá que saber qual é a posição de Washington em relação a essas questões.

Até o momento, Karzai conversou com os representantes dos insurgentes basicamente por meio do seu irmão. O fato de algo tão importante ser mantido “em família” gerou ansiedades em meio àqueles afegãos que poderão ser os maiores perdedores em qualquer paz negociada, incluindo as minorias não pashtuns, bem como as mulheres e aqueles que apoiaram a emancipação delas. O presidente Obama deveria pedir a Karzai que criasse uma delegação representativa ampla para ajudá-lo a conduzir qualquer negociação. Uma delegação que incluísse os tadjiques, os uzbeques, os hazzaras e as lideranças femininas.

Finalmente, as facções afegãs jamais farão as pazes enquanto os seus patrocinadores estrangeiros fomentarem conflitos. O Paquistão poderia ser capaz de conduzir o Taleban a um acordo de paz, mas isso só faria eclodir uma nova guerra civil, a menos que a Índia, o Irã e a Rússia também fossem capazes de conduzir a velha Aliança do Norte.

O presidente Obama deveria portanto procurar reconstruir o consenso regional que fortaleceu a diplomacia dos Estados Unidos no final de 2001, e que levou à rápida criação do governo Karzai. Desta vez, a comunidade internacional precisa se empenhar para que haja uma paz mais duradoura.

Karzai pretende criar um conselho nacional para assegurar uma autoridade ampla para a sua tentativa de buscar uma solução negociada para a guerra civil. Obama deveria concordar em apoiar essa iniciativa, e ao mesmo tempo construir um apoio internacional mais amplo para o processo.

Mesmo assim, é possível que conversações de paz significativas jamais venham a deslanchar, apesar dos melhores esforços desses dois líderes. E mesmo se tais conversações ocorrerem, os resultados poderão demorar anos para surgir. E o cronograma declarado de Obama para dar início à retirada não deve se transformar em um prazo para essas discussões. Conforme disse Winston Churchill “Jaw-jaw is better than war-war” (algo como “Conversar demais é melhor do que guerrear”). Mas o melhor que se pode esperar por algum tempo é que as conversações comecem a ocorrer simultaneamente à luta.

*James Dobbins é diretor do Centro Internacional de Políticas de Segurança e Defesa da Rand Corporation. Ele atuou como enviado especial dos Estados Unidos ao Afeganistão entre 2001 e 2002.

Tradutor: UOL

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