Em busca de segurança de energética, Europa Oriental se volta para uma nova fonte: o gás de xisto

Judy Dempsey

Em Berlim (Alemanha)

  • David McNew/Getty Images

    Imagem da extração de gás e petróleo em um campo da Califórnia (EUA)

    Imagem da extração de gás e petróleo em um campo da Califórnia (EUA)

As bacias industriais de Lublin e Podlasie, no sudeste da Polônia, estão se transformando em grandes atrativos para gigantes globais de energia que esperam explorar novas fontes para a Europa. 

Empresas como Exxon Mobil, ConocoPhillips e Chevron assinaram acordos ou estão em negociações para concessões do governo polonês para explorar a região em busca de gás de xisto, uma das fontes mais promissoras, apesar de incertas, de energia no planeta. 

E apesar do tamanho exato dos depósitos de gás e o custo de extraí-lo ainda serem em grande parte tema de conjectura, os especialistas concordam que o atrativo imediato do gás de xisto na Europa é político: um desejo de diversificar as fontes de energia para reduzir a dependência da Rússia. 

“O xisto pode ser uma forma de aumentar a segurança de energia da região, dependendo dos resultados de todos esses projetos”, disse Richard Morningstar, emissário especial americano para energia eurasiática, durante uma recente visita à Polônia. “Não é uma questão de ser independente da Rússia. É uma questão de ter uma segurança geral em energia.”

O atrativo do gás de xisto já é conhecido nos Estados Unidos, onde a diversificação é um tema avançado na política de energia. Com a descoberta de grandes depósitos de xisto há vários anos, o gás de xisto atualmente representa quase um quinto da oferta de gás natural americano, em comparação a apenas 1% em 2000, segundo um recente estudo da IHS CERA, um centro independente de pesquisa de energia em Cambridge, Massachusetts. 

O potencial comercial do xisto já está trazendo grande dinheiro à mesa. Em novembro, a Statoil, a companhia estatal de petróleo norueguesa, concordou em pagar US$ 3,4 bilhões por 32,5% dos ativos da Chesapeake Energy no campo Marcellus, um dos maiores de xisto nos Estados Unidos. 

O gás de xisto “é a inovação em energia mais significativa até o momento neste século”, disse a IHT CERA em um recente relatório. “Ele tem o potencial de pelo menos causar uma mudança de paradigma na alimentação do futuro energético da América do Norte.” 

Na Europa, até recentemente, os governos demonstravam pouco interesse no gás de xisto –um gás natural que fica armazenado em rochas organicamente ricas e intercalado com camadas de siltito xistoso e arenito. 

Mas a demanda por gás natural deverá aumentar em todo mundo nos próximos 20 anos, com a Europa precisando dobrar suas importações de gás natural para cerca de 476 bilhões de metros cúbicos, segundo a Cambridge Energy Research Associates. 

O GeoForschungsZentrum ou Instituto GFZ, um centro de pesquisa alemão de geociências em Potsdam, estimou que a Europa possua 14 trilhões de metros cúbicos de gás de xisto, talvez 5% das reservas mundiais. 

A Europa contém “os principais alvos de exploração de gás de xisto”, disse o instituto. Esses alvos incluem a Polônia, Alemanha, Hungria, Romênia e Turquia, países que foram sondados pelas empresas americanas de energia. 

Mas se algum investidor quiser saber os custos e lucro potencial da exploração do gás de xisto na Europa, ele pode esquecer, pelo menos pelos próximos anos, disseram especialistas do setor. 

“É muito difícil saber”, disse Andy Briston, o gerente de área da Halliburton para o continente europeu. A Halliburton já iniciou conversas com várias empresas que planejam realizar prospecção na Polônia. 

“Tudo ainda está em fase de exploração”, ele disse. “Nós deveremos ter alguma ideia nos próximos três a cinco anos.” 

A extração do gás de xisto é muito mais complicada do que a extração dos depósitos tradicionais de gás e muito mais cara. Como os depósitos de gás de xisto são menos concentrados, mais poços precisam ser perfurados para obtenção da mesma quantidade de gás. 

Também há considerações ambientais. A produção de xisto força grandes quantidades de água salobra à superfície, o que significa que a água precisa ser extraída para não contaminar as reservas de água potável locais. 

Todavia, o governo polonês de centro-direita, liderado pelo primeiro-ministro Donald Tusk, decidiu construir um terminal de gás natural liquefeito apesar dos altos custos, e convidou empresas americanas a explorarem o xisto. O gás natural liquefeito viria do Qatar. 

A meta a longo prazo é reduzir a dependência da Polônia da Rússia, que fornece 95% das importações de petróleo da Polônia e 92% de seu petróleo doméstico. 

A Polônia também quer ligar seus oleodutos e gasodutos à Europa Ocidental, particularmente à Alemanha, assim como à Europa Central, para permitir o fornecimento de gás em caso de escassez, como as que ocorreram durante as disputas de energia entre a Rússia e a Ucrânia no final de 2005 e em 2008. 

Acima de tudo, a Polônia tomou a decisão política de trazer empresas estrangeiras para explorar xisto, segundo o Ministério do Meio Ambiente do país. 

O ministério reconheceu que ainda não tem ideia do tamanho de seus depósitos de xisto. “Nós saberemos o mais breve possível, à medida que as empresas que estão recebendo as concessões para exploração dos depósitos concluam seu trabalho”, disse Magdalena Sikorska, a porta-voz do ministério. 

As empresas que receberam as concessões permanecem igualmente caladas a respeito de seu potencial comercial. Nenhuma delas especula quanto tempo a exploração levará ou se faz sentido comercial. 

A Exxon Mobil recebeu cinco concessões diferentes, duas na bacia de Lublin e três na bacia de Podlasie. “As concessões serão avaliadas segundo seu potencial de produzir gás de xisto”, disse Patrick McGinn, um porta-voz da empresa. “Nós não podemos especular quão cedo a atividade de extração começará. Nós não temos como comentar o tamanho potencia do recurso ou as taxas potenciais de produção.” 

A ConocoPhillips recebeu a concessão para exploração de gás de xisto na Bacia Báltica, no norte da Polônia. A Chevron obteve quatro licenças de exploração para cerca de 405 mil hectares na área de Lublin, segundo um porta-voz, Kurt Glaubitz. 

Um motivo para a reticência delas poderia ser o fato dos custos de exploração de óleo de xisto na Europa serem difíceis de quantificar, porque a indústria é muito jovem e, por ora, centrada nos Estados Unidos. 

“Nós estamos falando de uma situação onde qualquer empresa que quiser explorar, sem contar extrair, depende de perícia americana, seja em equipamento, pessoal, know-how”, Ian Cronshaw, chefe de diversificação de energia da Agência Internacional de Energia, em Paris. “Isso pode ser muito, muito caro.” 

“Nós estamos nos estágios iniciais”, ele acrescentou. “Eu não consigo ver o gás de xisto causando qualquer impacto pelo menos nos próximos cinco a sete anos.” 

Mikhail Korchemkin, diretor da East European Gas Analysis, uma empresa de consultoria na Pensilvânia, disse que a falta de informação comercial foi o motivo para as concessões polonesas serem tão importantes. “Os resultados na Polônia mostrarão se é possível recuperar o investimento e a viabilidade comercial”, ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos