Equipes de Fórmula Um reinventam volantes dos carros de corrida

Brad Spurgeon

  • AFP

    John Cooper, que desenvolveu o primeiro motor traseiro em carros de F-1, ao volante de seu carro de corrida, em foto de 1952

    John Cooper, que desenvolveu o primeiro motor traseiro em carros de F-1, ao volante de seu carro de corrida, em foto de 1952

Alguns dos pilotos estudam como fazer isso em um livro, outros aprendem observando fotografias, e há aqueles que fazem tal coisa todas as vezes que têm algum tempo livre. Lewis Hamilton gosta de praticar com os olhos vendados, enquanto que o seu amigo Nico Rosberg afirma usar um modelo do objeto real quando faz suas corridas de condicionamento físico.

Mas, qualquer que seja o método, um dos maiores desafios técnicos para os modernos pilotos de Fórmula Um – especialmente no início da temporada ou quando eles se mudam para uma nova equipe – é aprender de cor as posições, botões e luzes dos seus complicados volantes.

Tendo evoluído a partir de um simples dispositivo de madeira para mover as rodas, o volante transformou-se em um instrumento para regular tudo, como os aerofólios do carro, os seus freios, a regulagem do motor e até mesmo a garrafa de água do piloto.

“No passado, havia apenas um volante; agora o que nós temos é um verdadeiro computador”, explica Jarno Trulli, um dos pilotos da equipe Lotus. “Nós pilotamos o automóvel e temos um computador no volante, portanto é necessário que saibamos exatamente o que está acontecendo e onde colocarmos as mãos a fim de melhorar o controle sobre o carro, com várias regulagens e botões diferentes”.

No entanto, todos os pilotos dizem que para aprender a usar o volante não é necessário que se possua qualquer habilidade especial. Isso é apenas parte do trabalho de um piloto de Fórmula Um atual, que está sempre evoluindo.

“É como se vocês estivessem acostumados a fazer anotações manuscritas em um caderno, e de repente contassem com esse tipo de tecnologia”, afirma Mark Webber, o piloto da Red Bull que venceu o Grande Prêmio da Espanha, em Barcelona, no fim de semana passado, referindo-se aos jornalistas e apontando para o gravador que está sobre a mesa à sua frente.

Porém, um gravador geralmente exige apenas que se apertem dois ou três botões. Já um volante de Fórmula Um é o mais complicado volante de carro existente no mundo. Ele é também muito menor do que o volante de um carro comum, já que exige uma menor rotação em alta velocidade para provocar o mesmo efeito sobre as rodas, e o cockpit do carro de corrida é muito pequeno. Mas o seu pequeno tamanho não facilita o uso de botões, chaves e tela de LCD.

O volante de Fórmula Um também possui uma plataforma para a mudança de marchas e, a alta velocidade, o piloto dispõe de pouco tempo para olhar para ele. O piloti precisa, portanto, memorizar o local em que está situado cada botão e a a forma de ajustá-lo da forma apropriada.

“Olhar para baixo quando se está pilotando é difícil”, diz Trulli. “Tudo diz respeito a saber onde colocar as mãos imediatamente. Você não tem tempo para olhar e escolher. É necessário saber previamente onde colocar as mãos”.

A maioria dos pilotos diz que ocasionalmente aperta o botão errado. Geralmente esse erro consiste em apertar o botão que limita a velocidade do carro no pit-lane – o que é a última coisa que eles desejam quando estão na pista durante uma corrida – ou então deixar de pressionar o mesmo botão quando nos boxes, o que resulta em uma penalização por excesso de velocidade.

Romain Grosjean, que no ano passado pilotou para a equipe Renault, diz que no volante se encontra o aspecto mais difícil do aprendizado em um carro de Fórmula Um. Neste ano, ele passou a disputar o campeonato mundial da classe touring, na qual, segundo Grosjean, o volante é simplesmente um volante, que não pode ser comparado com o de um carro de Fórmula Um.

“Na Fórmula Um, você tem no volante os controles do diferencial, do aerofólio dianteiro, das misturas de combustível, da mudança de rotação do motor e do câmbio”, explica Grosjean. “Isso é um conjunto muito vasto de fatores para o piloto modificar e se ocupar, e aprender a usar esse sistema é algo que leva tempo – entender que tocar um determinado botão resultará em determinado efeito no carro quando este se encontrar em certa parte da pista, em um momento exato”.

O trabalho do piloto é também auxiliado e dificultado pela comunicação de rádio entre ele e engenheiro da equipe, que lhe transmite ordens durante a corrida relativas a que botões usar com base em como o engenheiro percebe como o carro está reagindo.

“As coisas mais importantes que o piloto pode controlar a partir do cockpit são os ajustes do diferencial, o equilíbrio dos freios e o ângulo do aerofólio dianteiro”, diz Alan Permane, o principal engenheiro de corridas da equipe Renault. “À medida que o nível do combustível no tanque cai e o desempenho dos pneus piora, o piloto pode modificar todos esses parâmetros para melhorar o equilíbrio e o controle sobre o carro”.

Porém, como esse sistema é muito complicado, os engenheiros procuram limitar a quantidade de informações que aparecem, por exemplo, na tela de LCD.

“Nós podemos inserir basicamente qualquer informação que desejarmos no display do volante”, explica Mark Slade, engenheiro chefe de corridas de Vitaly Petrov, da equipe Renault. “Mas nós procuramos não sobrecarregar o piloto com questões relacionadas a parâmetros físicos do carro, como temperaturas e pressões. A informação mais crítica que eles desejam são os seus tempos a cada volta, de forma que nós armazenamos o tempo mais rápido e a tela lhes fornece uma atualização contínua do tempo feito na volta atual em relação à melhor volta”.

Em média, os pilotos ajustam o diferencial a cada cinco voltas, mas existem alguns botões que são usados em cada curva. Aprender a usar o volante é algo complicado também pelo fato de cada equipe projetar e construir o seu próprio volante, e os pilotos não terem muita participação nesse processo – com exceção do formato da área de pegada e do estilo da borracha nesta área.

Mas embora os volantes de Fórmula Um estejam se assemelhando cada vez mais a controles de videogames, os motoristas afirmam que não há vantagem alguma para quem é bom nesses tipos de jogos.

“Eu não sinto que os jogos de computadores ajudem”, diz o piloto Heikki Kovalainen. “As duas coisas ainda são muito diferentes. Eu me acostumei ao volante como parte do meu trabalho, e acho que qualquer um que dirigir um carro desses acabará também se acostumando. Isso não é o mesmo que um videogame”.

Para Trulli, os pilotos não mudaram no decorrer dos anos. Segundo ele, o que mudou foi apenas a tecnologia.

“Não, não se trata de pilotos diferentes, e sim de uma era diferente”, afirma Trulli. “Hoje há carros de Fórmula Um assim como 20 anos atrás. É uma questão de nos mantermos atualizados. Eu não creio que há 20 anos alguém fosse capaz de correr os 100 metros em dez segundo. Hoje corre-se muito perto de 9,7 e 9,8 segundos”.

Tradutor: UOL

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