Humanismo ainda é visto como ameaça na China

Didi Kirsten Tatlow

Beijing (China)

  • AP Photo

Quando Han Han, 27, famoso blogueiro, escritor e bad boy da literatura chinesa que adora dirigir carros de corrida e ridicularizar o “establishment”, anunciou o título de sua nova e bastante esperada revista literária no verão passado, ele imediatamente teve que desapontar os fãs.

A “Renascimento” havia sido vetada pelos censores estatais, escreveu Han em seu blog. Ele talvez seja o blogueiro mais popular do mundo – seu site no Sina.com registra mais de 372 milhões de hits, e cada uma das postagens normalmente ultrapassam 1 milhão de hits. “Acho que não haverá nenhum renascimento literário”, brincou no estilo lacônico porém mordaz, que lhe é característico.

Em vez disso, Han planeja chamar sua revista de “Coro Solo”, embora quase um ano depois ela ainda não tenha sido publicada. Agora os censores não estão contentes com o conteúdo, diz ele.

Mais de 500 anos depois que o Renascimento transformou a Europa, desafiando a rigidez do período medieval com o espírito de indagação científica e literária independente que é o humanismo, colocando assim o valor e a dignidade do indivíduo no centro de um novo sistema ético, a própria palavra “renascimento” ainda pode ser um tabu aqui.

Mas o humanismo ao estilo ocidental floresceu na China há um século, trazido pelos alunos chineses de Irving Babbitt, um professor de francês na Universidade de Harvard que reuniu uma espécie de culto entre alguns intelectuais chineses em torno de seus escritos e aulas sobre o humanismo.

Babbitt defende manter as coisas boas do passado. Ele insiste na importância do indivíduo, e no estudo das humanidades.

A abordagem moderada e evolucionária do humanismo entrou em choque com a paixão pelo novo de muitos estudantes, intelectuais e políticos agrupados em torno do Movimento May Fourth na China no começo do século 20. Emm 1949, os revolucionários venceram a discussão quando o Partido Comunista fundou a República Popular da China. Por cerca de três décadas, o humanismo desapareceu do pensamento chinês.

E não é surpresa. O humanismo desafiava diretamente o sistema comunista ao valorizar o indivíduo acima do coletivo. Ele rejeitava a obediência cega à autoridade, quer fosse religiosa ou política.

Secular, ele se opunha a qualquer tipo de divinização, incluindo a de um líder como Mao Tsé-Tung. Sua ênfase no bem-estar humano, na liberdade e na dignidade ameaçavam o controle do partido sobre seus cidadãos. Ele era, diziam os comunistas ortodoxos, uma teoria burguesa da natureza humana.

Hoje, ele está de volta, espalhando-se entre intelectuais, escritores e pessoas comuns num processo que começou há 30 anos, depois da morte de Mao em 1976. Ainda controverso, ele é periodicamente vítima de ataques de um Estado que teme que ele se torne a base de um sistema ético alternativo que desafiará o poder do Partido Comunista. Os obstáculos no caminho do humanismo refletem o desafio de fazer uma mudança intelectual e política na China.

Depois de seis décadas de governo de um só partido, o humanismo se tornou um símbolo da crítica à repressão política, diz Gloria Davies, acadêmica de história intelectual chinesa na Universidade Monash em Melbourne.

“O humanismo tem um alcance grande hoje”, diz ela. “É usado na cultura popular como uma forma de manter algum tipo de integridade em relação à corrupção e à censura.” Davies citou a declaração de Han, “sou apenas um humanista”, que circula amplamente na internet.

“Essa é a chave”, diz Davies. “Em meio a uma censura rígida, as pessoas estão buscando formas mais criativas de tentar e manter a esfera pública e a sociedade civil vivas, então estão recorrendo a palavras como humanismo. Elas sempre podem usar isso como uma forma de crítica.”

É claro, viver de acordo com valores humanos essenciais como o respeito, gentileza e o cuidado com os outros tem profundas raízes no pensamento chinês, e Confúcio e outros filósofos escreveram muito sobre isso.

Em março, o humanismo na China foi discutido numa conferência na própria Universidade de Harvard, onde Babbitt atua. Entre os participantes estavam o eminente historiador Jonathan Spense, o pensador chinês da “Nova Esquerda” Wang Hui e o principal humanista confuciano da universidade, Tu Weiming. O evento, batizado de “Internacional Humanista: Humanismo, China, Globalismo”, concentrou-se na história dos cem anos do humanismo na China. E trouxe algumas surpresas.

O mais influente entre eles foi Wang, um professor da Escola de Humanidades e Ciências Sociais da Universidade Tsinghua. Teórico sofisticado e crítico do atual modelo de desenvolvimento capitalista da China, Wang expressou uma nova e urgente preocupação com o que alguns podem chamar de valores humanistas ultrapassados. Para defender seu ponto, ele se voltou para um texto pouco conhecido de 1908 de Lu Xun, um dos maiores escritores chineses do século 20, que foi apropriado pelos comunistas. Lu Xun, diz Wang, foi na verdade um humanista. Em “Refutando Vozes Malevolentes” sua principal preocupação era encontrar “novas vozes” que falassem a partir do coração, e que falassem a verdade. 

Encontrei Wang depois que ele voltou para a China. Num dia quente e agitado com uma tempestade de areia aproximando-se de Beijing, ele explico suas novas ideias. 

“Uma sociedade saudável precisa de vozes verdadeiras”, diz ele. “E vozes verdadeiras vêm de pessoas verdadeiras.” 

Isso, disse ele, infelizmente falta na China. Para resolver seus problemas, o país precisa de mais discussões abertas e mais pensamento autocrítico. “Muitas pessoas dizem muitas coisas, mas elas não acreditam nessas coisas, elas estão apenas repetindo outras pessoas. A China está cheia de barulho, mas está em silêncio. Não se ouvem vozes de verdade.” 

Yang Yang, professor de literatura chinesa na Universidade Normal do Leste da China em Xangai, levantou outra questão problemática na conferência. Será que a China evoluiu de alguma forma, filosoficamente, desde a época de Babbitt? Citando a penetração do humanismo em um número cada vez maior de publicações em língua chinesa, ele perguntou: “Será que depois da passagem do século, a busca por uma cultura moderna chinesa voltou novamente a seu ponto de partida?” 

Na capa do livro mais recente de Wang, “Em Busca de Novas Vozes”, um homem olha para dentro de um poço com um par de binóculos. Explorando profundamente, ele está buscando um caminho para o futuro, um caminho margeado por vozes verdadeiras que falam a partir do coração. Isso, pode-se dizer, é o que os humanistas da China, os intelectuais, os blogueiros que dirigem carros de corrida e as pessoas comuns estão lutando para fazer hoje.

Tradutor: Eloise De Vylder

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