Continente asiático sobrevive à crise financeira europeia

Dominique Dwor Frecaut*

Em Cingapura

  • AFP

O pacote trilionário de socorro econômico criado neste mês pelos países da zona do euro proporcionou a eles um alívio temporário, mas a medida também prejudicou a credibilidade desses países. O sonho europeu de substituir os Estados Unidos como o fornecedor da principal moeda de reserva mundial parece agora inatingível.

Mas é improvável que a Ásia – onde atualmente várias economias encontram-se mais fortes do que as dos Estados Unidos e da Europa –, pelo menos por ora, forneça a próxima moeda mundial porque a sua ascensão econômica não foi acompanhada por um desenvolvimento financeiro correspondente.

A crise financeira global pode ter se originado nas economias avançadas, e não em mercados emergentes, mas a Ásia não deve se esquivar de buscar a liberalização financeira.

Até recentemente, a fatia do euro como reserva monetária global vinha crescendo – de 9% desde a sua criação, em 1999, para 27% no ano passado – em detrimento do dólar, cuja parcela representativa como reserva mundial sofreu uma queda equivalente ao crescimento do euro, tendo chegado a 61% no ano passado. Agora essas tendências deverão ser interrompidas, ou até mesmo revertidas.

O dólar continua sendo a principal moeda de reserva mundial, embora isto ocorra mais devido à tradição do que a uma escolha. A dívida pública e o déficit dos Estados Unidos, em relação ao tamanho da economia do país, são equivalentes à dívida e ao déficit de Portugal. O sistema bancário dos Estados Unidos não está inteiramente recuperado da crise, e os prejuízos no setor de empréstimos para a aquisição de imóveis comerciais estão crescendo.

Mas o dólar estadunidense conta com uma vantagem formidável: se os países pararem de investir as suas reservas estrangeiras em dólares, as suas moedas experimentarão uma valorização em relação ao dólar, e eles sofrerão perdas de capital devido às suas grandes reservas em dólares. Essas perdas de capital poderiam ser elevadas em países como a China e a Malásia, que possuem substanciais reservas de moeda estrangeira.

Os Estados Unidos também possuem o maior e mais profundo mercado de títulos de governo do mundo (e também aquele dotado de maior liquidez).

Portanto, apesar de todas as suas debilidades fundamentais, os Estados Unidos continuam sendo o abrigo seguro a ser utilizado como último recurso. É por isso que, ainda que a crise global tenha se originado nos Estados Unidos, o dólar experimentou uma valorização todas as vezes em que os mercados globais sofreram uma queda.

Além disso, dois terços do comércio global são efetuados em dólares. Isso reflete o antigo domínio econômico dos Estados Unidos, que até 2003 era a maior exportador do mundo (antes de ter sido superado pela Alemanha e pela China).

A ascensão da China no ano passado para tornar-se o maior exportador mundial é um fato que simboliza o crescente poder econômico da Ásia. Com a exceção do Japão, a Ásia responde atualmente por um quarto da economia mundial e por um terço dos produtos manufaturados que são exportados.

Mas a Ásia (novamente, excluindo o Japão) responde por apenas 12% da atividade dos mercados globais de câmbio, por 6% de títulos domésticos e por 2% de títulos globais.

Isso reflete precariedades institucionais e regulatórias, bem como uma participação estrangeira limitada nos mercados de ações asiáticos. O desenvolvimento do mercado de títulos, que é crucial caso a Ásia deseje ser a detentora da próxima reserva monetária global, tem sido limitado por fatores como padrões contábeis que não são internacionalmente reconhecidos, uma falta de mecanismos de hedging e restrições à participação estrangeira.

Uma maior participação estrangeira poderia ajudar os mercados de títulos da Ásia a atingir o tamanho e a profundidade que são exigidos caso o continente queira um dia fornecer uma moeda de reserva global. Isso diversificaria a base de investimentos e aumentaria o tamanho e a liquidez do seu mercado. E poderia também contribuir para a adoção de padrões globais para as práticas e regulações de mercado.

Além disso, mercados de dívida mais abertos poderiam permitir que ações de primeira linha quase soberanas e globais emitissem títulos de dívida nos mercados asiáticos. Isso aumentaria o suprimento de títulos asiático que, paradoxalmente, tem sido limitado pelos índices elevados de poupança pública e privada.

As medidas que precisariam ser implementadas variam de um país para outro.

Na China e na Índia, onde a participação estrangeira no mercado de títulos é muito limitada, seria necessária conceder aos investidores estrangeiros acesso pleno aos mercados.

A Coreia do Sul, que possui um dos mercados de títulos mais desenvolvidos e abertos da região, iria se beneficiar de uma maior participação nos índices de títulos globais. Ela também beneficiar-se-ia de um abrandamento das regras cambiais que dariam aos investidores estrangeiros mais flexibilidade para gerenciar os riscos cambiais.

Essas mudanças intensificariam o fluxo de capital para a Ásia e provavelmente levariam a uma valorização monetária. Mas tal valorização ajudaria a Ásia a reduzir a sua dependência da demanda externa em um momento em que é provável que tal demanda diminua no médio prazo, à medida que países em crise aumentam as suas poupanças para reduzir o endividamento público e privado.

No longo prazo, a valorização de moedas asiáticas parece ser algo inevitável. Como não passaram por crises financeiras, as economias asiáticas provavelmente continuarão crescendo em um ritmo mais acelerado do que o das economias avançadas. E isso deverá se refletir, cedo ou tarde, em valorizações monetárias.

A crise de crédito de 2008 e 2009 deu uma má fama aos fluxos de capital aberto. Alguns acham que essa abertura permitiu que o excesso de poupança da Ásia fluísse para os Estados Unidos e plantasse as sementes da instabilidade financeira. Mas é mais provável que a supervisão e a regulação financeiras deficientes e as ineficiências do setor financeiro tenham contribuído mais do que o fluxo de capital para causar a crise dos Estados Unidos. Hong Kong e Cingapura, que são inteiramente abertos à entrada de capital, também possuem sistemas bancários que estão entre os mais robustos do mundo.

Com uma forte regulação e supervisão financeira, a Ásia poderia tornar-se mais aberta às entradas de capital sem experimentar instabilidade financeira. A China ficaria em uma melhor situação caso a entrada de capital assumisse a forma de investimentos legais nos seus mercados de títulos, em vez de se constituir em fluxos de “hot money” não registrados, como acontece atualmente.

O aprofundamento financeiro pelo qual a Ásia precisará passar caso queira fornecer a próxima moeda de reserva global se constitui em um processo de longo prazo.

É por esse motivo que a Ásia não deve permitir que a crise europeia de dívidas atrapalhe o seu progresso. A Ásia necessita dar continuidade à liberalização financeira caso queira um dia ver o seu poder financeiro equiparar-se à sua força econômica. 

*Dominique Dwor-Frecaut é economista do Royal Bank of Scotland

Tradutor: UOL

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