Filipinas tem história política de esperanças e decepções

Miguel Syjuco

  • Bullit Marquez/AP

    O candidato presidencial Benigno Aquino III é saudado por simpatizantes e correligionários durante chegada à zona eleitoral em Hacienda Luisita, província de Tarlac, no norte das Filipinas

    O candidato presidencial Benigno Aquino III é saudado por simpatizantes e correligionários durante chegada à zona eleitoral em Hacienda Luisita, província de Tarlac, no norte das Filipinas

Antigamente, tudo fazia sentido, Ferdinand Marcos era maligno, Benigno Aquino era bom. A pobreza foi provocada pelo ditador e pela sua Borboleta de Ferro, Imelda. A nação de progresso mais rápido na região transformou-se no “indivíduo doente da Ásia” devido apenas ao fato de não contar com democracia. Não existe desculpa melhor para os problemas de um país do que um déspota no poder.

As eleições da semana passada, no entanto, provaram que as coisas não estão tão simples assim para nós. Se de fato elas algum dia já foram simples.

Durante o período Marcos, a minha família vivia em Vancouver. A minha memória mais antiga de ser filipino refere-se à imagem dos meus pais assistindo atentamente à televisão. Indivíduos de roupas amarelas concentraram-se em Manila, dando os braços, rezando e cantando. Na “AEDS” (Avenida Epifânio dos Santos), eles confrontaram pacificamente os soldados. Eu me lembro de que o apresentador do telejornal naquela noite declarou: “Nós, norte-americanos, gostamos de acreditar que fomos nós que ensinamos a democracia aos filipinos. Bem, hoje à noite eles estão ensinando o mundo”.

Em 1986, o “Poder Popular” repudiou a fraude eleitoral de Marcos e escolheu como presidente Corazon Aquino, a viúva do martirizado Benigno. A Revolução AEDS inspirou o mundo. Ela foi pacífica, limpa e simples. E ela trouxe a minha família para um país cheio de esperança.

Nos meus primeiros anos de volta às Filipinas, eu vi muitas coisas ilógicas. Nas ruas, crianças da minha idade cheiravam cola e mendigavam com os olhos vítreos. Ao lado da igreja, leprosos pediam moedas. No governo, astros de cinema, apresentadores de televisão e jogadores de basquete dominavam. O meu pai ingressou na política, e eu conheci a pobreza profunda durante a campanha eleitoral. Golpes fracassados abalaram o governo Aquino. Era fácil simpatizar com a presidente e compreender a bagunça que ela havia herdado dos seus antecessores.

Em 1992, eu vi um outro herói da Revolução AEDS, Fidel Ramos, o presidente democraticamente eleito. O seu governo nos lançou vagarosamente na direção do “Filipinas 2000”, um plano para nos transformar em um país industrializado.

Depois dos seis anos de mandato de Ramos, o ator Joseph Estrada ganhou a disputa pela presidência. Apesar de dúvidas quanto à sua capacidade e integridade, a sua vitória esmagadora pareceu ser um elemento de validação dos movimentos de massa e da democracia. Mas a esperança se desfez rapidamente. À medida que os fracassos de Estrada transformavam-se em crimes ostensivos, os Filipinos deparavam-se com um líder que os traiu. Novamente.

Assim como aconteceu com Marcos, o governo de Estrada reforçou a visão simplista de um cenário composto pelo bem e pelo mal, como valores absolutos. Estrada representava nitidamente este último, com as suas amantes, o seu desdém pela respeitabilidade, e os capangas do seu “Gabinete da Meia-Noite” se esbaldando em jantares às altas horas da noite e consumindo caixas de Chateau Petrus. Os escândalos levaram a acusações de corrupção e ao impeachment.

No início de 2001, durante a Segunda Revolução AEDS, eu me juntei às milhares de pessoas que faziam passeatas contra Estrada. Os seus aliados no Congresso estavam manipulando o seu julgamento, e se recusavam a abrir um envelope que se acreditava conter provas arrasadoras contra o presidente. Nós convergimos para a AEDS, no local em que fica a estátua da Virgem que comemora os acontecimentos de 1986. Músicas foram entoadas, a multidão rezou e aviões de caça cortaram o céu com estrondo em um sinal de que as forças armadas haviam mudado de lado. Estrada foi deposto. A sua vice-presidente, Gloria Macapagal Arroyo, assumiu o cargo dele em meio a comemorações. Estrada foi condenado à prisão perpétua por pilhagem.

Naquele ano, quando eu deixei o país para estudar no exterior, o clima era novamente de esperança. Arroyo parecia ser uma pessoa diferente. Em um país no qual a corrupção pode ser considerada uma necessidade tolerável para que se possa sobreviver, ela era suficientemente rica para desprezar o roubo de dinheiro público. Arroyo foi colega de classe de Bill Clinton na Universidade de Georgetown e era Ph. D. em economia. Eu frequentei a escola com os filhos dela, e eles pareciam ser pessoas decentes.

No entanto, em 2004, Arroyo renegou a sua promessa de não tentar se reeleger. Ela enfrentou Fernando Poe Jr., um ator icônico e amigo de Estrada. A vitória de Poe provavelmente resultaria em um perdão a Estrada, e o ciclo de decepções continuaria. Um fato engraçado em relação à esperança é que ela pode conferir aos indivíduos uma visão de túnel: alegações de que Arroyo fraudou a eleição pareceram, para mim, o menos pior de dois males – como se fosse melhor ter pessoas boas trapaceando do que pessoas ruins ganhando de forma justa. A bondade de Arroyo, no entanto, estava desaparecendo, de forma gradual e, a seguir, rapidamente.

No início era fácil repelir os escândalos alegando que eles não passavam de propagandas sujas feitas pelos apoiadores de Estrada. Mas as alegações foram se tornando quilométricas. As respostas dela tornaram-se indiferentes. A popularidade de Arroyo despencou para patamares mais baixos do que o de qualquer presidente desde Marcos.

Eu, da mesma forma que muitas outras pessoas, vi as Filipinas rumando para um beco sem saída. Se esta presidente tinha nos traído, quem mais restaria para nos tirar dos buracos cavados pelos seus antecessores? Na verdade, muitos dos indivíduos que se opunham a Arroyo foram aqueles que aprovaram a roubalheira de Estrada. O maior exemplo de lógica distorcida que eu aprendi com a política filipina foi que pessoas ruins agindo de forma egoísta podem às vezes mover-se rumo a ações que beneficiam o bem comum.

Mas, e quanto às linhas divisórias claras entre o bem e o mal? Eu ainda me pergunto: quem era corrupto, Arroyo ou o sistema? Esta é uma questão importante para o próximo presidente.

Agora nós chegamos a Benigno “Noynoy” Aquino III, filho de um mártir e um santo da democracia. Entrando na disputa política depois que a sua mãe, Corazon Aquino, morreu no ano passado, a popularidade de Noynoy deve-se à sua aparente integridade, à escassez de alternativas palatáveis e à ostentação da marca Aquino. Os seus críticos argumentam que dar poder a ele significa apenas retornar às mesmas elites que nos traíram durante o último século.

Por mais nobres que possam ser as intenções de Aquino, ele se depara agora com um campo minado de corrupção, apadrinhamentos políticos e mudanças de lealdades políticas. E Arroyo está circulando como se fosse um vírus ruim – ela ganhou uma cadeira no Congresso e está se movimentando para ser a líder da câmara. Conforme os Marcos demonstraram, sempre existe um segundo ato no teatro da política filipina.

Assim como Ferdinand acabou fazendo com que Corazon se elegesse, Gloria tornou possível a nossa fé em Noynoy. Não existe nada como um déspota para simplificar as escolhas. Mas esse ciclo recorrente de otimismo e desilusões transformou os filipinos em cínicos. E o cinismo, para fazer uma paráfrase, é o último refúgio dos otimistas.

Em um país no qual a celebridade atropela a ideologia, ninguém sabe se o poder de astro de Noynoy dará lugar ao idealismo que nós esperamos que ele possua. E, se a experiência nos ensinou algo, nada ocorre tão facilmente assim. Noventa milhões de pessoas estão observando e aguardando. Por favor, Noynoy, não nos decepcione.

(Miguel Syjuco é o autor de “Ilustrado”, um livro de ficção sobre a política filipina)

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