Ministros da UE esperam que crise traga proximidade

Setephen Castle

Em Berlim

  • 22.03.2007 - AFP

    Homem se protege sob guarda-chuva com o logotipo da União Europeia, em Berlim (Alemanha)

    Homem se protege sob guarda-chuva com o logotipo da União Europeia, em Berlim (Alemanha)

Com sua moeda única sob feroz ataque de mercados financeiros, os ministros da União Europeia reúnem-se na esperança de que a crise do euro gere outro passo no sentido da integração.

Os avanços anteriores para a união da Europa muitas vezes nasceram de crises, mas em geral foram promovidos pelo “motor” franco-alemão. Desta vez, a França e a Alemanha, maiores potências europeias, estão lutando para superar suas diferenças e não têm a coordenação necessária para resgatar o euro de forma definitiva.

Enquanto a ameaça de crise financeira tornou a integração mais essencial do que nunca, os políticos, particularmente da Alemanha, estão tomando uma direção diferente.

“Há uma tensão entre a lógica econômica e a política, e esse é um grande desafio”, disse Jean Pisani-Ferry, diretor de Bruegel, instituto de pesquisa econômica com base em Bruxelas.

Essa questão vai surgir na sexta-feira, quando Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, dirigir uma reunião de ministros de finanças da União Europeia para criar uma “governança econômica” para a Europa.

A Alemanha vai pedir a criação de um novo mecanismo permanente de crise para o euro, com um “procedimento para insolvências governamentais ordenadas”, de acordo com um rascunho da proposta. A proposta está distante das sugestões anteriores que nações como a Grécia não podiam dar calote ou renegociar a dívida enquanto usassem o euro.

Enquanto isso, Berlim quer um novo e duro regime de disciplina fiscal para evitar futuras crises de dívidas. Esse regime incluiria maior supervisão dos orçamentos das nações do euro, talvez pelo Banco Central Europeu, com regras mais estritas e a suspensão ou remoção dos fundos da UE ou direitos de votação para violadores persistentes. A Comissão Europeia já propôs uma supervisão de orçamento mais estrita.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, fez uma concessão na quinta-feira, oferecendo adotar uma versão mais branda da lei alemã que compromete o país a ter um orçamento equilibrado. Isso exigiria uma emenda constitucional forçando os governos franceses a iniciarem seus mandatos de cinco anos com metas de redução de déficit.

Apesar dessa mudança, as diferenças entre França e Alemanha persistem. Por semanas, a chanceler Angela Merkel evitou a pressão francesa por uma rede de segurança para a moeda única, proposta altamente impopular entre eleitores alemães.

Berlim também está resistindo a pedidos –bastante persistentes de Paris- de reforçar a demanda interna para contrabalançar desequilíbrios na zona do euro.

A França quer que a governança econômica fique nas mãos da zona do euro de 16 nações, enquanto a Alemanha prefere se focar em todas as 27 nações da UE, onde a Alemanha pode depender de aliados de fora da zona do euro, como Suécia, Reino Unido e outros países da Europa central e oriental.

Em uma reunião de cúpula europeia no início do ano, o contraste nas perspectivas de política econômica foi impressionante, de acordo com uma nota diplomática lida pelo International Herald Tribune.

Sarkozy pediu uma política industrial mais ativa, de apoio aos “campeões” nacionais; Merkel reclamou das metas econômicas da UE, sugerindo que Berlim teria que se sacrificar para compensar pelos vizinhos menos eficientes.

Essa discórdia mostra a distância em relação ao último grande empurrão para a integração europeia, o Tratado de Maastricht, que seguiu a queda do muro de Berlim.

Apesar da reconciliação franco-alemã ter sido eficaz desde a Segunda Guerra, o relacionamento sempre foi complexo e frequentemente atribulado. A França e a Alemanha diferem em estrutura política e em cenário econômico –portanto, quando Paris e Berlim alcançam um acordo, a maior parte das nações da UE em geral conseguem aceitá-lo.

A diferença agora é que a Alemanha tem estado assertiva e pouco disposta a ceder à liderança política francesa.

“Até os anos 90, uma parte da política externa foi substituída por uma diplomacia de livro de cheque”, disse o ministro do interior da Alemanha, Thomas de Maizière. A reunificação “levou a uma mudança em nossa mentalidade que apenas agora está começando a ganhar terreno em meio à população”.

“A Alemanha atualmente está representando seu interesse nacional com muito vigor. Acho que, com o Reino Unido, França e Itália, esse sempre foi o caso.”

Agora os alemães também se sentem comparativamente menos afluentes. A reunificação custou centenas de bilhões de euros e ainda assim a Alemanha sofreu reformas estruturais dolorosas. A França, enquanto isso, foi na direção oposta, adotando uma semana de trabalho de 35 horas, por exemplo.

Além disso, o impulsivo Sarkozy e a cautelosa Merkel têm dificuldades em trabalhar juntos. Pisany-Ferry acredita que, por fim, os mercados vão fazer pressão para que regras de orçamento mais duras sejam inscritas nos orçamentos nacionais e que as nações que se recusarem sejam punidas com empréstimos mais caros. “Se você não tiver algo assim, você corre o risco de ver seus spreads na Alemanha aumentarem”, disse ele.

Ele argumentou que isso é mais verdadeiro do que ameaçar com sanções contra àqueles que quebrarem as regras –o que nunca aconteceu.

Enquanto isso, os críticos argumentam que a ênfase de Merkel no rigor orçamentário pode mergulhar a Europa em uma longa estagnação. Klaus Barthel, membro da oposição do comitê de economia e tecnologia do Parlamento alemão insistiu: “Temos que ser um motor para a economia europeia.”

Uma autoridade da UE, não autorizada a falar publicamente, disse: “Países como a França devem enfrentar as reformas estruturais necessárias –como fez a Alemanha e que foram a base de sua forte competitividade. Mas certamente haverá espaço para discussão sobre um impulso de demanda.”

Como sempre, apenas a França e a Alemanha podem costurar um acordo. “Por enquanto”, disse uma autoridade, “eles só estão colocando as peças no tabuleiro, e será um longo jogo de xadrez.”

Tradutor: Deborah Weinberg

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