Insegurança perigosa da Coreia do Norte

Ian Bremmer*

  • Kim Do-Yoon/Yonhap/ Reuters

    Tanques do exército sul-coreano fazem disparos durante exercício próximo à zona desmilitarizada

    Tanques do exército sul-coreano fazem disparos durante exercício próximo à zona desmilitarizada

Após semanas de investigação cuidadosa, a Coreia do Sul acusou publicamente a Coreia do Norte de um ato aberto e deliberado de guerra. A evidência é convincente de que a Coreia do Norte torpedeou o Cheonan, um navio da Marinha sul-coreana, matando 46 marinheiros. 

O presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, prometeu agir de forma dura, mas Seul não correrá o risco de travar uma guerra que não pode vencer. Sanções são possíveis, mas não imporão dificuldades que o Norte já não tenha enfrentado antes. Ainda assim, as coisas podem estar prestes a mudar. 

Pyongyang já fez isso antes. No final dos anos 60, ele atacou um navio de guerra sul-coreano, sequestrou um avião sul-coreano, enviou guerrilheiros para invadir o palácio presidencial do Sul e capturou um navio de inteligência da Marinha americana, o Pueblo, mantendo 82 reféns por quase um ano. Em meados dos anos 80, agentes norte-coreanos detonaram uma bomba em um hotel na Birmânia, em uma tentativa de matar o presidente sul-coreano, e explodiram um avião de passageiros, matando 115 pessoas. Em 1996, uma tripulação de submarino norte-coreano desembarcou no litoral do Sul. Mas de lá para cá não ocorreram mais incidentes relevantes. 

Por que agora? Correm rumores de que Kim Jong-il está morrendo, e que ele ordenou o ataque para reforçar o apoio ao seu filho Kim Jong-un entre os falcões na liderança militar do país. Isso é pura especulação, não baseada em fatos. Kim tem realizado uma série de reuniões privadas com convidados estrangeiros nos últimos meses, e seus relatos não oferecem evidência da morte iminente do querido líder. Ele também exibiu saúde suficiente para se encontrar com autoridades chinesas em Pequim no início deste mês, passando muitas horas viajando de um lado para outro de trem. De qualquer forma, os militares têm todo o incentivo para manter o controle das coisas caso o herdeiro designado não esteja realmente no comando. 

Mas há uma ameaça muito mais séria atualmente gerando turbulência dentro da Coreia do Norte. Em 2002, o regime começou a realizar um experimento em pequena escala de capitalismo. 

O plano era minimizar o risco de inquietação civil ao fornecer aos cidadãos acesso a alimentos e produtos de consumo importados que seu governo não podia fornecer. O fluxo não regulamentado de celulares, rádios e fitas de videocassete de novelas sul-coreanas vindos da China criou uma classe comerciante paralela e novas oportunidades para corrupção oficial. 

No início do ano passado, o governo norte-coreano buscou frear o crescente mercado negro. Em 30 de novembro, ele ordenou abruptamente uma reforma monetária para reverter os mercados privados, atacar a corrupção oficial, controlar a atividade do mercado e lidar com a inflação em alta. A meta era matar o Frankenstein capitalista antes que crescesse além do controle do regime. 

As consequências foram dramáticas. Os cidadãos norte-coreanos tiveram uma semana para trocar moedas estrangeiras pela moeda norte-coreana, com um limite do mercado negro equivalente a cerca de US$ 40. O anúncio provocou pânico, com os cidadãos se livrando da moeda e acumulando produtos. A inflação disparou. A riqueza acumulada e as economias do que representa uma classe média na Coreia do Norte – comerciantes, autoridades locais, oficiais militares – evaporaram. 

Sul-coreanos com contatos dentro da Coreia do Norte informaram hiperinflação no mercado negro, severa escassez de alimentos e bolsões de séria inquietação civil. O governo reprimiu rapidamente os protestos e tentou aplacar a raiva popular com fornecimentos de emergência de arroz nas áreas mais duramente atingidas. 

Então algo extraordinário aconteceu: o governo norte-coreano recuou. Ele reabriu os mercados privados e novamente permitiu transações em moedas estrangeiras. O primeiro-ministro emitiu um surpreendente e quase sem precedente pedido público de desculpas. Os planejadores do Estado foram publicamente humilhados. Há poucas semanas, o ministro das Finanças da Coreia do Norte foi executado por um pelotão de fuzilamento. 

Em outras palavras, a sucessão é apenas um dos problemas diante da elite norte-coreana. O temor maior é de que o Estado não possa isolar para sempre o povo norte-coreano, que apenas o acesso a produtos de fora do país podem aliviar a escassez crônica, e que toda esta nova atividade de mercado está elevando as expectativas da população que a liderança norte-coreana não tem como atender. 

Em abril, o regime teria fornecido aos altos oficiais militares carros importados para assegurar sua lealdade. Isso soa muito como a tentativa do líder da antiga Alemanha Oriental, Erich Honecker, de recompensar seus generais com viagens de compras de fim de semana ao Ocidente – uma medida que apenas aumentou o apetite deles por mais e acelerou o fim do país. 

O torpedeamento norte-coreano do Cheonan visava fabricar uma crise militar para mobilizar os norte-coreanos furiosos em apoio ao seu governo? Talvez. O ataque criaria uma união dentro das fileiras militares que poderia ajudar a suavizar o processo de transição quando Kim Jong-il morrer? Talvez. A China e a Coreia do Sul temem acertadamente que um colapso da Coreia do Norte possa provocar uma enxurrada em ambos os países de refugiados doentes e famintos. 

Mas além da especulação, está começando a parecer que a insegurança na Coreia do Norte pode estar se aproximando de um ponto crucial – aumentando o risco de outro ato hostil que poderia levar a um conflito entre forças norte e sul-coreanas, o que apenas terminaria em desastre para ambos. 

*Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group e autor de “The End of the Free Market: Who Wins the War Between States and Corporations?”

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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