Turquia trilha uma rota nova e ambiciosa

Judy Dempsey

Em Berlim (Alemanha)

  • ATTA KENARE/AFP

    Na ordem, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o presidente Lula, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e o ministro das Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, comemoram o acordo nuclear em Teerã, capital do Irã

    Na ordem, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o presidente Lula, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e o ministro das Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, comemoram o acordo nuclear em Teerã, capital do Irã

Ancara irritou bastante as grandes potências na semana passada ao intermediar um acordo com o Irã para troca de urânio

Os Estados Unidos não ficaram satisfeitos com o fato de a Turquia, com o apoio do Brasil, ter atuado fora da esfera das Nações Unidas. O acordo não trazia nenhuma cláusula estabelecendo que o Irã suspendesse o seu programa de enriquecimento de urânio - a questão mais controversa entre o Irã e os Estados Unidos. Washington suspeita de que o Irã esteja implementando o programa de enriquecimento de urânio para produzir armas nucleares.

A secretária de Estado Hillary Clinton esquivou-se da iniciativa da Turquia ao anunciar que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) - China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia -, juntamente com a Alemanha, haviam concordado com uma nova série de sanções contra Teerã.

As declarações de Hillary Clinton se constituíram em um golpe para o orgulho da Turquia. As palavras da secretária de Estado também expuseram os obstáculos que Ancara enfrenta para a implementação de uma nova política externa que busca a resolução das disputas com os seus vizinhos - Iraque, Armênia, Síria e Irã. Essa política, conhecida como “problemas zero”, tem também como objetivo retirar a Turquia da sombra dos Estados Unidos, o seu aliado tradicional, de forma que o país possa se transformar em um protagonista regional que atue conforme os seus próprios desejos. O Irã foi o primeiro teste importante dessa estratégia.

“A Turquia está tentando tornar-se um protagonista importante na região, o que significa que ela precisa reequilibrar a sua relação com os Estados Unidos”, explica Ozgur Unluhisarcikli, do escritório em Ancara do Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos. “No caso do Irã, a Turquia não quer que haja um ataque por parte dos Estados Unidos ou de Israel. E ela também não quer sanções contra Teerã. A Turquia sabe que sanções não funcionaram com o Iraque de Saddam Hussein durante a década de noventa”.

A Turquia tinha também um outro motivo para fazer esta aposta diplomática. O país é atualmente um dos membros provisórios do Conselho de Segurança da ONU, juntamente com o Brasil. Ela não tem poder de veto. Mas a Turquia terá que optar por aceitar as novas sanções, se opor a elas ou simplesmente abster-se quando a medida for submetida à votação no mês que vem. “A Turquia não deseja ser pressionada para tomar partidos”, diz Unluhisarcikli. “Ela poderia se abster, afirmando que tentou encontrar uma solução diplomática”.

Este é um dos motivos pelos quais o presidente Barack Obama passou mais de uma hora na semana passada conversando pelo telefone com o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan a respeito da iniciativa diplomática de Ancara. A Turquia é um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), bem como candidato a ingressar na União Europeia, e Washington não pode se dar ao luxo de ignorar as ambições de Ancara na área de política externa.

Erdogan e o seu novo ministro das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, estão promovendo essa política. Se eles tiverem sucesso, isso significará prestígio e respeito para um país em sua maioria muçulmano e voltado para o Ocidente que está determinado a trazer estabilidade para uma região volátil nas fronteiras da Turquia.

Até o momento, essa política deu resultados mistos. Basta ver o caso da Armênia, com a qual a Turquia rompeu relações diplomáticas em 1993, tendo fechado a fronteira entre os dois países. Dois anos atrás, como parte da estratégia “problemas zero” de Ancara, diplomatas turcos e armênios mantiveram conversações secretas que culminaram em negociações diretas entre os seus presidentes. Em agosto, os dois países concordaram em normalizar as suas relações, naquilo que foi visto como uma grande superação de obstáculos para a promoção da estabilidade na região do Cáucaso.

As fronteiras ainda estão fechadas. Mas conversações estão agendadas. As negociações ficaram paralisadas devido a uma disputa em relação a Nagorno-Karabakh, um enclave armênio no Azerbaijão. Erdogan prometeu ao governo azeri no ano passado que a Turquia não abriria a sua fronteira com a Armênia até que o governo armênio renunciasse ao controle sobre as regiões em torno de Nagorno-Karabakh. Neste mês os Estados Unidos tentaram sem sucesso acabar com o impasse.

Richard Giragosian, diretor do Centro Armênio de Estudos Nacionais e Internacionais, em Ierevan, afirma: “Nem tudo está perdido. Negociações secretas entre a Turquia e a Armênia, conduzidas por autoridades de escalão inferior, ainda estão ocorrendo. Todos sabiam que a solução desse problema não seria fácil nem rápida”.

Além disso, há o governo regional do Curdistão Iraquiano, liderado por Massoud Barzani. A Turquia passou a década passada retratando Barzani como um vilão, acusando-o de ser um fantoche dos Estados Unidos e de conspirar contra a Turquia, mas Erdogan pôs um fim a essa política em relação ao líder curdo.

No mês passado Ancara inaugurou um consulado em Erbil, a capital regional do Curdistão. Se tudo sair conforme o planejado, Barzani visitará Ancara no mês que vem.

Estender a sua política externa até o Curdistão é um grande passo para o Partido da Justiça e do Desenvolvimento, do qual Erdogan é membro. A Turquia ainda não conseguiu acabar com o conflito com a sua própria minoria curda. Os passos cautelosos do partido no sentido de conceder mais direitos étnicos e culturais àquela minoria - uma das condições para que o país possa ingressar na União Europeia -, foram acompanhados por uma nova onda repressiva. A repressão teve início depois que um grupo de combatentes pertencentes ao separatista Partido dos Trabalhadores do Curdistão matou sete soldados turcos em dezembro do ano passado.

“A nova política em relação ao Curdistão tem sido muito difícil”, afirma Henri J. Barkey, membro da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, uma instituição com sede em Washington. “Para a Turquia, acabar com o isolamento político do Curdistão Iraquiano é uma realização importante. Mas a Turquia também precisa lidar com o seu próprio problema curdo”.

A Turquia tem os seus próprios interesses em implementar a política relativa ao Curdistão. Ancara deseja que o Iraque permaneça unido. Mas se conflitos étnicos resultarem em episódios de violência mais sérios, o país poderá se fragmentar.

Em tal cenário, diz Barkey, a Turquia estaria em uma situação melhor se contasse com um parceiro amigável no norte do Iraque, região rica em petróleo. Para os curdos iraquianos, a Turquia é a sua porta para o Ocidente.

Erdogan também estabeleceu como meta melhorar os laços do seu país com a Grécia, algo que é vital para acabar com o impasse relativo ao Chipre, país cuja região norte foi invadida, e que permanece ocupada pela Turquia, 36 anos atrás.

Neste mês, Erdogan recebeu um tratamento bastante amigável ao visitar Atenas. Davutoglu afirmou que a visita foi “uma revolução”.

A manutenção da política “problemas zero” exigirá todas as habilidades dos diplomatas turcos e dos seus congêneres na região. “Nós sabemos que essa política é bastante ambiciosa”, afirma Suat Kiniklioglu, o parlamentar que é vice-presidente do Partido da Justiça e do Desenvolvimento. “Mas nós temos interesse em ver o nosso vizinho estabilizado e em criar interdependências”.

Isso só poderia ser uma boa notícia para os Estados Unidos e a Europa. Washington entende o que a Turquia está tentando fazer. Mas, até o momento, a União Europeia manifestou pouco interesse em um país que deseja ingressar na organização e que está procurando conversar com os seus inimigos.

Tradutor: UOL

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