Vazamento de petróleo inspira novas ideias

Nova York

  • Divulgação Marinha dos EUA

    Petróleo queima em incêndio controlado no golfo do México, para evitar chegada à costa dos EUA

    Petróleo queima em incêndio controlado no golfo do México, para evitar chegada à costa dos EUA

Neste momento em que o vazamento de petróleo no Golfo do México está ameaçando centenas de quilômetros de litoral e em que cresce a frustração quanto à ineficácia das tentativas de limpeza, as comunidades da área do golfo estão buscando alternativas, e às vezes soluções ainda não testadas para tentarem impedir que o desastre ambiental chegue à costa.

Na Ilha Dauphin, uma longa ilha paralela à costa do Alabama na qual há pântanos de água salgada que abrigam garças e pelicanos, centenas de integrantes da Guarda Nacional do Alabama construíram uma barricada de oito quilômetros de extensão, uma obra que está sendo definida por certas autoridades como “o mais longo instrumento do mundo para separar o petróleo da água”.

A barricada é feita com contêineres de tela metálica de 1,2 metro de altura, que normalmente seriam enchidos com areia e usados para deter balas disparadas no Iraque e no Afeganistão. Mas na Ilha Dauphin eles estão sendo envolvidos em um tecido verde e serão preenchidos com um pó de polímero que os técnicos esperam que seja capaz de proteger o frágil habitat dos pássaros e as colônias de ostras da ilha quando o petróleo começar a chegar à costa – algo que eles disseram na última quarta-feira que poderia ocorrer dentro de 48 horas.

“A magnitude disso é talvez maior do que aquilo ao qual estamos acostumados, mas nós sabemos que o método funciona e é limpo”, diz Dan Parker, presidente da C.I. Agent Solutions, uma companhia com sede em Louisville, no Estado de Kentucky, que fabrica o polímero. Parker e a sua equipe estão na Ilha Dauphin há cerca de um mês, após terem sido contratados pela BP à pedido do Departamento de Gerenciamento de Crises do Estado do Alabama.

Mais de 40 anos depois de uma plataforma petrolífera da Union Oil ter explodido a oito quilômetros da costa de Santa Bárbara, no Estado da Califórnia, provocando um grande vazamento em 1969, a tecnologia utilizada pela indústria petrolífera para coletar o petróleo vazado e proteger áreas ambientais frágeis pouco mudou. Os especialistas afirmam que embora a indústria petrolífera tenha investido bilhões de dólares na busca de novas formas de encontrar petróleo, os investimentos em tecnologia de segurança e de limpeza não acompanharam esse ritmo.

“Já se passaram 40 anos, e pouca coisa mudou”, denuncia David Pettit, um advogado do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais. “Os reguladores não obrigaram as indústrias a atualizar a sua tecnologia de limpeza de petróleo vazado”.

A tecnologia de Parker tem como objetivo conter o petróleo, fazendo com que este passe do estado líquido para o sólido. Quando o polímero entra em contato com petróleo e outros hidrocarbonetos, os dois se combinam e se solidificam, formando um material não tóxico e gelatinoso, semelhante à borracha. Esse material pode ser então raspado, removido e reciclado para a fabricação de produtos variados como copos de plástico e asfalto. Ele já foi usado com sucesso em várias operações de limpeza, incluindo um vazamento de 3.800 litros de petróleo no Rio Ohio, em 2003. O problema agora, porém, é que vários milhões de litros de petróleo foram despejados no Golfo do México desde a explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon, no dia 20 de abril último.

“Tecnologias alternativas estão disponíveis há vários anos, mas o processo de adoção dessas tecnologias é muito lento”, explicou Parker em uma entrevista à imprensa. “As companhias tradicionais de limpeza de petróleo vazado vendem tempo e material. Os nossos métodos exigem menos tempo e utilizam menos material, de maneira que essas empresas não gostam deles”.

Cerca de 240 quilômetros a leste, o condado de Walton, no Estado da Flórida, está buscando uma outra – e bastante básica – tecnologia para proteger os seus 42 quilômetros de praias. O plano envolve a utilização de barcaças a várias milhas da costa carregadas com 635 quilogramas de rolos de feno cada uma. As barcaças, equipadas com ventiladores de alta potência, lançariam o feno picado nas águas oleosas e a seguir o recuperariam com máquinas chamadas condutores aquáticos. Em terra, o feno encharcado de petróleo seria queimado como combustível.

Charles Roberts, presidente da C.W. Roberts Contracting, uma companhia construtora de estradas da Flórida que propôs a ideia ao condado, disse que a empresa utiliza o feno há anos a fim de prevenir a erosão e impedir a infiltração de contaminantes em áreas ecologicamente sensíveis. “Nós achamos que este método tem potencial, especialmente em áreas isoladas, para conter o petróleo antes que ele chegue à costa”.

Roberts diz que a companhia gostaria de fazer um teste em grande escala do método de limpeza em águas profundas, mas ela não recebeu nenhuma resposta até o momento nem da British Petroleum nem da Guarda Costeira dos Estados Unidos. Enquanto isso, um vídeo de demonstração desse processo de limpeza, mostrando grandes recipientes cheios de água, petróleo e feno, tornou-se um sucesso no YouTube, tendo sido visto quase 1,5 milhão de vezes.

Uma nova ideia que a British Petroleum concordou em testar recentemente é do ator Kevin Costner, que, nos dias que se seguiram ao vazamento no Golfo do México, criou uma companhia chamada Ocean Therapy Solutions junto com um advogado de Nova Orleans, John Houghtaling, e outros investidores locais.

A companhia, que é um resultado de 15 anos de pesquisas financiadas por Costner como reação à contaminação da costa do Alasca em 1989 pelo vazamento do superpetroleiro Exxon Valdez, desenvolveu separadores de água e petróleo de alta potência que foram descritos como gigantescos aspiradores montados em barcaças.

“As máquinas são basicamente dispositivos sofisticados de centrifugação, capazes de processar um enorme volume de água e de fazer a separação a uma velocidade sem precedentes”, diz Houghtaling, que é diretor-executivo da Ocean Therapy Solutions. A máquina mais poderosa é capaz de processar 760 litros por minuto e de retirar 99% do petróleo da água. A British Petroleum está planejando instalar seis das máquinas da companhia em barcaças para fazer um teste.

Os especialistas da indústria petrolífera dizem que não existe falta de ideias para lidar com o vazamento. De fato, mais de 23.500 pessoas responderam a um pedido da British Petroleum por sugestões, com propostas que variavam do engenhoso ao extremo – incluindo a sugestão de que o poço fosse alvo de uma explosão nuclear.

“Nós somos um povo empreendedor e quando as pessoas veem um problema, elas ficam querendo resolvê-lo”, diz Eric Smith, diretor-associado do Instituto de Energia da Universidade Tulane, em Nova Orleans.

O problema, segundo Smith, é que a maioria das novas ideias não ajudaria porque, quando elas pudessem ser colocadas em prática, a crise já teria passado.

“Algo de positivo que poderia ocorrer a partir disso seria as pessoas se acalmarem e se prepararem para o caso de um acidente desses algum dia voltar a ocorrer”, diz Smith.

Tradutor: UOL

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