O mistério do mestre britânico de paisagens

Souren Melikian

Em Nova York (Estados Unidos)

O caso do retratista de pouca importância do século 18 que transformou-se no primeiro grande pintor de paisagens inglês e que revolucionou a maneira como os mestres europeus abordam a natureza é um desses mistérios do cerne da história da arte que talvez jamais sejam explicados.

Uma pequena e bem organizada exposição na Richard L. Feigen & Co. aborda a história de Richard Wilson pela primeira vez nos Estados Unidos. A exposição, “Richard Wilson e a Arcádia Britânica”, durará até 25 de junho.

Como nas investigações policiais não solucionadas, nós carecemos de elementos que podem ser cruciais na história da evolução de um britânico nascido por volta de 1713 na cidade galesa de Penegoes. Pouco se sabe sobre a juventude do artista, cuja data de nascimento é desconhecida.

Filho de um clérigo, a quem ele era grato por ter lhe fornecido uma intensa educação clássica, o jovem Richard deixou o País de Gales e foi para Londres em 1729 para receber treinamento de Thomas Wright, um retratista de talento mediano, que usufruiu do seu momento de notoriedade. Seguindo os passos desse artista competente, Wilson acabou garantindo para si o mecenato de pessoas poderosas e boas. À época em que ele fez o retrato de grupo “Francis Ayscough with the Prince of Wales and Edward Augustus, Duke of York and Albany” (“Francis Ayscough com o Príncipe de Gales e Edward Augustus, Duque de York e Albany”), provavelmente por volta de 1749, o artista parecia ter se estabelecido em uma rota financeiramente gratificante, embora sem nenhum brilho artístico especial.

Ninguém sabe em que circunstâncias Wilson passou a pintar paisagens. Talvez a visão das paisagens holandesas pintadas por grandes mestres como Jan Both e Aelbert Cuyp nos acervos dos seus mecenas tenha estimulado o retratista a tentar um gênero até então ignorado pelos artistas ingleses. Gaspard Dughet e Claude Lorrain, cujo trabalho era avidamente colecionado por especialistas ingleses, podem também tê-lo estimulado.

O acadêmico britânico Andrew Wilton está atualmente trabalhando em um catálogo das obras de Wilson. No livreto da exposição, ele observa que uma das primeiras paisagens pintadas pelo artista, “Caernavon Castle” (“O Castelo de Caernarvon”), de 1744 a 1745, baseia-se em um esquema de composição utilizado por Dughet. Esse quadro, que pertence ao Instituto de Arte de Detroit, foi alugado para a exposição.

Conforme ocorre em alguns trabalhos de artistas franceses, um monumento se destaca na distância, parcialmente cercado de água, e o pintor recorreu a “árvores de enquadramento” no fundo, para utilizar a frase de Wilton.

Mas essas analogias são muito amplas para serem significativas, e as diferenças são enormes. Ao contrário de Lorrain, Wilson pintou um lugar real. O Castelo de Caernarvon foi construído por Eduardo 1º da Inglaterra em 1283-1284, após a conquista sangrenta do País de Gales. Foi lá que nasceu Eduardo 2º, o primeiro monarca inglês a receber o título de Príncipe de Gales.

Wilson tomou nota da topografia, ainda que de forma não sistemática, conforme era o seu hábito. Mas a sua resposta à natureza revelada nesse quadro é extraordinariamente sensível. Nenhum pintor no cenário da arte europeia tinha ainda demonstrado esse tipo estranho de atenção para os reflexos de um monumento na água, para as nuances de verde – tanto na forma dos tons escuros nas cercas distantes quanto do verde amarelado de uma colina – e tampouco para as tênues fileiras de nuvens no céu, dissolvendo-se sutilmente em uma delicada névoa pálida.

Como se para ressaltar a ousadia dessas inovações, Wilson decidiu representar um artista em primeiro plano, que obviamente é ele próprio. Sentado com as costas viradas obliquamente para o observador, ele está desenhando em uma página de um caderno de esboços aberto. Um homem de pé ao seu lado observa o trabalho em andamento. Isso é uma declaração visual por parte de um artista que está insistindo que a pintura de paisagens deve ser feita ao ar livre. O pintor da forma humana transformou-se em um retratista da natureza como ela é de fato, sendo o primeiro na arte ocidental a integrar-se tão profundamente às suas nuances delicadas.

Em 1750, Wilson deixou a Inglaterra para fazer a obrigatória jornada dos artistas profissionais à Itália, onde ele passou os seis anos seguintes. Mas em uma ruptura revolucionária com a tradição, sobre a qual o catálogo da exposição não diz nada, Wilson reduziu os mais famosos monumentos que servem de justificativas para os seus quadros de paisagens à categoria de elementos secundários.

Uma pintura anteriormente não registrada, assinada com as iniciais dele por volta de 1752, oferece um notável paralelo italiano com a visão anterior do pintor do Castelo de Caernarvon. “Tivoli: The Cascatelli Grandi and the Villa of Maecenas” (“Tivoli: O Cascatelli Grandi e a Villa de Maecenas”) diz respeito à luz e à atmosfera em um dia luminoso de verão. O local famoso é praticamente negligenciado. O sol, não mais visível, colore o céu com uma poeira dourada que aproxima-se do cor de rosa. A água que desce cascateando pela colina pedregosa, para não mencionar a profunda depressão no fundo, oculta por uma névoa de verde amarronzado e caindo para o negro, só é vagamente discernível. E, como no Castelo de Caernarvon, um artista aparece no primeiro plano, sentado em um banco, com a mão erguida em direção a uma tela colocada sobre o cavalete.

À medida que o tempo passou, Wilson continuou fingindo homenagear as grandes estruturas clássicas da Roma Antiga. Por volta de 1754, Wilson utilizou “The Temple of Clitemnus” (“O Templo de Clitemnus”), perto de Spoleto, na Úmbria, como um pretexto para pintar a natureza no campo em um dia nublado. Nesta bela paisagem que foi alugada de um acervo particular de Nova York, esse tipo de trabalho é levado ao extremo da composição. O ponto focal é a árvore no centro do quadro. Uma atenção maior é dada ao cascalho esbranquiçado no primeiro plano, onde estão seções cortadas de antigas colunas romanas, do que ao próprio templo. O jogo entre a luz fria de diferentes tonalidades de verde e a água escura é o objeto real da pintura.

Uma das mais vibrantes odes à natureza de Wilson foi inspirada no cenário circundante: “Lake Nemi and Genzano from the Terrace of the Capuchin Monastery” (“O Lago Nemi e Genzano Visto do Terraço do Monastério Capuchinho”). Ao contrário do seus predecessores franceses do século 17, o mestre britânico não estava interessado em produzir uma composição harmonicamente equilibrada. Ele estava fascinado com a mistura de água e vegetação em uma sinfonia de verdes luminosos na distância, contrastando com o verde mais escuro das árvores mais próximas ao observador. A luz coletada de um sol invisível modela a folhagem em formatos sutis. Mas Wilson observou cuidadosamente o monastério e as estruturas próximas. No seu caderno de esboços de 1754, o monastério e essas estruturas são desenhadas a lápis sem muitos traços de vegetação.

De volta à Inglaterra, o artista produziu algumas das suas maiores obras-primas. “ The White Monk” (“O Monge Branco”), um título que foi inventado no século 19, refere-se a uma paisagem que continua não identificada. Wilton sugere que ela pode ser uma imagem composta que incorpora memórias de uma garganta em Tivoli. Seja a pintura real ou imaginada, o fato é que nela o retrato da natureza transmite uma sensação de autenticidade.

O quadro do Museu de Arte de Toledo, a mais antiga das várias versões, foi pintado entre 1760 e 1762. Uma tempestade paira sobre o cenário. Um promontório rochoso coberto por uma massa de árvores de folhas escuras ergue-se em profunda escuridão à esquerda, e à distância uma colina baixa traz um lado iluminado contra o fundo de um céu de um cinza-chumbo. No primeiro plano, um jovem casal está sentado sob um guarda-sol, em uma faixa de luz, satisfeito e sem prestar atenção à fúria dos elementos que está prestes a ser desencadeada.

Em um período de anos, Wilson deu um grande salto rumo àquele tipo de naturalismo que prevaleceria meio século mais tarde.

No quadro “View of Hounslow Heath” (“Vista do Terreno de Hounslow”), emprestado por um colecionador inglês, uma ampla faixa de água corre pela paisagem em uma inclinação. A borda esquerda da composição corta uma árvore, como se Wilson tivesse selecionado a paisagem através do visor de uma câmera. Essa foi uma maneira nova de observar a natureza real. Os reflexos de um verde tremulante da folhagem no espelho d'água de um branco-aço, as formações pálidas das nuvens luminosas no céu imenso e as tonalidades sutis são diferentes de tudo que até então fora visto na arte europeia.

Desta forma, não é nenhuma surpresa o fato de Turne e Constable terem admirado Wilson. Eles reconheceram nele o mestre que lançou as bases da pintura britânica de paisagens, sem dúvida a melhor do Ocidente.

 


(Exposição Richard Wilson e a Arcádia Britânica. Richard L. Feigen & Co. Até 25 de junho).

Tradutor: UOL

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